Walter Benjamin e os documentos da barbárie no filme ‘Sound of Violence”, por Wilson Ferreira

Se o filósofo alemão Walter Benjamin dizia que todo monumento da cultura é um monumento da barbárie, “Sound of Violence” retoma essa tese da forma mais assustadora possível.

Walter Benjamin e os documentos da barbárie no filme ‘Sound of Violence”

por Wilson Ferreira

Apenas um mash-up da franquia “Jogos Mortais” com “Psicopata Americano”? A co-produção EUA/Finlândia, “Sound of Violence” (2021) vai mais além de um mero slasher movie. É uma curiosa experiência audiovisual na qual a protagonista experimenta as sensações da sinestesia extática ao ouvir um certo tipo de som: uma explosão de cores e prazer originados dos sons da violência. Um projeto de arte sônica radical, cuja “instrumentação” são gritos e golpes. Sob a aparência de uma pesquisa acadêmica, cria-se uma esteira de vítimas cujos sons da violência serão remixados e editados numa composição eletrônica literalmente “matadora”. Se o filósofo alemão Walter Benjamin dizia que todo monumento da cultura é um monumento da barbárie, “Sound of Violence” retoma essa tese da forma mais assustadora possível.

Na sua obra-prima de 1995, o álbum “Outside”, David Bowie propôs o conceito de assassinato como obra de arte. No encarte do disco, Bowie apresenta seu conto “The diary of Nathan Adler or the art-ritual murder of Baby Grace Blue: A non-linear Gothic Drama Hyper-cycle” no qual descreve uma distopia que se passa em 1999. Um governo totalitário cria uma comissão para investigar o fenômeno do “Art Crime”: assassinato e mutilações se tornaram a nova sensação da arte underground.

Seu protagonista, Nathan Adler, teria que decidir o que nesse tipo de manifestação estética seria “arte legítima” e o que deveria ser considerado simplesmente lixo.

Muitas décadas antes, essa aproximação de conceitos aparentemente antitéticos (arte e violência) já havia sido tematizada pelo filósofo alemão Walter Benjamin com a sua célebre frase nas suas “Teses sobre Filosofia da História”: “nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie; e, assim como a cultura não é isenta da barbárie, não é, tampouco, o processo de transmissão da cultura”.

Com isso, Benjamin queria dizer que a história oficial traz em sua imanência uma violência neutralizada e tenta esconder, através de produtos culturais (arte, estética), a perversidade dos sistemas políticos. Com isso, Benjamin se contrapunha à noção histórica positivista e evolutiva como progresso ou acumulação de conhecimentos para o benefício de toda espécie humana.

O primeiro longa do diretor e escritor finlandês Alex Noyer, o filme Sound of Violence (2021), mais uma vez aproxima as noções de arte e violência. Mas dessa vez, não no sentido dado por Bowie e Benjamin numa conexão direta entre violência política e cultura. Em Sound of Violence essa conexão é colocada como causalidade de fundo. Noyer está interessado em tematizar como a música se transforma em violência e assassinato em música através do estudo psicológico de uma protagonista.

Fazendo o filme se transformar num filme de terror sobrenatural sangrento, porém indo muito além da estética gore tradicional, uma espécie de “sonic slasher”: como o sofrimento humano desencadeia na protagonista uma sinestesia extática (percepção audiovisual alterada por estados extáticos e hipnóticos) que será o gatilho para uma série de assassinatos.

No filme acompanhamos uma compositora de “raid art” (arte radical) tentando criar uma peça de arte sônica a partir da sua condição na qual experimenta os sons da dor humana como uma gloriosa explosão estelar de cores e prazer – e para ela, não importa o número crescente de corpos necessários para sua “instrumentação”.

Dessa maneira, Sound of Violence começa a explorar caminhos estranhos numa espécie de bizarro mix entre a franquia Jogos Mortais e Psicopata Americano.

O Filme

O filme começa em 2002 onde vemos Alexis aos 10 anos (Kamia Benge), que perdeu a audição em um acidente, vivendo uma relação tensa da sua mãe e o irmão com o seu pai, um veterano de guerra que vive uma Perturbação de Estresse Pós-traumático (PSPT) – retornou da guerra e, desde então, vive uma condição bipolar entre depressão e agressividade.

Alexis testemunha seu pai matando sua mãe com um cutelo. Em meio à cena do assassinato, Alexis retorna da cozinha com um martelo amaciante de carne e bate na cabeça do pai. Nesse momento, a audição da menina retorna, numa explosão sinestésica extática – uma explosão de cores, sons e prazer. 

Avançamos 18 anos e encontramos Alexis (Jasmin Savoy Brown) como uma jovem aparentemente bem ajustada – é um músico experimental, DJ e professora em uma escola de música em uma universidade. Ela mora com sua colega de quarto Marie (Lili Simons) e ainda mantém um motor home com um monte de lembranças da sua infância junto com inúmeros equipamentos de música e engenharia de som.

Nas horas vagas, segue na realização do seu projeto de arte sônica: faz gravações não convencionais de crianças brigando e sessões de um casal sadomasoquista, sempre perseguindo aquele áudio que lhe traga a explosão sinestésica de cores e prazer. Na aparência, ela tenta criar uma forma de música eletrônica pesada industrial, cuja instrumentação é constituída de batidas e gritos.

Continue lendo no Cinegnose.

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

0 Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador