Procurando Dory: a moral inclusiva que queríamos ter, por Reinaldo Melo

Por Reinaldo Melo

Procurando Dory e a Moral Inclusiva Que Queríamos Ter

As animações se tornaram um gênero de cinema a ocupar constantemente espaços cada vez maiores nas salas do mundo todo. Se por um lado demonstram que ganharam um respeito à altura das grandes produções, por outro correm o risco de banalizarem personagens e temáticas por meio de abordagens supérfluas e até forçadas, ainda mais quando se trata de continuações.

A Pixar errou feio em Carros 2, desperdiçando o potencial das duas personagens principais, McQueen e Mate, e em Procurando Dory poderia cair no mesmo risco ao não aproveitar o caráter cativante e complexo da personagem. 

E quase conseguiu no desenvolvimento do primeiro ato do filme, que se acelera rapidamente sem explicar de forma convincente um motivo plausível de sua repentina memória sobre seus pais. No entanto, é no decorrer do filme que se torna coerente o motivo de sua lembrança e jornada, não apenas por meio de suas ações, mas por meio do conjunto de personagens a colaborarem com Dory, Marlin e Nemo. Personagens cujas imperfeições trouxeram-nos a condições de deslocamento e até marginalidade em seu meio social.  E é nisto que Procurando Dory se demonstra como uma animação à altura de Procurando Nemo. Enquanto que neste duas histórias eram contadas paralelamente, a jornada em busca de Nemo e o aprendizado de Marlin sobre seus traumas que limitavam seu filho, naquele temos três, a procura de Marlin e Nemo por Dory, a jornada desta em busca dos pais e o encontro e autoconhecimento dela e de outros personagens

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Procurando Dory é um filme sobre inclusão, um tema cada vez mais caro à nossa sociedade e tratado constantemente de forma hipócrita. Este tratamento é construído por meio da metáfora da correnteza, uma correnteza de indiferença a qual leva Dory a ser excluída de seu lar. A solidão da personagem é reforçada pela construção de planos escuros por onde a personagem ainda na infância e adolescência perambula à procura de casa, mas recebe um tratamento de desprezo de diversos peixes por causa de sua deficiência, a perda de memória recente. E mesmo depois em planos claros, após um ano do primeiro filme, por conta disso, ela ainda é excluída de participar, por exemplo, de passeios. E é num momento de exclusão que ela é levada pela correnteza e desaparece.

 
 Discriminação, não aceitação, luta por inclusão, deslocamento são elementos da narrativas incorporadas nas personagens que habitam um centro de reabilitação e que ajudam a construir a trama. Temos Destiny, uma baleia míope,  Bailey, uma baleia branca que perde sua capacidade de ecolocalização, Hank, um polvo antissocial que não quer voltar para a vida marítima, mas viver isolado dentro de um aquário, Becky, uma mobelha autista, e Fluke e Redder, leões marinhos a hostilizarem Gerald, da mesma espécie, mas que não se enquadra no padrão daqueles dois.

 

 E é através da relação de Dory com o polvo Hank que se centralizam os elementos conflituosos. Primeiramente para com o contrate entre azul de Dory e o vermelho de Hank, no entanto, há uma demonstração clara de que sua condição Ictiofobia (o mesmo que misantropia para nós) não é definitiva, pois é por meio de suas mudanças de cores que se demonstra o potencial multifacetado do polvo, que pode possibilitá-lo a conviver com os diferentes. Ao mesmo tempo, Dory o interpela por sua mania de culpar os peixes deficientes pelos sofrimentos que passam. Como alguém com três corações perde a capacidade de usar pelo menos um? Como se pode querer não ter contato com ninguém no mundo? 
    

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A humanização em torno dos conflitos se dá pelo elemento do toque, personagens se abraçam, se carregam em atos de recíproca ajuda, a nos mostrar que todos dentro de qualquer contexto social possuem interdependência e qualquer desencontro ou afastamento pode pôr todo um objetivo comum em perigo.
 

Porém, não se demonstram pieguices convenientes. Ao mesmo tempo em que coloca a importância da conexão e interdependência, repete, de outra forma, a mensagem do primeiro filme: a necessidade de confiar na capacidade do outro de solucionar questões que só a ele pertencem (aqui faço um ressalto do curta-metragem Piper, que antecede ao filme). O lema Resgate, Reabilitação e Retorno rima com a correnteza inicial, a mesma correnteza que separa é a que é capaz de unir, uma imagem de que a vida não segue um roteiro previsível. É diante das diversidades imprevisíveis que se é possível a humanização, é por meio da marcha-ré, muitas vezes necessária, que se pode superar as agruras, como bem demonstra o último ato do filme.

