O bom negócio da educação inclusiva, por Luis Nassif

Se as escolas privadas que praticam o preconceito recorrerem a um bom financeiro, abraçarão imediatamente a causa da educação inclusiva. Ainda que pelos ganhos financeiros, ganhos de imagem, ganhos pedagógicos.

Nas últimas décadas, a educação inclusiva de pessoas com deficiência se tornou consenso entre educadores. Inclusive em relação aos ganhos pedagógicos dos alunos comuns, quando convivendo com colegas com deficiência.

No entanto persistiu um erro financeiro, de superestimar os custos da escola, para receber o aluno com deficiência. Esse argumento tem sido levantado pelas associações do setor e pelas organizadas interessadas em receber verbas públicas para atender a esse público.

Questionam a obrigatoriedade das escolas privadas aceitarem alunos com alguma forma de deficiência sem cobrar nada a mais na mensalidade. Em princípio, as APAEs nada teriam com isso. Mas temem que a Lei leve á universalização do ensino inclusivo.
Hoje em dia, o mais maléfico lobby a atuar sobre os recursos públicos é o da Federação das APAEs e assemelhados, mantendo as crianças eternamente em currais que lembram os velhos sanatórios para tuberculosos ou hospícios para doentes mentais, para garantir o acesso a uma verba pública per capita que não está sujeita a nenhuma forma de controle.
A Confenen não acha “justo” distribuir o custo dos alunos com deficiência com o conjunto da classe. E alega que as escolas poderão se inviabilizar financeiramente com as novas obrigações.
Nem se fale da insensibilidade, da dose de preconceito exarada pelas peças que compõem a ADIN. Fiquemos apenas nos aspectos financeiros. Uma escola que souber, de fato, fazer as contas, irá aderir imediatamente à educação inclusiva. Além dos efeitos positivos sobre a imagem da escola, dos ganhos pedagógicos, ainda terá lucro com os alunos com deficiência que vierem a se matricular.
Vamos a uma pequena conta, analisando apenas o custo direto da escola com os professores para os alunos especiais.

Os demais custos são irrelevantes, porque são praticamente custos fixos de cada escola –  aluguel, quantidade de funcionários, equipamentos etc. – que não se alteram com um pouco mais ou um pouco menos de alunos. Os investimentos em acessibilidade (entradas acessíveis, escadas, banheiros acessíveis) já constituem obrigação para todo prédio escolar. Gastos fixos adicionais são em valores irrelevantes.
Assim, para cada aluno com deficiência que entre, o resultado da escola dependerá do custo marginal do aluno (o que ele acarretou a mais de despesa) comparado com a receita das mensalidades desses alunos.
Vamos supor uma escola padrão, média, com 630 alunos divididos entre os cursos infantil, fundamental e e fundamental 2.
Passo 1 – o cálculo da folha de professores.
Imaginou-se duas salas por curso, com um professor no infantil e um professor e meio no fundamental (repartindo os 8 professores de matérias por todas as salas). Chega-se a uma folha de R$ 112,5 mil por mês ou R$ 1.350.000,00 ano.
Passo 2 – cálculo das mensalidades pagas, sem os alunos com deficiência.
Estimou-se 15 alunos por sala no infantil, e 30 no fundamental 1 e 2. E uma mensalidade de R$ 1.700,00 para o infantil e R$ 2.000,00 para o fundamental. O total é de R$ 1.233.000,00 por mês ou R$ 14.796.000,00 por ano.
Passo 3 – o balanço da inclusão supondo-se 10% de alunos com deficiência.
Todos pagam a mensalidade normal da escola. No total, dá R$ 123.300,00 por mês ou R$ 1.479.600,00 por ano.
Como já se disse,  há um conjunto de gastos que não se altera com essa população de alunos com deficiência. Os custos fixos e os custos com pessoal administrativo não sofrem alteração. Os custos marginais são com o pessoal de apoio.
Montei o modelo abaixo do pessoal de apoio com base nas informações de uma especialista.
O resultado final é que, anualmente, o grupo de alunos com deficiência paga um total de R$ 1.479.000,00 de mensalidade, gerando um custo marginal de R$ 864.000,00. Logo, o lucro anual da escola será de R$ 615 mil, ou um ganho marginal de 42% sobre a mensalidade de cada aluno com deficiência.
Supondo que a rentabilidade da escola seja de 10% sobre o faturamento, só os alunos com deficiência responderão por quase 40% do seu lucro.
Leia também:  A autocrítica da voz mais abalizada do capitalismo, por Luis Nassif

Pode-se alterar para mais ou menos os ganhos, de acordo com as variáveis. O que a planilha mostra é que não há nenhuma justificativa para se falar em custos para a escola com a inclusão.

Se as escolas privadas que praticam o preconceito recorrerem a um bom financeiro, abraçarão imediatamente a causa da educação inclusiva. Ainda que pelos ganhos financeiros, ganhos de imagem, ganhos pedagógicos.

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3 comentários

  1. Realmente…um “grande negócio” para a escola. Só faltou mencionar que para os professores (“tabelizados” na planilha de “custos”) os alunos de inclusão significam provas e tarefas diversificadas que podem triplicar o trabalho dos docentes. Nada contra a educação inclusiva nas escolas, ela deve ocorrer e isso é ponto pacífico. Mas tarda uma discussão séria sobre os impactos dela no trabalho do professorado. O modelo de pagamento por horas-aula e hora-atividade foi criado quando a inclusão não era uma realidade e as turmas eram concebidas de maneira homogênea. Agora isso mudou, mas o pagamento continua estruturado da mesma maneira. Vejamos um exemplo prático da sala de aula, sem recorrer ao ilusionismo das “tabelas”. Antes, para o professor, era necessário elaborar apenas um tipo de prova (uma boa avaliação pode, em alguns casos, levar mais de duas horas para a sua elaboração – identificar as habilidades a serem avaliadas; procurar textos, imagens e, atualmente, vídeos para serem inseridos nas questões; elaborar enunciados precisos que não levem a interpretações dubias; formatar o arquivo da avaliação; etc.). Atualmente, com a necessidade de avaliações cada vez mais personalizadas (há avaliações específicas para cada tipo de deficiência) essas horas podem ser triplicadas, dependendo da quantidade de educandos com deficiência e os tipos de deficiência presentes em cada turma. Assim se para o patrão é um “grande negócio”, para @s docentes é trabalho a mais não-remunerado.

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  2. Nassif ,acho vc um sujeito equilibrado nos temas que comenta, exeto nesse, aqui vejo muito extremismo da sua parte, o que na minha opinião desqualifica o teu argumento.

  3. Caro Nassif: muito prezo pela sua pessoa, porém nesse comentário foi infeliz, pois a educação especial não pode ser medida, muito menos em planilha excel. Crianças excepcionais nascem em todas as famílias, em todas as classes sociais. Por infelicidade e decisões genéticas da natureza, a maioria nasce em família sem posses ou poder aquisitivo. Dependem de verbas públicas para cobrir os gastos em despesas médicas, remédios, atendimentos especiais e educação. Então, seus cálculos ficaram prejudicados por, simplesmente, não haver capacidade financeiras das famílias para bancar todo o pacote de custos que tem a pessoa portadora de deficiências. E, o Estado não vai bancar a esses custos.

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