A perda de relevância do PT

Lula tem dois enormes desafios pela frente. O mais distante são as eleições de 2018; o mais premente, é dar relevância ao PT.

A proposta de criação de um gabinete de crise – composto, entre outros, por Gilberto Carvalho, Marco Aurélio Garcia, Luiz Dulci e Humberto Costa – não se refere propriamente à crise política atual, mas ao próprio partido.

Nos últimos anos, o PT tornou-se um partido insignificante. Tem apenas um porta-voz, o presidente Rui Falcão, que em geral não se pronuncia em momentos cruciais. Intelectuais, personalidades públicas, juristas simpatizantes surgem em seu apoio quando a democracia é ameaçada, mas há muito deixaram de ter voz ativa no partido.

Esse isolamento tem muito a ver com a personalidade de Rui Falcão. Repete-se, em escala nacional, o mesmo que ocorreu com o Sindicato dos Jornalistas nos anos 80.

O Sindicato entrou na década com enorme peso, devido à gestão Audálio Dantas e mesmo a de David de Moraes, que presidiu-o na infausta greve de 1979.

Na sucessão de David montou-se uma frente composta por membros do recém criado Partido dos Trabalhadores com a esquerda independente contra o Partidão. A frente elegeu Gabriel Romeiro e a chapa contava com diversos jornalistas de peso, mas não alinhados.

Rui era a liderança de fato por trás de Romeiro. E, durante todo o primeiro ano, seu trabalho foi o de ocupar todos os espaços do sindicato, focado muito mais em reduzir o espaço dos aliados do que dos adversários.

Ao final de um ano, todos os independentes – que nunca haviam feito da política sua missão principal – afastaram-se. Ficaram Rui e os chamados “tarefeiros” – a jovem rapaziada pau para toda obra. Com a saída dos independentes, como o Sindicato perdeu expressão tornou-se desinteressante para Rui que, logo, depois de tê-lo utilizado como escada, se afastou.

Nunca mais o Sindicato foi sombra da expressão que havia adquirido na década anterior.

No PT, repetiu-se essa estranha autofagia. Primeiro, Rui tratou de viajar o país, tentando consolidar uma estrutura de influência em cima da herança de José Dirceu – com quem rompeu.

Quando sentiu o terreno consolidado, fechou-se, não deu espaço para mais ninguém e tratou de ocupar todos os espaços internos, deixando o partido do tamanho do seu presidente. As personalidades ligadas ao partido foram se afastando gradativamente. Grandes nomes já haviam saído rumo ao governo.

Aliás, essa autofagia ficou nítida nas disputas com Fernando Pimentel durante a campanha de 2010.

O PT assistiu inerte a eclosão das manifestações de junho de 2013.  Perdeu o bonde dos novos movimentos, pois poderiam gerar novas lideranças, colocando em risco o predomínio dos jurássicos. Não se apropriou do intenso trabalho intelectual da Fundação Perseu Abramo, pois dali poderiam emergir novos rumos e, com eles, novas lideranças.

Agora, segundo notícias de ontem, a primeira missão do tal gabinete de crise será correr atrás da nova geração de movimentos que emergiu das manifestações de 2013..

Vai chegar tarde. O PT envelheceu, perdeu o viço dos movimentos sociais, a vitalidade intelectual, a dimensão pública. E, especialmente junto à juventude, a Lava Jato terá um poder corrosivo mil vezes maior do que a AP 470.

Fica o país órfão de partidos, entre o PT, que perdeu a dimensão do nacional, e o PSDB, que tornou-se um partido golpista, com suas principais lideranças se permitindo ser coadjuvantes de revoltados online. E sem Marina que continua chorando pelos cantos como uma hárpia autocompadecida.

167 comentários

  1. Sindicato dos jornalistas

    Querido Nassif,

    Deixando de lado o seu ressentimento pessoal com o Rui Falcão, gostaria de dizer que a gestão de Gabriel Romeiro no Sindicato dos Jornalistas, da qual nós dois participamos, em nada se assemelha à descrição feita por você. Foi independente, bastante focada (e vencedora) na valorização salarial dos jornalistas e na resistência ao processo de enxugamento das redações. Eu recordo que eu o substitui como tesoureiro porque você, demissionário, não se sentia à vontade ante as novas responsabilidades assumidas na Folha de São Paulo – você teve que efetuar grandes cortes de pessoal exigidos pelos seus chefes.

    Abraço

    Sérgio Sister

    • Querido Sérgio Sister
      sua

      Querido Sérgio Sister

      sua memória falha. No dia em que pedi demissão do sindicato também pedi da Folha. e por  ter me sentido manipulado por ambos. Em um campeonato de falta de escrúpulos,creio que o Sindicato venceu a Folha. 

  2. Partido Morto

    Ótimo texto, Nassif. Se não fossem os militantes nas ruas e nas redes sociais, o PT — se dependesse de seus caciques — teria sofrido derrota nas eleições presidenciais de outubro. Passou raspando. Diminuiu sua influência no parlamento. Está minguando, e parece ser um caminho de que, embora haja volta, não há desejo de voltar.

    Passou 12 anos apanhando da imprensa, sem desejo algum de ao menos ter um porta-voz, sem coragem de fazer a regulação da mídia. Perdeu a CPMF, tornou mais nefasto o fator previdenciário, e aparelhou muito mal o Estado, escolhendo, na maioria das vezes, os piores para os cargos importantes. Veja só o ministro da Justiça, os ministros do STF (nunca um ministro no supremo se voltou contra o presidente que o indicou, mas o PT conseguiu essa proeza, e mais de uma vez.)

    Se não tirar a mortalha, podemos esquecer 2018. Isso se um golpe à paraguaia não acabar com o sonho antes.

  3. Vários porquês

    O registro crítico à direção do Rui Falcão parece ter suporte no real. Ainda assim, atribuir a um único dirigente a decadência de um partido com o histórico, longevidade e peso do PT me parece bastante exagerado. 

    Seriam vários os porquês da – relativa – decadência do Partido dos Trabalhadores. 

    Uma delas, possivelmente, decorrente do processo de metabolismo próprio do regime do capital: a redução do número de unidades produtivas e – mais ainda – do número de trabalhadores por unidade. 

    O mecanismo, dialético à evolução do capital, ao mesmo tempo em que reduz a possibilidade da eclosão de formações defensivas da classe trabalhadora, pela via sindical, empurra boa parte dos desempregados industriais (e filhos) para a condição de “autônomo”, precarizada e avessa à luta política quase que por definição.

     

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