O homem invisível, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Pois bem... "O homem invisível" tem algumas cenas interessantes. A computação gráfica foi utilizada de maneira extremamente competente. O clima tenso, entretanto, é artificial.

O homem invisível, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Em razão do amor obsessivo pela esposa que fugiu do lar conjugal, cientista forja a morte com ajuda do irmão. Depois ele passa a atormentar a viúva usando um traje especial que o torna invisível.

Após cometer vários homicídios, um deles para incriminar a esposa, o vilão descobre que ela está grávida e tenta reconquista-la. O irmão do vilão é morto usando o traje e ele finge ter sido sequestrado. A esposa aceita se encontra com ele. O final do filme é surpreendente, exceto para quem prestar atenção à conduta da esposa quando descobre a existência do traje.

Pois bem… “O homem invisível” tem algumas cenas interessantes. A computação gráfica foi utilizada de maneira extremamente competente. O clima tenso, entretanto, é artificial. Mesmo assim o filme sugere algumas questões interessantes.

O exercício de um poder absoluto com garantia total de impunidade é algo extremamente sedutor e terrível. Nós etamos acostumados a lamentar a invisibilidade das vítimas de um regime tirânico e opressivo. Não seria melhor discutir a hipótese do sucesso de uma tirania em virtude da impossibilidade dela ser vista pela maioria da população?

Quando agem nas periferias os policiais brasileiros são invisíveis. Os crimes que eles cometem geralmente não são vistos pelas autoridades do Sistema de Justiça. Como no filme, alguns desses crimes policiais acabam sendo atribuídos às próprias vítimas.

Políticos seguidos por uma legião de admiradores fanáticos, irracionais, violentos e dispostos a matar e a morrer para impor a vontade do seu líder também são invisíveis. A invisibilidade deles é paradoxalmente garantida pelo máximo de exposição. Alguns deles parecem ser capazes de intuir que seus defeitos não podem ser vistos mesmo quando mostrados pela imprensa.

Genocidas como Adolf Hitler, Narendra Modi e Jair Bolsonaro não tem medo de cometer pequenas e/ou grandes ilegalidades. Eles fazem tudo o que for necessário para construir o cenário de caos que lhes permitirá eliminar seus adversários e exterminar contingentes populacionais que eles julgam ser indesejáveis. Judeus alemães e europeus, muçulmanos de Délhi e indígenas brasileiros foram condenados a não ser vistos como seres humanos. Mas isso pode ter ocorrido porque os líderes de genocídios não foram enxergados como tiranos assassinos e criminosos por seus seguidores.

O vilão do filme, os policiais que violam direitos humanos nas periferias brasileiras e os políticos genocidas têm uma coisa em comum: a predileção pelo uso do terror. Eles espalham o medo para confundir e paralisar seus adversários e, sobretudo, para obter controle, obediência e submissão de uma maneira ou de outra, consensual ou não.

Nesse sentido, apesar de explorar uma tragédia conjugal banal, “O homem invisível” pode ser considerado uma metáfora do terrorismo policial e político. Quando se impõe como regra esse método quase sempre acaba se voltando contra aqueles que o utilizaram. É isso o que ocorre no final do filme. Também foi isso o ocorreu durante a Revolução Francesa e a Revolução Russa.

Os relacionamentos pessoais, familiares, amorosos, profissionais e políticos deveriam ser menos violentos e mais civilizados. O que garante a tranquilidade conjugal e a paz social não é a opressão e o exercício impune de um poder absoluto e sim o respeito pelo outro. Segundo Aristóteles o fermento da civilização é a amizade nunca a violência. Mas isso está fora de cogitação no filme e, desde o golpe de 2016, na vida cotidiana brasileira também.

“O homem invisível” não é um filme excepcionalmente bom. Merece ser visto mais pelas reflexões que sugere do que por suas virtudes dramáticas. 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora