O filme Blade Runner de 1982 no tempo, por M. Fernanda Carvalho

Quero falar sobre sentimento. Sobre a humanidade dos Replicantes. Com olhos cheios de vida, pois reflete a luz que nos traz as mais variáveis possibilidades.

do Obvious

O filme Blade Runner de 1982 no tempo

por M. Fernanda Carvalho

Nietzsche, nos conta sobre a história dos dois próximos séculos, quando ele diz que o futuro pronuncia-se em cem sinais, o destino anuncia-se por toda parte, com a tortura de uma tensão, que cresce de década em década, como se estivesse encaminhando-se para uma catástrofe: inquieta, violenta, precipitada como uma correnteza que anseia por chegar ao fim e que não mais se lembra, tem medo de lembra-se. Blade Runner é isso e muito mais, nos traz mensagens sobre o passado e o futuro.

Termino de assistir Blade Runner. Ligo o computador e tento escrever sobre as ideias acerca dessa obra prima. Nesse momento gostaria de poder prender o passado e ter uma daquelas vitrolas para tocar as músicas e me fazer levar por elas, mas lembro de um app e puxo a sua trilha sonora e as escuto e penso que passado e futuro, coexistem no presente e sinto a temporalidade do filme que é impressionante, pois continua extraordinário como tempos atrás. Blade Runner se faz tão presente e nos manda até hoje mensagens sobre o futuro. Acho que daqui algum tempo se for assisti-lo novamente irei ter esse mesmo sentimento de ser tão atual.. e consegue até hoje ir além do tempo. Ridley Scott foi visionário impulsionado pelo romancista Philip K. Dick ao dirigir a trama.

Nessa atmosfera me deixo guiar pelas belas musicas da sua narrativa melancólica, estupenda e encantadora em ambientes frios, escuros, sujos, um destaque a pura ausência de vida.

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Não quero aqui me prender a sinopse do filme, pois acho que o mundo assistiu Blade Runner.

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Quero falar sobre sentimento. Sobre a humanidade dos Replicantes. Com olhos cheios de vida, pois reflete a luz que nos traz as mais variáveis possibilidades. Quatro deles fogem para a Terra, onde não podem habitar e são caçados até serem exterminados sem noção da sua existência de apenas 4 anos. Por isso que eles desembarcam na Terra em busca de informações que lhes possibilitem alterar essa temporalidade.

O homem os inventa a sua imagem e semelhança com mais inteligência e ao mesmo tempo os escraviza assim como os humanos que sobrevivem na terra. Eles são tão humanos e quase robôs. De tão perfeitos se rebelam contra os humanos, quem os criou. Essa perfeição destinada à imitação, e uma metáfora sobre Deus ao criar o ser humano e o próprio homem brincando de ser deus. O criador no filme é uma pessoa que transforma a sua impotência em uma eterna criação de seres mais perfeitos do que ele. Um paradoxo, uma ironia, um divertimento. Ele imortaliza-se na perfeição das obras finitas que projeta. Será Deus tão egoísta?

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O filme é de 1982, mas a trama se passa em Los Angeles, novembro de 2019. E hoje, 2017, já estamos quase lá. E nesse momento ao refletir sobre o filme, e evidente por ser da área da psicologia com pé na filosofia lembro-me do que disse Nietzsche, sobre a história dos dois próximos séculos, quando ele diz que o futuro pronuncia-se em cem sinais, o destino anuncia-se por toda parte, com a tortura de uma tensão, que cresce de década em década, como se estivesse encaminhando-se para uma catástrofe: inquieta, violenta, precipitada como uma correnteza que anseia por chegar ao fim e que não mais se lembra, tem medo de lembra-se.

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E Freud quando diz: “… qualquer que seja a maneira em que definamos o conceito de civilização, o certo é que todas as coisas com as quais buscamos nos proteger das ameaças que emanam das fontes de sofrimento são parte dessa mesma civilização“, (Sigmund Freud, O Mal-Estar na Civilização).

E um destaque é para a cena mais incrível do filme quando Roy chega ao seu fim em sua perfeição salva a vida do exterminador e diz as palavras: “Eu vi coisas que vocês não acreditariam. Naves de ataque em chamas nas bordas de órion. Vi a luz do farol cintilar no escuro na Comporta de Tannhäuser. Todos estes momentos se perderão no tempo… como lágrimas, na chuva”. Com a tristeza de saber que tem alguns minutos antes de apagar a luz levando a sua história, as memórias o passado. A sua luta pela vida que ele perseguia tanto desde o começo. Ele não poderia tirar a vida de outro ser que assim lutava como ele, pois a vida se tornou um valor inigualável. Agora. É tempo de morrer.

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Não somos robôs, não somos desumanizados, não somos embotados, zumbis, somos humanos por sermos complexos demais e demasiadamente humanos somos cheios de passado, onde podemos resgatar a nossa história, como referencia da nossa humanidade e com possibilidades de futuro. É quando Roy diz: “não somos computadores, somos seres vivos”.

Em outubro chega Blade Runner 2049 com a versão do diretor Denis Villeneuve, o mesmo de homem duplicado, Enemy, incêndios, o último dele Arrival, a chegada. Após Trinta anos dos acontecimentos desse primeiro filme. Vale a pena assistir no cinema.

M. Fernanda Carvalho – Carioca, psicóloga clínica e psicanalista, nas horas vagas, blade runner, curto muito cinema, arte, livros e os meus três gatos boêmios. Sou o meu maior desafio. Alguns textos, são meramente articulações inacabadas.

 

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5 comentários

  1. O diretor mais acerta do que erra em seus filmes. Nos sete primeiros filmes. Um é dispensável. Poucos conseguem. Os três primeiros foram uma sequência magnífica.

  2. Parabéns Fernanda, obras primas são eternas, seu artigo homenageia um filme que já faz parte das grandes obras culturais da humanidade, assim como o citado Nietzsche.
    Tive o privilégio de ver o filme no cinema quando foi lançado e até hoje sempre é bom revelo, também desde que meu filho era menino, até hoje costumamos assistir juntos, ler o seu artigo de alguma maneira foi como rever o filme novamente.

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