Porque assistir O Processo, documentário sobre o impeachment

As reuniões de bastidores flagradas pela câmera de Maria Augusta Ramos mostram que o PT tinha uma leitura bem clara do que estava acontecendo, ao contrário do que muitos analistas e políticos avaliaram à época
 
 
Jornal GGN – Há pelo menos dois bons motivos para ir ao cinema assistir O Processo, documentário de Maria Augusta Ramos que aborda o impeachment de Dilma Rousseff.
 
Se você é do time que acompanhou o julgamento pela grande mídia e conhece pouco dos detalhes, terá a oportunidade de ver as batalhas travadas entre PT e oposição, no Congresso, em torno dos argumentos técnicos e políticos. Os trechos escolhidos são ora dramáticos, ora bem humorados, mas sempre claros o suficiente para que até os mais leigos entendam o que estava em jogo ainda que não conheçam todos os personagens envolvidos.
 
O documentário faz um grande esforço nesse sentido: permite que uma fala da oposição seja sempre confrotada por uma da situação, numa clara tentativa de gerar equilíbrio na discussão, algo que simplesmente não existiu na cobertura feita pela imprensa tradicional – que, aliás, se comportou como parte do golpe.
 
Essa busca por um equilíbrio não significa, contudo, que o filme perca tempo tentando criar uma isenção descabida. Se tem alguém que ainda acha que o impeachment não foi um golpe parlamentar, este sairá bem irritado da sala de cinema.
 
Já se você é do time que acompanhou o xadrez político, provavelmente vai perceber que uma das principais virtudes do documentário é avançar sobre os bastidores do lado do antigo governo.
 
Como nenhum político relevante do arco que garantiu a destituição de Dilma quis dar entrevista à equipe de Maria Augusta, o filme segue, na maior parte do tempo, os passos dos senadores Gleisi Hoffmann e Lindbergh Farias, ambos do PT.
 
As reuniões de bastidores flagradas pela câmera de O Processo mostram que o PT tinha uma leitura bem clara do que estava acontecendo, ao contrário do que muitos analistas e políticos avaliaram à época.
 
Para a situação, o impeachment era um jogo de “cartas marcadas”. Os governistas sabiam que pouco importava se a denúncia pudesse ser desmontada de várias maneiras, com o trabalho da árduo da equipe jurídica de José Eduardo Cardozo. A maioria dos senadores da Comissão daria os votos para que Dilma fosse afastada em definitivo.
 
“NÃO TEM MAIS CONDIÇÕES”
 
O que surpreende é que a lucidez no lado petista era tão grande que fez com que Gleisi, em um dos encontros no QG, disparasse a seguinte frase: “Cá entre nós, se ela voltar, não tem mais condições de governar.”
 
À época, petistas negaram com veemência as notícias dando conta de que pudesse existir qualquer intenção de capitalizar a queda de Dilma. Parte da militância encarou isso como abandono.
 
No QG foi discutido ainda que era providencial se dedicar à aproximação com o povo que estava indo às ruas protestar em favor da “democracia”; um povo com anseios que o PT ainda não sabia interpretar muito bem, mas que via em Dilma um “símbolo de resistência”, e nessa resistência, uma janela para pautas maiores.
 
Àquela altura (segundo semestre de 2016), a leitura era de que a Lava Jato estava começando a mudar de alvo, desgastando mais o PMDB e o PSDB, pelo fato de Temer e seus aliados terem sido alçados ao Planalto. Isso favoreceria o PT a médio e longo prazo. Mas os parlamentares petistas não deixaram de aventar a possibilidade de Lula ser preso como o pior dos cenários.
 
Em outra dessas reuniões de bastidores, Dilma foi apontada como uma presidente que fez um governo “muito conservador” para as mulheres, apesar de ter nomeado várias ministras. Mas o distanciamento do governo com pautas à esquerda não era um problema só da Presidência. 
 
MEA CULPA
 
Em outro momento, Gilberto Carvalho aparece fazendo um mea culpa pelo fato de o PT não ter levado adiante a proposta de democratizar a comunicação. Ao contrário disso, a política foi de “encher os bolsos” dos oligopólios de mídia. Outro cutucão foi dado em ministros do partido que simplesmente se recusavam a receber movimentos sociais em seus gabinetes.
 
Carvalho citou esses deslizes do PT que “abriram o caminho” para o golpe de 2016 com a “clareza de que é preciso romper com estes erros”.
 
Maria Augusta, ao contrário do que se poderia esperar, também não teve passe livre com a Presidência. Os momentos em que Dilma aparece no filme foram gravados durante coletivas com a imprensa ou outras aparições públicas. Ela se auto-introduz, a princípio, como uma mulher alvejada pelo machismo da imprensa. Depois, cresce e mostra capacidade técnica de enfrentar o processo tanto do ponto de vista jurídico quanto no discurso político, habilidade evidente quando responde às questões no Senado ou faz seus últimos pronunciamentos.
 
Do lado do golpe, a estrela é a professora de Direito da USP Janaína Paschoal, cujos traços pitorescos parecem ainda maiores na tela do cinema. Quando não está usando o microfone para debulhar o governo do PT e acusar “estelionato eleitoral” como justificativa para o impeachment, Janaína sempre aparece nos bastidores sendo procurada por representantes de movimentos extremamente conservadores. 
 
LINGUAGEM
 
O filme de Maria Augusta Ramos é construido sobre uma linguagem cinematográfica bem crua. Os personagens praticamente se apresentam sozinhos, em polos opostos. A ausência de um narrador facilita o mergulho do espectador na história sem um intermediário. Essa ausência é compensada com inserções textuais nos momentos que pedem contextualizações.
 
CONTINUAÇÃO
 
É de se perguntar se a cineasta pretende continuar a história do golpe em outro filme, já que O Processo termina citando o julgamento do habeas corpus de Lula pelo Supremo Tribunal Federal e sua prisão na Lava Jato em função do caso Triplex. Com isso, deu margem às teorias que de que o impeachment foi só o começo de um atentado maior contra a democracia, que visava tirar das urnas o principal líder do PT.
 

6 comentários

  1. Onde ver esse filme?

    Disseram que estava nos cinemas a partir de 17/05 mas na minha cidade tem 3 redes e nenhuma esta com o filme. Em recife disseram que passa na rede cinemark mas no site nao diz em quais cidades. Podiam colocar em alguma plataforma online que cobrasse para assistir o documentario.

    • Onde assistir

      O documentário já esteve em exibição no São Luiz, em Recife, e voltará a ser exibido amanhã, dia 22. Ele está em exibição também em João Pessoa, no Espaço Cultural José Lins do Rego. 

  2. Oráculo

    Este “processo” pode ter um final  feliz. Lula tornando-se elegível vencerá as eleições. O que isto significa? O golpe foi um acaso do destino pois , com Dilma no governo o PT não elegeria Lula. Seria talvez o fim político de uma geração de  petistas. 

  3. documentário precioso

    Assisti ontem no Cinema Estação Botafogo, em sessão lotada. É claro que era um público já conquistado. Infelizmente, o fime “prega para o coro”, porque dificilmente os partidários do golpe se dariam a opurtunidade de se informar melhor. E quanto aos neutros… bem, eu não ahco que exista nenhum.

    Mas mesmo para nós, do campo da resistência ao golpe, o filme apresenta momentos valiosíssimos de informação, que já foram muito bem comentadas pela Cintia – a autocrítica do Gilberto Carvalho, a performance histriônica da Janaína… Isso acontece pelo enorme talento de Maria Augusta Ramos, o que só é novidade para quem não conhece seus trabalhos anteriores, sobretudo a trilogia composta pelos filmes “Justiça”, “Juízo” e “Morro dos Prazeres” – que estão disponíveis em DVD – , sobre o processo do fazimento da justiça, nos seus aspectos mais íntimos, pessoais e ao mesmo tempo profundamente políticos. Como em todos eles, aqui não existe “explicação” – fora os intertítulos que expõem os fatos essenciais – nem voz off, a narração do filme está exposta pelas falas e pelos – expressivos – silêncios desse filme de quase duas horas e meia de duração.

    O trabalho de MAR é profundo pelo rigor de sua abordagem e pela sua grande capacidade de usar o tempo que for necessário em cada cena, para que sua câmera capte sempre uma verdade essencial, mesmo que seja um detalhe banal ou cômico – como o presidente da comissão interrrompendo a sessão para que os eletricistas instalem uma campainha mais forte, de modo que sua autoridade se faça ouvir no tumulto dos discursos, ou a “tropa” de jornalistas desembarcando às pressas de um ônibus para a sessão votação final no Senado.

    Por tudo isso, “O processo” é, além de um documento precioso da história deste país, um momento de grande cinema – e isso ninguém com um mínimo de cérebro e por mais comprometido que seja, pode negar,

  4. documentário precioso

    Assisti ontem no Cinema Estação Botafogo, em sessão lotada. É claro que era um público já conquistado. Infelizmente, o fime “prega para o coro”, porque dificilmente os partidários do golpe se dariam a opurtunidade de se informar melhor. E quanto aos neutros… bem, eu não ahco que exista nenhum.

    Mas mesmo para nós, do campo da resistência ao golpe, o filme apresenta momentos valiosíssimos de informação, que já foram muito bem comentadas pela Cintia – a autocrítica do Gilberto Carvalho, a performance histriônica da Janaína… Isso acontece pelo enorme talento de Maria Augusta Ramos, o que só é novidade para quem não conhece seus trabalhos anteriores, sobretudo a trilogia composta pelos filmes “Justiça”, “Juízo” e “Morro dos Prazeres” – que estão disponíveis em DVD – , sobre o processo do fazimento da justiça, nos seus aspectos mais íntimos, pessoais e ao mesmo tempo profundamente políticos. Como em todos eles, aqui não existe “explicação” – fora os intertítulos que expõem os fatos essenciais – nem voz off, a narração do filme está exposta pelas falas e pelos – expressivos – silêncios desse filme de quase duas horas e meia de duração.

    O trabalho de MAR é profundo pelo rigor de sua abordagem e pela sua grande capacidade de usar o tempo que for necessário em cada cena, para que sua câmera capte sempre uma verdade essencial, mesmo que seja um detalhe banal ou cômico – como o presidente da comissão interrrompendo a sessão para que os eletricistas instalem uma campainha mais forte, de modo que sua autoridade se faça ouvir no tumulto dos discursos, ou a “tropa” de jornalistas desembarcando às pressas de um ônibus para a sessão votação final no Senado.

    Por tudo isso, “O processo” é, além de um documento precioso da história deste país, um momento de grande cinema – e isso ninguém com um mínimo de cérebro e por mais comprometido que seja, pode negar,

  5. Análise do filme

    Gostaria de ver este texto publicado no portal:

     

    O Processo – um filme perturbador

    por Rodrigo Lucheta

     

    Hoje assisti ao filme O Processo. É um filme perturbador. Saí do cinema perturbado porque descobri que não se trata de um filme sobre o processo de destituição da presidenta Dilma. É, antes, um filme sobre o Processo. Isso, evidentemente, não exclui o processo de impeachment, acontece que esse processo, no filme, não é essencial: o essencial é o Processo; o protagonista é o Processo. Porém, descobrir que se trata de um filme sobre o Processo não apazigua nada, a perturbação dura, porque o Processo é duplo e ao mesmo tempo é invisível. É duplo porque é um processo de destituição da Dilma (e neste sentido ele já acabou) e é também um processo de mudanças profundas na vida política, social e econômica do país – ele se desdobra nas reformas do Temer, na prisão do Lula e na fumaça preta de bombas com que o filme acaba; sem que o Processo tenha se revelado, sem que o Processo tenha chegado ao fim. O filme, portanto, não termina, porque o protagonista, o Processo, ainda não nos devolveu o país.

     

    O Processo, além disso, é invisível. Uma das singularidades do documentário é o fato de não haver intervenções da direção em forma de perguntas ou entrevistas. Ninguém olha para a câmera durante o filme; aliás, não há tempo para isso – todos ali, acusação e defesa, aparecem em ação ou em reação (como que representando uma peça de teatro). A única passividade é a nossa diante do palco. O olho da câmera é um olho passivo, quase sempre parado. É evidente que há as escolhas do que filmar, de que ângulo filmar, de que maneira montar os pedaços filmados, etc. Mas a intenção autoral, artística, não está em intervir montando ou fazendo tomadas geniais: a intenção é mais modesta, sóbria: ela visa simplesmente olhar o teatro, o desfile, o Processo. Por que esse olho passivo? Por que se contentar em apenas olhar? É que o Processo é invisível, fugidio: não se pode invocá-lo sem que ele fuja. É preciso realmente discrição e sobriedade para vê-lo. Vê-lo, entretanto, não significa desvendá-lo. Vê-lo significa simplesmente isto: dar-se conta de que há um Processo. Maria Augusta Ramos nos ajuda nessa constatação.

     

    Todas as personagens do documentário parecem representar um papel, inclusive a defesa de Dilma, que em vários momentos, em off, revela saber que se trata de um “jogo de cartas marcadas” em que o Processo, que dirige a todos, vencerá no final. Todas as personagens do filme são autoexplicativas (elas não são apresentadas por narradores ou por legendas): elas são o que revelam e aqui eu não posso deixar de anotar as minhas idiossincrasias: o papel diminuto (proporcional à personagem, aliás) de Aécio Neves; a irrelevância intelectual e a evidente demência de Janaína Paschoal (que sem o empurrão do Processo não seria nada); o sangue frio de Gleisi Hoffmann, cujo marido foi preso a mando do Processo em momento crucial do processo contra a Dilma; a perversão criminosa nas falas e nos gestos de Eduardo Cunha; a prepotência (às vezes a tranquilidade) dos senadores de acusação em face da certeza de que o Processo venceria; a majestade serena da própria Dilma, como que pairando sobre as cabeças dos demais atores da peça, etc. Todos, absolutamente todos, sabiam-se representando, inclusive Dilma (“da outra vez durou vinte anos porque não tinha Internet, desta vez vai durar menos”, disse a presidenta antes da deposição). O Processo tinha (e ainda tem) a todos nas mãos.

     

    O filme nos apresenta alguns pares: 1) a multidão dividida, contra e a favor; 2) a acusação e a defesa entre os senadores; 3) a macropolítica partidária de um lado (a narrativa) e, de outro, a micropolítica dos gestos (os afetos); 4) o processo da (na) Dilma e o processo do (no) país.

     

    No nível da narrativa, todos representam o seu papel: a acusação, a defesa, a mesa, os advogados, o rito. O Processo controla a todos, envolve e desenvolve a todos em sua passagem.

     

    Esse nível da representação, da narrativa, é o mais visível do filme, juntamente, claro, com os gestos dos envolvidos, gestos que escapam ao script e que preenchem o sentido do que se passa: os gestos deixam ver as cordas que movem todos os títeres – ainda que não nos revelem quem seja o titeriteiro. O Processo, como eu disse, é invisível. Eduardo Cunha, por exemplo, que inicialmente aparece como causa dos acontecimentos, é descartado a meio caminho – é destituído do seu cargo em meio a denúncias de corrupção. Maria Augusta Ramos faz questão de perseguir a personagem Eduardo Cunha até o momento em que esta é descartada: é crucial para a diretora distinguir bem: uma coisa é o deputado que aceitou a denúncia contra Dilma, outra coisa, bem diferente, é o Processo. Este é invisível, impessoal, e segue seu curso, ainda que seus grandes operadores saiam de cena.

     

    Este é o grande desafio que o filme nos propõe: quem é ou quem são os titeriteiros que controlam o Processo? Respostas simples não respondem a essa questão. Ademais, Dilma e sua defesa também eram atores nas mãos do Processo. Todos sabiam que perderiam no final. Não digo, evidentemente, que Dilma é cúmplice de seu próprio impeachment. Digo que sua atuação, como a de sua defesa, foi uma atuação involuntária, forçada – mas consciente: o Processo venceria no final e todos sabiam disso. Talvez, num futuro próximo, venha a ser feita uma sequência desse filme, que permanece aberto. Nesse ínterim, cabe assistir ao Processo in loco. Ele segue a todo vapor, ora como diretor de teatro (as sessões do STF), ora como rolo compressor (aprovando medidas impopulares no Congresso, prendendo opositores políticos, etc).

     

    O filósofo Gilles Deleuze diz que na arte do titeriteiro existem três tipos de linhas: a linha abstrata, a linha dos gestos e a linha da história. A linha da história é a mais “dura”. É aquela que organiza os gestos do títere e os coloca em movimento segundo uma sequência previamente fixada: é o enredo. A linha dos gestos é a linha representativa, é a linha dos significados, das várias posições do títere. Já a linha abstrata são as cordas que movem os bonecos. É importante perceber que os movimentos dos dedos do titeriteiro (e consequentemente os das cordas que ele move) não têm nada a ver com os movimentos do títere. Às vezes o titeriteiro levanta um dedo para que o títere baixe um braço. O poder do titeriteiro está nessa conversão que apenas ele domina. A nós, espectadores, cabe apenas ver e entender os gestos e a história que os bonecos nos contam – a “linguagem” das cordas, a linha abstrata que governa tudo nos escapa. É aqui que o Processo se torna perturbador. Seja ele quem for, ele é da ordem da linha abstrata. Nenhum gesto de títere explica a linha abstrata, ou seja, o Processo. É importante olhar o enredo? Certamente. Mas é preciso não cair na facilidade de achar que a história dos bonecos ou a luta dos bonecos explicará como o Processo põe a todos em movimento… ou em passividade, visto que cada um de nós também representa um papel nessa história.

     

    Rodrigo Lucheta

     

    Texto publicado originalmente em: https://machinedeleuze.wordpress.com/2018/05/27/o-processo-um-filme-perturbador/

     

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