O SENHOR DA GUERRA

 

 

 

Com tanta porcaria sendo projetada na tela grande, este mês resolvi escrever algumas linhas sobre um clássico. Um filme feito num tempo em que cinema e arte podiam perfeitamente caminhar juntas.

 

O SENHOR DA GUERRA é um daqueles filmes que não envelhecem. Foi construído a partir de referências culturais sólidas e dificilmente outro épico conseguirá reproduzir de maneira tão fiel a Idade Média, um tempo em que heresia e cristianismo se entrelaçavam de uma forma muito maior do que os manuais de história geralmente admitem.

 

Em razão dos serviços que prestou ao Duque, o guerreiro Chrysagon foi nomeado senhor da terra e segue para tomar posse de seus domínios. Chega ao seu feudo e descobre que o lugar é pobre, infestado de pântanos e povoado por servos que ainda cultuam deuses proscritos pelo cristianismo. Após uma rápida batalha com frisões liderados pelo rei que arruinou sua família e que agora atacara a aldeia, Volc, um pajem anão de Chrysagon, captura sem saber um príncipe inimigo. O senhor da guerra, entretanto, ignora a origem nobre do menino e seu valor como refém.

 

Apesar do seu irmão Draco se sentir desapontado em razão da pobreza do feudo, Chrysagon assume seus domínios e procura cumprir a promessa que fez ao Duque. Entretanto, rapidamente incorre no mesmo erro que seu antecessor. O suserano se envolve emocionalmente com Bronwyn, uma vassala que está noiva. Realizado o casamento, Chrysagon reclama seu direito à primeira noite com base no direito das gentes que domina.  Odins, líder dos aldeãos, pai do noivo e pai adotivo de  Bronwyn concorda com o pedido desde que o senhor admita devolver a aldeão pela manhã no dia seguinte.  Chrysagon concorda com Odins e passa a primeira noite com a jovem.

 

Na manhã seguinte o senhor resolve não devolver a aldeã ao seu marido. Tomado de ódio o jovem resolve vingar-se e une-se a Volc, o anão que cansou de ser molestado por Draco e Chrysagon. O pajem estimula o aldeão a procurar o rei dos frisões, assegurando-lhe que seu filho é prisioneiro na torre.

 

Não demora e os frisões retornam para reclamar o filho do rei.  Ao saber que tem em seu poder o filho do inimigo que arruinou sua família, Draco pede um resgate igual ao que ele e Chrysagon pagaram pelo seu pai. Segue-se a guerra, em que a torre é quase invadida. A batalha só se decide em favor de Chrysagon quando seu irmão Draco, que tinha ido buscar ajuda do Duque,  destrói a torre de assédio dos frisões com uma catapulta.

 

Quando tudo parecia estar resolvido, Draco informa Chrysagon que é o novo senhor da terra nomeado pelo Duque. Os dois entram em luta corporal, Draco é morto, Chrysagon devolve o refém ao rei dos frisões para por fim à guerra. Ele é ferido pelo aldeão de quem tomou a jovem e vai se entender com o Duque para reaver seus domínios.

 

O SENHOR DA GUERRA é realmente magnífico. E olhem que não estou me referindo ao cenário, às tomadas externas ou à caracterização das personagens. Também não me refiro às cenas de batalha, que são bastante fidedignas. O filme é magnífico porque procura mostrar o quanto os seres humanos são ridículos e canalhas.

 

Há bastante heroísmo e covardia em todos os personagens. O rei frisão reclama seu filho e vai a guerra para salva-lo, mas é o primeiro a recuar quando seus homens são eliminados como moscas na batalha. Chrysagon, um cristão fervoroso, defende pessoalmente seus domínios com risco da própria vida, mas exige o direito da primeira noite com base nos costumes pagãos. O rei frisão não arrisca a própria vida, o senhor da guerra não cumpre sua palavra de devolver a jovem ao seu esposo.

 

O venerável padre da região convive pacificamente com cultos da natureza proscritos pela Igreja Católica. Ciente de que o cristianismo não autoriza a pretensão do senhor da torre, ele estimula Chrysagon a valer-se do direito das gentes para passar a primeira noite com a aldeã.  Ofendido por Draco, porém, o padre exige respeito e diz que sabe escrever cartas (algo que seria mais importante do que ter uma origem nobre). Ficamos imaginando o que seria daquele padre impiedoso se Draco escrevesse para o Bispo dele relatando seu comportamento. Isto, porém, não ocorre no filme (e dificilmente ocorreria na vida real), pois os nobres medievais eram invariavelmente analfabetos (Duques e reis incluídos). 