   

Procurando Dory é um filme que demonstra a moral que queríamos ter, uma sociedade inclusiva, de compreensão, com a predisposição de ver que qualquer indivíduo, com cada incapacidade que possui, é capaz de conquistar confiança e demonstrar que está mais próximos dos seres humanos “normais”, “ sem deficiências”, do que se imagina. Mais uma vez o cinema demonstra capacidade de ser uma arte capaz de educar e projetar uma humanidade futura em que inclusão não seja uma palavra enunciada como exceção e urgência, mas uma palavra desaparecida, pois, nesse futuro, longe de existir, o desaparecimento da exclusão possibilitará o não pronunciamento da necessidade de incluir. 

Há uma cena importante depois dos créditos que possibilita a feitura de um terceiro filme.

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Reinaldo Melo é poeta, professor de literatura e tenta ser crítico de cinema, consciente de suas deficiências. 

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5 comentários

  1. Vi com meu filho e adorei.

    Vi com meu filho e adorei. Precisamos sim de muitos filmes/peças/arte em geral de qualidade, que mostre ludicamente ao ser humano o quanto pode ser bom conviver com o outro/diferente. É uma caminho mais produtivo, se comparado às críticas feitas aos politicamente incorretos. Se a xenofobia, o racismo, a homofobia e o machismo fossem abordados assim, desmistificando e descontruindo crenças estúpidas de modo prazeiroso, sem a imposição de uma “moral certa”, teríamos uma melhora significativa da sociedade. O amor é revolucionário.

  2. É a famosa inversão, filmes que deveriam ser para crianças com..

    É a famosa inversão, filmes que deveriam ser para crianças com mentalidade adulta e filmes adultos cada vez mais infantilizados.

    Deveremos no futuro só assistir a seção da tarde?

    • Por agora, lembro me de 2

      Por agora, lembro me de 2 filmes dos quais eu e minha filha saimos antes do final por na otolerarmos aquela merdaiada:  “bridge to terabitha” e “alvin and the chipmunks”.  O primeiro eh filme evangelico -doutrinacao do comeco ao fim-, o segundo eu nao sei o que eh de tao ruim.  Curiosamente, agora que voce mencionou…  ambos eram filmes para adultos com fantasia e apresentacao de filmes de criancas!

      Ah, lembrei do terceiro filme (e houve outros) completamente psicotico do qual caimos fora antes do fim: “where the wild things are”.  Eu quero estrangular quem foi responsavel por essa atrocidade, de fato.  Que pavor!

      Filme de crianca que eu vi e adorei do principio ao fim?  “Maleficent”.   (A Disney acerta pero solamente de 10 em 10 anos, o resto eh tudo crap).

      Mas vi sozinho, minha filha ja nao suportava a minha presenca ou proximidade (hei, ela vai voltar ao normal em 3 anos, ela ta com 14 agora!).

  3. Filosoficando longa e confusamente…

    A promessa falsa desse tipo de filme eh que de acordo com minha unica teoria comparativa, a  teoria das narrativas, todo mundo tem uma “prohibicao” que tem que ser superada no fim do filme ou narrativa.

    O problema com isso eh que quem na vida real eh -digamos- cego eh cego mesmo, nao ha “passagem do tempo” que cure isso.

    As “promessas” das premissas narrativas que voce descreveu sao todas falsas.  Elas dependem NO FILME da passagem do tempo pra se “consertarem magicamente”.  Narrativamente pode ate funcionar, mas na teoria das narrativa SOMENTE.  E esse eh um erro gritante da teoria das narrativas, diga se de passagem.

    Nao ha “prohibicao” na vida real:  quem eh cego eh cego mesmo.  Quem eh preto eh preto mesmo.  Quem eh autista eh autista mesmo.  Etc etc etc…

    A diferenca eh que a “prohibicao” eh oriundada de um “leviatan”, do “contador de historia”, enquanto na vida real…

    Se o ponto do filme eh aceitacao eu ate assisto (e ainda nao assisti embora tenha assistido o trailer varias vezes).  Se o ponto do filme eh magicamente abolir todas as “prohicoes” da narrativa ao final -feliz- da historia…  pra mim nao bate!  O mais conhecido exxemplo eh “Magico de Oz”.  Eh so -na passagem do tempo- adquirir um “objeto magico” (tambem parte da teoria das narrativas) para que magicamente o problema especifico se resolver.

    Na vida real, esse objeto nao existe.  Nos casos de negacao (digamos, voce eh preto) voce precisa de um “objeto magico” pra ser aceito desde que continue preto, e esse objeto magico eh psicologico.  Nos casos de (digamos) defeitos fisicos, voce precisa de um “objeto magico” pra nao ser ou se ver como “anao”(!!!).  Mas isso tudo ja depende de uma pre-concepcao “sua” (do anao) a respeito de quem esta em posicao de julgamento a seu respeito.

    Entao…  Existe um ponto no qual voce NAO considera um pre-julgamento de sua “plateia” e toma decisoes somente baseado em sua concepcao do que eh o mundo?

    Pra mim o filme -por enquanto- soa como “Beba Coca Cola”.  Ta bom.  Mas eu ja decidi por Guarana…

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