Primeira coprodução sino-brasileira sai do livro, por Sílvio Reis

O romance histórico “A Mula do Ouro” pega carona na construção ferroviária brasileira, quando cinco mil chineses morreram de doenças da época. A  adaptação do livro para o cinema será produzida por uma produtora brasileira.

Primeira coprodução sino-brasileira sai do livro

por Sílvio Reis

Quinze anos depois de criar a Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (Cosban), em 2004, o primeiro filme produzido pelo Brasil e a China sairá do papel. Ou melhor, das páginas do livro “A Mula do Ouro”, do engenheiro fluminense Eduardo David, 71.

As diversas histórias dessa História se passam entre 1825 e 1891 e têm como cenário predominante a construção da Estrada de Ferro Dom Pedro II, entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais. Em destaque, a primeira seção do centro do Rio até a estação de Japeri (antiga Belém).

O casal de chineses Chen Tairong e Liu Zhengqin, aposentados do serviço diplomático, pesquisava sobre os primeiros imigrantes chineses no Brasil e conheceram o histórico ferroviário na primeira edição de “A Mula do Ouro” (2009). A publicação foi apresentada ao conselheiro cultural da Embaixada chinesa em Lisboa, Su JIanping, com atuação na Embaixada da China em Brasília. Por conta de interesses manifestados, o autor David acrescentou um personagem chinês na história.

O médico Nuno Huang, nascido em Macau, não conseguia o suprimento de remédios à base de chás, durante a Segunda Guerra do Ópio (1856) e procurou na flora brasileira um equivalente terapêutico. A precária saúde do Brasil imperial é confrontada com a Medicina Tradicional Chinesa, em especial a acupuntura. O novo personagem entrou na segunda edição do livro, em 2015, publicada em português e inglês (“The Lost Mule´s Gold”).
Dois anos depois, em setembro de 2017, os presidentes Xi Jinping e Michel Temer assinaram 14 acordos bilaterais, inclusive a parceria para produção cinematográfica entre os dois países, a ser viabilizada por uma produtora brasileira ainda não definida.

Para o primeiro semestre deste ano, a publicação terá uma versão mandarim para distribuição no mercado asiático. Segundo David, o cônsul-geral da China no Rio de Janeiro, Li Yang, pretende divulgar a obra na comunidade chinesa no Brasil, estimada entre 250 e 300 mil imigrantes e descendentes.

O título “A Mula do Ouro” se refere a uma lenda regional do século 16 sobre a existência de barras de ouro no fundo do rio, transportadas por contrabandistas no trajeto de Minas Gerais ao Rio de Janeiro. Para a grande tela, o livro oferece personagens brasileiros com diversidade étnica, integrantes da Família Real Portuguesa, entre outros. Um mestre ferroviário espanhol, especializado em abertura de túneis, sugere o alter ego do autor.

Com pós-doutorado em Engenharia de Transportes, Eduardo David mora atualmente na Alemanha e poderá retornar ao Brasil para implantar um projeto premiado: metrôs de levitação eletromagnética. Antes do romance histórico, ele já tinha três livros publicados sobre a história ferroviária no Brasil.

Parcerias complementares

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Desde 2010, o Brapeq, Festival de Cinema Brasileiro em Pequim e Xangai, divulga filmes na China. Em Macau, o Festival de Artes e Cultura entre a China e os países de Língua Portuguesa também fortalece a de integração sino-brasileiro, assim como os festivais internacionais do BRICS, que começaram em 2006, na capital indiana Nova Déli.

O longa  brasileiro “Nise, O coração da Loucura”, dirigido por Roberto Berliner, ganhou  o prêmio Panda de melhor filme no II Festival Internacional de Cinema BRICS, em Chengdu, sudoeste chinês.  E foi o primeiro filme brasileiro distribuído comercialmente na China, Exibido em 600 salas de cinema, rendeu cerca de US$ 73 mil, segundo o site Box Office Mojo, especializado no mercado cinematográfico mundial.

Em 2017, os cinco países do BRICS lançaram o primeiro longa-metragem coletivo. “Where has time gone” (Para onde foi o tempo) reúne cinco curtas. O Brasil é representado pelo documentário “Quando a Terra Treme”, de Walter Salles, sobre o desastre ambiental da Samarco, em Mariana.

No ano passado, como complemento ao III Festival do BRICS em Durban,  África do Sul, diretoras dos cinco países, incluindo Daniela Thomas, contaram histórias de mulheres  no longa “Half the Sky” (Metade do Céu). A edição 2019 do festival será em Niterói.

Produções independentes contam ponto na parceria entre os dois países. O Brasil já tem pelo menos três filmes com a temática chinesa: “Jia Zhang-ke, um Homem de Fenyang” de Walter Salles; “Made In China”, de Estevão Ciavatta, e o documentário de Hugo Katsuo: “O Perigo Amarelo nos dias atuais”.

A primeira coprodução sino-brasileira ainda não tem data de lançamento, mas já se sabe que vai seguir critérios do acordo bilateral, como filmagem nos dois territórios. Além de Macau e Hong Kong, há uma terceira opção. Em 1874, “cerca de mil chineses conseguiram embarcar por Cantão, com destino aos portos brasileiros…”

Os filmes realizados conjuntamente serão considerados produtos nacionais em ambos os mercados e terão acesso aos mecanismos públicos de financiamento disponíveis nos dois países. Com a extinção do Ministério da Cultura no Brasil, o projeto cinematográfico sino-brasileiro poderá passar por mudanças.  

Silvio Reis, jornalista

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