As eleições não mudam o jogo político e econômico imediatos, por Luis Nassif

No curto prazo, não haverá impacto algum no jogo político e econômico atual. Bolsonaro continuará com suas trombadas, Paulo Guedes com suas indecisões.

Foto: Governo de São Paulo

O sistema político pós-ditadura se moldou da seguinte maneira.

O MDB saiu na largada como o mais influente partido brasileiro. A Arena transmudou-se no PFL, depois no DEM. A esquerda juntou-se em torno do PT. No momento seguinte, parte do MDB, mais à esquerda, fundou o PSDB. Em São Paulo, graças a Mário Covas, conquistou a parcela da classe média paulistana que seguia Paulo Maluf.

Tinha-se, ali, o caminho para um modelo civilizado de política. À esquerda, Lula conseguindo canalizar os diversos grupos para a disputa política. O PSDB conseguia reunir o centro-esquerda. A direita ficava com o PFL e o MDB reunia o que seria conhecido, mais à frente, como centrão, operando como fiel da balança para garantir a governabilidade dos governos tucanos e petistas.

A partir de 2002, o quadro muda gradativamente. Lula traz o PT para o centro, como um autêntico partido social-democrata. Houve uma primeira tentativa em 1994, através do núcleo econômico liderado por Aloisio Mercadante. Mas a reação da militância impediu o movimento.

Perdendo a bandeira da social democracia, e, principalmente, após a morte de Mário Covas, o PSDB perdeu qualquer veleidade programática. Fez um movimento à direita, mas da pior forma possível. A forma legítima seria desenvolver um conjunto de propostas liberais-conservadoras. Poderia, então, trazer a direita para o jogo político, repetindo o movimento de Lula com a esquerda.

Em determinado momento, houve quem apostasse que o modelo político brasileiro chegaria ao nível do europeu, com o pêndulo político balançasse de um centro direita para um centro-esquerda, e vice-versa, sem desconstruir as conquistas do período anterior.

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Mas, a ascensão de Aécio Neves e José Serra – com endosso de Fernando Henrique Cardoso – matou qualquer veleidade programática do partido. A falta de propostas alternativas tornou-se acachapante, especialmente após as vitórias políticas do lulismo na crise de 2008-2010. E o partido aderiu integralmente ao golpismo, postura que ficou nítida na campanha de José Serra, em 2010, e na adesão incondicional à campanha do impeachment liderado pela Rede Globo.

E, aí, ocorreu o óbvio. Sem a coluna vertebral de ideias programáticas, recorrendo exclusivamente ao discurso moralista-golpista, o PSDB perdeu qualquer veleidade de protagonismo político. Com o advento das redes sociais, a direita se espalhou por inúmeros pequenos partidos, com a pulverização acelerada pela flexibilização partidária aprovada pelo Supremo Tribunal Federal. Ao mesmo tempo, a Lava Jato – inicialmente estimulada pelo PSDB – destruiu o que restava do sistema partidário.

Em outros países, como nos Estados Unidos, o sistema partidário resistiu ao advento da ultradireita trumpista, devido a regras rígidas preservando o bipartidarismo. No Brasil, a implosão do sistema partidário levou ao estilhaçamento do partidos.

Nem PT, nem PSDB souberam se reciclar para os novos tempos. O antipetismo se tornou o principal argumento político das eleições, mostrando que o trabalho pertinaz da mídia, ajudada pela Lava Jato, conseguiu apagar as lembranças do período de bonança do PT e jogar nas suas costas todos os erros de política econômica cometidos pós-impeachment.

A arquitetura política pós-ditadura esboroou-se. As eleições não geraram uma ideia nova, um conceito novo. Resumiu-se ao anti, o antipetismo e o antibolsonarismo. Os partidos que mais cresceram foram os fisiológicos, que compõem o centrão.

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O que se tem de concreto, com vistas a 2022:

1. O bolsonarismo murchou, como fenômeno político. Ou seja, a tendência de apostar no novo fora do eixo. Isso se deveu à ampla incapacidade da família Bolsonaro de articular partidos ou de manter relações de lealdade com aliados. Devido à sua reconhecida incapacidade intelectual, o  bolsonarismo só admite seguidores. Mesmo assim, Bolsonaro continua o líder máximo não apenas da ultradireita, como da direita, especialmente no interior.

2. Bruno Covas é uma criatura de João Dória Jr., apesar de tê-lo escondido na campanha, por razões estratégicas. Aliás, parte do que se convencionou chamar de esquerda do PSDB se uniu em torno de Covas, mas meramente para poder ser aceito por Dória. Por sua dimensão política, e pela saúde frágil, não há a menor possibilidade de recriação do covismo. Portanto, Dória é o grande vitorioso em São Paulo. Mas, no plano econômico e social, não tem grandes diferenças de Temer-Bolsonaro.

3. As esquerdas se fragmentam ainda mais. E os candidatos a presenciáveis – Flávio Dino e Fernando Haddad – terão que se reposicionar. Apesar de derrotado nas eleições, Boulos é o grande vitorioso como nova expressão das esquerdas, colocando de volta os movimentos sociais no protagonismo político.

No curto prazo, não haverá impacto algum no jogo político e econômico atual. Bolsonaro continuará com suas trombadas, Paulo Guedes com suas indecisões.

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13 comentários

  1. O que impediu Trump de avançar não foi o sistema bipartidário. Foi a forma insana que Trump lidou com o coronavírus. Se não fosse isso, ele teria vencido tanto no voto popular como no colégio eleitoral. E é sempre bom lembrar que o que o sonho da cúpula do partido republicano é ter um trumpismo sem Trump, figura nada confiável.

    • Ô seu Joel Lima,tais parecendo o Joel Briguilino,amigão de Nassif.O fumo de Arapiraca entrando feio por aqui,e você me vem com Trump,Trumpismo,Trumpão.Isso já foi,passado,olvidô,a história é outra.Sabe qual seu mal? Tá se guiando pelo pelo Globope e o Datafalha,e ouvindo o besteirol político de Caetano Veloso,o pé de gelo.O Arapiraca entra sem dó nem piedade,e vosmecê desvia para Trump.Se ligue Véio,a situação é grave.

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  2. Afora o pé de gelo de Caetano Veloso,perguntar não ofende:Qual a serventia destes principais Institutos de Pesquisas do Brasil?Numericamente não acertaram uma.Deviam fazer uma reciclagem na China.PQP meu louro.

  3. O país se moveu novamente para a direita, repetindo o movimento já visto nas eleições de 2016 e 2018.
    Por quê? isso está acontecendo há 7 anos, desde junho de 2013, eu não sei, só vejo os resultados nos números de votos cada vez maiores em partidos de direita, eleição após eleição.

  4. A propósito,procuraram saber de Che Guevara quando da implantação da vitoriosa Revolução Cubana.Ô Che,por que vocês estão mandando tanta gente pro paredão? Che na lata:Se assim não fizermos,eles não nos darão tempo nem de piscar os olhos.Falam que ele fazia sem perder a ternura,adotando os procedimentos mais duros,essenciais e imprescindíveis que uma Revolução exige.
    Um exemplo do acerto de Che.Vejam o comportamento de Lula/Dilma nas indicações para o STF.Só não foram fuzilados por que Jair ainda não implantou oficialmente a pena de morte.Deu só numa puxadinha de cadeia.

  5. Comparando com o resultado das eleições presidenciais de 2018, diria que o PT saiu como grande favorito para as eleições de 2022, apesar dos resultados da cidade Porto Alegre e da cidade São Paulo, praticamente repetirem o resultado obtido por Haddad em 2018, nas cidades onde ocorreram segundo tudo, os candidatos do PT tiveram uma votação bem melhor do que Haddad em 2018, como em Guarulhos e Mauá SP, CONTAGEM-MG, Anápolis GO .
    Além disso, o candidato do Psol em Belém, teve uma votação maior do que A de Haddad em 2018.

    Na Maioria do lugares onde não teve segundo turno, fica difícil uma comparação, mas os resultados de SP, MG e RJ, os maiores colégios eleitorais indicam que em eventual segundo turno contra o atual presidente, o candidato PT venceria o segundo, principalmente considerando que Haddad obteve quase 45% dos votos válidos em 2018.

    Apesar disso, levando em consideração que se aprofundar o desgaste do atual presidente o grande beneficiado será Ciro Gomes, já que com o atual presidente fora do segundo turno, teríamos provavelmente um segundo turno com o candidato do PT e Ciro Gomes.

    Apesar de ser uma eleição municipal, os resultados indicam que Haddad venceria o segundo turno contra o atual presidente nas eleições de 2022.

    Tudo depende até onde vai o desgaste do atual presidente junto ao eleitorado em 2018.

    De qualquer maneira vai ficar muito claro, para a grande maioria dos eleitores do atual presidente em 2018, de que não caminharemos para ser uma grande potência, Muito pelo contrário.

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  6. Na incapacidade de ganhar pelo voto, o gabinete do ódio já voltou a apontar suas mentiras para o golpismo com mensagens dizendo que prenderam Lula, enterraram o PT e agora “só falta o STF”

    A briga intestina dos primos em Recife junto com o ciúme doentio que Ciro tem de Lula provavelmente impedirão uma aliança PSB/PT/PDT. Se Dino não migrar para o PSB para compor com Haddad, provavelmente o próximo presidente sairá do centrão (Dória ou Huck), porque muitos vassalos já estão ficando de saco cheio das besteiras dos filhos de Bolsonaro. E se Flávio for preso então…

  7. Espero, sinceramente, que paremos de brincar de eleições enquanto MPF, TSE, STF e toda grande mídia estiverem decidindo quem vai disputar e, quem vai ser eleito. Essa eleição, pra mim, serviu para deixar claro que o único incômodo no mar de almirante fascista é o Partido dos trabalhadores que, foi rachado, por dentro, a partir de SP, onde “intelectuais” passaram a minar o PT e incensar o PSOL, fazendo o serviço sujo para os fascistas. Na verdade, esses mesmos “quadros” conspiraram contra Dilma em 2013. O caminho não é eleitoral. tanto assim que a direita e a extrema-direita não disputam eleições. MPF e Judiciário, amplificados pela Mídia, colocam seus representantes nos cargos executivos e legislativos e eliminam do teatro eleitoral, os que, podem perturbar a paz do espetáculo. Escolhem quem vai representar a Direita, extrema-direita e centro-esquerda. Como nos EEUU, a hidra de duas cabeças. O bicho é o mesmo e a disputa entre as cabeças é uma farsa.

    O serviço da mídia é, simplesmente, transformar práticas autoritárias que já deveriam estar abolidas do mundo civilizado como denunciação caluniosa, cerceamento do direito de defesa, publicidade opressiva, condenação sem provas, fim da presunção de inocência, …. em “lawfare”. Pronto! Tá feito! crimes e/ou práticas autoritárias comuns, acessíveis a qq criança transformada em discussão acadêmica, elitista e, portanto, sob total controle do sistema.

    Não, por acaso, são os “intelectuais” da esquerda que saem empunhando as bandeiras mensaleiras e lavajatistas e, nunca, os trabalhadores. “pq esse debate está muito acima do seu nível de compreensão”.

    Toda a farsa democrática, em Pindorama, está resumida a três pilares: denunciação caluniosa, publicidade opressiva e livre convencimento do juiz.

    Fakenews, caixa2, voto de cabresto etc… São só distrações para que as militâncias percam tempo fora do foco. Alguém viu o MPF,Mídia ou TSE, denunciando, criticando ou condenando as práticas que SUPOSTAMENTE elegeriam os candidatos de MP,judicário e Mídia? Nunca! É necessário um fundamento, mesmo que ilegal para justificar/fundamentar a ‘ eleição” se sujeitos que, muitas vezes, os cidadãos, nunca ouviram falar.

    Aí, a mídia explica: o fulano que o estado nunca viu ou ouvi, sequer, o nome, foi eleito, por conta de fakenews, caixa 2, milícias… O fato é que o Midiciário coloca seus escolhidos e fundamenta como quer ou der.

    Uma vez que os cargos executivos e legislativos, não estão em disputa e, o que temos e continuaremos tendo são governos biônicos ( a partir do momento que as instituições foram desmontadas). resta-nos duas opções: seguir simulando disputar eleições, ou seja, tomar parte na farsa ou aproveitar nossas lideranças ( ciente de que a qq momento serão falsamente denunciadas por crimes que não cometeram para serem condenadas em tribunais de exceção para que sejam encarceradas e saiam do cenário para não atrapalhar a farsa )militâncias, movimentos sociais, enfim, toda essa energia que concentramos na farsa eleitoral para declarar “paz entre nós, guerra aos senhores” e fazer o que a Turquia fez:fazer responder , criminalmente, todos os envolvidos no desmonte da democracia brasileira. Sobretudo e, inclusive, os que se escondem, entre nós.

  8. Sergio Moro esperto: atuou como capacho dos EUA na Operação destruição a jato
    Hoje é socio de americanos em escritorio que advoga para o esqueleto da lava jato do Moro
    Esperto o rapaz

  9. + comentários

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