Reclusões nos filmes brasileiros (II), por Walnice Nogueira Galvão

A reclusão como tema no cinema nacional, juntando poesia e verdade.

Obra de Arthur Bispo do Rosário

Reclusões nos filmes brasileiros (II)

por Walnice Nogueira Galvão

O documentário de Marcos Prado, Estamira (2004), leva o nome de sua protagonista. Ela  não está confinada, mas é como se estivesse, pois seu horizonte não ultrapassa o lixão onde vive e do qual extrai seu sustento. Assiste-se a uma impressionante dissecação das condições de vida de uma pessoa limítrofe e de suas fantasmagorias.  Estamira tem o dom da palavra e sua linguagem guarda parentesco com o universo do poético e do profético. Nem por viver num lixão abriria mão de sua meditação sem repouso sobre os seres humanos, a sociedade, a religião e o destino, bem como a tragédia de uma Terra transformada em lixo, que é sua experiência existencial. É uma protagonista extraordinária, num documentário extraordinário, que ganhou inúmeros prêmios pelo mundo afora.

Em Bicho de sete cabeças, filme de ficção, temos a dolorosa história de um jovem cujo pai, tendo desistido de convencê-lo a deixar as drogas, opta por interná-lo num manicômio. Dirigido pela promissora cineasta Laís Bodansky, tem por protagonista Rodrigo Santoro, que mais uma vez empresta seus talentos e sua bela estampa a um papel de relevo. O desespero sem socorro à vista que se torna seu quinhão na vida funda um universo kafkiano.

Holocausto brasileiro reconstitui a trajetória do hospício de Barbacena, em Minas Gerais,  um dos mais famosos  do país, citado até na ficção de Guimarães Rosa. Como o título indica, trata-se de uma denúncia do descaso a que eram relegados os internos, submetidos a fome, castigos físicos e tortura. Os trechos de filmes e as fotografias dão uma noção do inferno em que viviam.

Entretanto, nem tudo é negativo. Há motivos para orgulho em outro manicômio, em que brilharam figuras como a Dra. Nise da Silveira e Artur Bispo do Rosário. O cineasta do Cinema Novo, Leon Hirszman, diretor entre outros de Eles não usam black-tie, realizou um documentário em que teve a Dra. Nise como co-roteirista e entrevistada, em 1987. Em três episódios, Imagens do inconsciente analisa detidamente três artistas reclusos, pacientes dela.

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Bem mais tarde, surgiriam outros filmes, como Nise – O coração da loucura (2016), com Glória Pires encarnando a doutora, sob a direção de Roberto Berliner. Retrata a vida e sua missão em prol de tratamentos mais compassivos, logo após deixar a prisão a que fora recolhida por motivo do Levante Comunista de 1935. Condenando métodos desumanos como o eletrochoque e a lobotomia, lutou para impor a terapia ocupacional e suscitar a expressão dos conflitos psíquicos dos doentes através da arte. Mais tarde fundaria o Museu do Inconsciente, que lá está até hoje, na colônia psiquiátrica Juliano Moreira, no subúrbio de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.

Entre os documentários que lhe foram dedicados, ela ganhou também um  que acabaria por ser sua última entrevista, O olhar de Nise (2015),  dirigido por Jorge Oliveira. Mulher culta e intelectual que era, de idade avançada, já tendo perdido o marido que lhe dava apoio, vivia com seus numerosos gatos em meio a uma enorme biblioteca.

Em meio a tanta luta em prol dos doentes mentais, a imposição de novos métodos mais humanos e a fundação do Museu, surgiria uma estrela, a brilhar no firmamento das artes visuais. É Artur Bispo do Rosário, interno do Juliano Moreira durante toda a sua vida e até à morte, que ganhou uma galeria especial como principal artista da 20ª. Bienal de São Paulo e já foi exposto no exterior. Sua grande arte, feita de sucata, detritos e refugos da sociedade de consumo, já percorreu o mundo, para embasbacamento de todos, ante a dificuldade de classificá-la: não é pintura, nem escultura, nem instalação… talvez assemblages de objets trouvés. Já lhe dedicaram dois filmes:  O senhor do labirinto (2014), direção de Geraldo Motta, e O prisioneiro da passagem (1982), dirigido por Hugo Denizart, fotógrafo e psicanalista, documentário de 30 minutos. Pode-se garantir que outros virão e que sua vida, bem como sua obra, estão ambas longe de se esgotar.

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Hoje a obra deste homem negro, pobre e nordestino, que ouvia vozes e acreditava em sua missão salvacionista, é tombada e transita por exposições no mundo todo.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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