A redução da Selic não alterará em nada a recessão

A Teoria Monetária Moderna é praticamente ignorada nos debates públicos, de uma opinião pública e midiática extraordinariamente presa a ideias passadas. Por outro lado, até agora não saiu um estudo rebatendo de forma sólida os argumentos levantados por seus defensores.

A redução da taxa Selic pelo Banco Central terá como único efeito positivo reduzir o serviço da dívida pública. E nada mais. O problema é o fato de ser apresentado, pelo Banco Central, como alternativa ao Quantitative Easing, a emissão de moedas para injetar liquidez na economia.

Um dos problemas sérios na economia brasileira é o conhecimento de manual, de economistas sem nenhuma capacidade de utilizar a teoria como uma ferramenta de busca de resultados. Política econômica é basicamente a arte de encontrar soluções para os entraves ao desenvolvimento.

A crise econômica brasileira tem dois desafios claros:

  1. Políticas que garantam parte da renda dos trabalhadores.
  2. Políticas que garantam a sobrevivência e a empregabilidade especialmente das pequenas e micro empresas.

Este é o desafio central.

O que faz o Banco Central? Despeja recursos nos bancos comerciais. E os recursos não fluem para as empresas por uma razão simples: na crise atual, não se tem a menor ideia sobre que empresas sobreviverão. Com tal grau de risco, os critérios para a concessão de crédito aumentam exponencialmente. E só sai dinheiro para empresas sólidas, grandes.

Se o canal de crédito está totalmente entupido, redução de Selic ou liberação de compulsório não terão a menor eficácia sobre a economia. A cada semana que passa, sem solução, são milhares de CNPJs liquidados, pressão sobre o isolamento social dos estados, adiando a retomada da normalidade.

A estratégia racional de retomada é óbvia:

  1. Preserva-se parte do poder aquisitivo dos trabalhadores e parte do funcionamento das empresas.
  2. Quando a economia começar a retomar, as empresas que foram poupadas, os empregos que foram preservados, significarão desafogo rápido para a retomada dos negócios.
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É por isso que cresce, em setores não-dogmáticos, a proposta de emissão monetária, para efeito de financiamento dos desempregados, das empresas e das obras públicas.

O ciclo do dinheiro é o seguinte:

O governo injeta dinheiro na economia, através da emissão ou da liberação de compulsório para os bancos, ou de resgate dos títulos públicos. Os três movimentos equivalem a emissão de moeda. A diferença é que a emissão monetária não implica em custos para o Tesouro. O dinheiro vai para o setor privado e volta na forma de impostos ou de compra de títulos públicos. Assim como pode emitir títulos, o governo pode emitir moedas para se financiar.

A diferença é que, quando emite títulos, o governo cria dívida remunerada. Quando emite moeda, cria dívida não remunerada.

O único limite é o aquecimento da economia, podendo levar a movimentos inflacionários. Com os três instrumentos, o movimento é o mesmo: reduzem-se as emissões monetárias, enxuga-se dinheiro do mercado através de tributos, colocação de títulos e recolhimento do compulsório.

É evidente que não se pode tratar a emissão monetária como o remédio universal. Fosse assim, a emissão monetária poderia substituir até a arrecadação fiscal. E tanto a política fiscal quanto a dívida pública teriam papel apenas para monitorar os juros internos. Não é o caso.

De todo modo, tem-se um paradoxo nesse país irracional.

A Teoria Monetária Moderna é praticamente ignorada nos debates públicos, de uma opinião pública e midiática extraordinariamente presa a ideias passadas. Por outro lado, até agora não saiu um estudo rebatendo de forma sólida os argumentos levantados por seus defensores.

Mais cedo ou mais tarde, no entanto, a realidade se imporá. Será impossível sair da recessão dentro dos limites do monetarismo estreito de Paulo Guedes.

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A manutenção de Bolsonaro e Guedes está cobrando uma conta imensa do país. Daqui a alguns anos haverá consenso sobre a destruição inédita perpetrada por ambos. Não servirá de consolo para os que morrerem pelo caiminho.

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5 comentários

  1. Esse movimento de redução da Selic tem a ver com a transferência da poupança dos brasileiros para o mercado de ações? E aí daqui um tempo a bolsa tem um soluço e os “tubarões” do mercado financeiro se apossam da poupança dos brasileiros como aconteceu nos Estados Unidos em 2008?

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    • Vera Venturini : o risco deve ser garantido por uma Legislação transparente e rigorosa. Aliás como já existe e protege os Investidores. Veja se os milhares de Fundos de Pensão Estrangeiros tiveram alguma restrição em comprar ( a mamata) das Empresas Brasileiras Privatizadas? A Poupança e Garantia Financeira e Previdenciária de NorteAmericanos e Europeus está na propriedade de Vale do Rio Doce, Telebrás, Telesp, Eletropaulo, Eletrobrás, Sabesp., Petrobrás, Embraer,…Enquanto a POUPANÇA BRASILEIRA está totalmente Garantida pelo Estado Brasileiro em FGTS e Cadernetas de Poupança que rendem menos que a inflação. É a Pátria da Surrealidade. O Estado Brasileiro confisca ditatorialmente o SEU DINHEIRO e devolve menos que pegou. E ainda acreditamos que o ESTADO está garantindo Nosso Investimento e Poupança?! Somos Inacreditáveis !!!! Selic, Dólar, Respeito aos Contratos, Risco Brasil, Preço do Petróleo, Garantia Jurídica,…(Mirian Leitão se esbaldou !!) tudo “baboseira” para manter o cabresto e a rédea no Povo Brasileiro. Um bilhão de desculpas para manter Lucratividade absurda e extorsiva de Monopólios e Oligopólios Estrangeiros, Preços Inflacionados, Salários Castrados,…ou seja a DESCULPA PERFEITA para a Manutenção da Indústria da Miséria destes 90 anos. Pobre país rico. 40 anos de NecroPolitica Redemocrática. Mas de muito fácil explicação. MARINHO PERES

  2. “A Teoria Monetária Moderna é praticamente ignorada nos debates públicos, de uma opinião pública e midiática extraordinariamente presa a ideias passadas. Por outro lado, até agora não saiu um estudo rebatendo de forma sólida os argumentos levantados por seus defensores.”
    Nassif deve estar se referindo a estudos em publicações internacionais. Em países que possuem moedas que são reserva de valor internacional, de fato o limite para expansão monetária atual é bastante largo e por isso bastante aceito na comunidade internacional. Em âmbito brasileiro porém,a coisa muda. É mais que conhecido o movimento de especulação contra a moeda nacional, daí a impossibilidade de ter esse tipo de política monetária aqui. Só seria possível com estrito controle de entrada e saída de capitais internacionais, o que me parece ser um outro tabu muito mais difícil de ser quebrado.

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  3. Ora, tudo isso teria lógica se houvesse um ministro da economia, não há…..o que existe são aves de rapina cravando os dentes nos recursos do Estado…..com as benesses da mídia porcorativa e mafiosa…….a preocupação maior da turma é privatizar tudo o mais rápido possível, e “arrecadar” um trilhão (cifra que é o verdadeiro fetiche anal da galerinha)….e todos vendem a trolha como a única saída para o país……ou seja, dar bastante dinheiro para os abutres tirando dos trabalhadores, funcionalismo e aposentados, os inimigos…..

  4. Vera Venturini : o risco deve ser garantido por uma Legislação transparente e rigorosa. Aliás como já existe e protege os Investidores. Veja se os milhares de Fundos de Pensão Estrangeiros tiveram alguma restrição em comprar ( a mamata) das Empresas Brasileiras Privatizadas? A Poupança e Garantia Financeira e Previdenciária de NorteAmericanos e Europeus está na propriedade de Vale do Rio Doce, Telebrás, Telesp, Eletropaulo, Eletrobrás, Sabesp., Petrobrás, Embraer,…Enquanto a POUPANÇA BRASILEIRA está totalmente Garantida pelo Estado Brasileiro em FGTS e Cadernetas de Poupança que rendem menos que a inflação. É a Pátria da Surrealidade. O Estado Brasileiro confisca ditatorialmente o SEU DINHEIRO e devolve menos que pegou. E ainda acreditamos que o ESTADO está garantindo Nosso Investimento e Poupança?! Somos Inacreditáveis !!!! Selic, Dólar, Respeito aos Contratos, Risco Brasil, Preço do Petróleo, Garantia Jurídica,…(Mirian Leitão se esbaldou !!) tudo “baboseira” para manter o cabresto e a rédea no Povo Brasileiro. Um bilhão de desculpas para manter Lucratividade absurda e extorsiva de Monopólios e Oligopólios Estrangeiros, Preços Inflacionados, Salários Castrados,…ou seja a DESCULPA PERFEITA para a Manutenção da Indústria da Miséria destes 90 anos. Pobre país rico. 40 anos de NecroPolitica Redemocrática. Mas de muito fácil explicação. MARINHO PERES

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