 

Altivo na sua igreja e subserviente fora dela, o padre sintetiza bem a contradição da Idade Média: religiosa e violenta; cristã e pagã; piedosa e mesquinha. Numa das cenas memoráveis do filme, Bors  – o fiel companheiro de armas de  Chrysagon – resume bem a complexidade e a fragilidade da Idade Média e do cristianismo medieval. Ele diz que quando veio ao mundo e foi crucificado, Jesus Cristo teria empurrado para o inferno todos os demônios das antigas religiões. Mesmo assim o sangue de um homem congelava quando ele via algum destes demônios nos pântanos e lugares escuros.  Bors admite, portanto, que entre o céu e a terra poderia existir muito mais do que sonhavam em vão os cristãos de seu tempo.

 

Assim como o paganismo sobreviveu durante a Idade Média – fato evocado no filme através do casamento pagão entre Bronwyn e Marc – temos que admitir um pouco do medievalismo chegou aos dias de hoje. Não estou aqui me referindo à religião e sim conflitos costurados no enredo de O SENHOR DA GUERRA. 

 

O filme retrata o conflito entre Chrysagon e Marc, entre Marc e Odins, entre Draco e o padre, entre  Draco e Chrysagon, entre o rei frisão e Chrysagon, entre Volc e o príncipe capturado, ou seja, entre senhores e servos, entre religião e poder civil, entre cristianismo e paganismo, entre uma cultura e outra, entre ambição pessoal e afeição familiar, entre nações inimigas e, sobretudo, entre dever político/militar e amor por uma mulher. Alguns destes conflitos ainda estão muito presentes em nossas vidas. Não costumamos prestar muita atenção neles, nem tampouco procurar suas origens. E por esta razão acabamos sujeitos a cometer os mesmos erros que os personagens deste filme. Ao fim nenhum deles consegue o que pretende.

 

Volc queria um servo, mas acaba tendo que trair seu senhor e é morto com uma flechada. Odins queria que Chrysagon cumprisse sua promessa de devolver Bronwyn para Marc após passar uma noite com ela, mas o senhor da torre resolve conservar a posse da moça.  Chrysagon queria conservar a esposa de Marc, mas perde o domínio da torre e das terras em seu entorno. Marc queria desfrutar a companhia da esposa e a perde, tenta se vingar e é empalado vivo numa árvore morta. Draco queria ser o senhor da torre, mas é morto com uma adaga ao enfrentar seu próprio irmão num combate singular após a derrota dos frisões. O rei dos frisões queria recuperar seu filho, mas só consegue fazer isto perdendo centenas de seus bons soldados. Bronwyn queria desfrutar o amor do senhor da guerra, mas acaba sendo enviada ao reino dos frisões enquanto Chrysagon ruma para o castelo do Duque a fim de tentar remediar o problema que criou ao matar o irmão.

 

A tragédia destes personagens medievais, somos obrigados a admitir, é bem parecida com aquela que fulmina os personagens mitológicos das antigas crenças. Medéia traiu o pai para ficar com Jasão, mas é abandonada pelo esposo e sacrifica os próprios filhos. Édipo mata o pai e casa com a mãe sem saber, quando adquire conhecimento do que fez fura os próprios olhos. Prometeu entrega o fogo aos homens e acaba acorrentado no Tártaro tendo o fígado constantemente devorado por uma águia. Sísifo foi condenado a realizar uma tarefa impossível. Todos estes personagens da antiguidade clássica ganharam o que não queriam apesar de desejarem coisas diversas (exatamente como os personagens medievais do filme O SENHOR DA GUERRA).

 

Bors é o único personagem do filme que não tem um fim trágico. Ele termina exatamente como começou, acompanhando Chrysagon em sua jornada. Mas Bors não é exatamente um cristão. Como vimos, ele admitiu que, apesar da boa nova anunciada por Jesus Cristo, os demônios das antigas religiões ainda podiam ser vistos pelos homens nos pântanos e lugares escuros. Onde exatamente ficam estes pântanos e lugares escuros? Talvez eles fiquem dentro de nós como afirmou Sigmund Freud. Vem daí a necessidade de ver este filme não como se ele fosse um retrato histórico mais ou menos fiel da Idade Média, mas como uma metáfora de outras metáforas que nos ligam à Antiguidade Clássica por intermédio do mundo medieval.

 

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