Assassinato de Marielle é um tiro na intervenção militar, por Luis Nassif

O assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) foi um xeque na intervenção militar no Rio de Janeiro.

Primeiro, por comprovar que o combate ao crime organizado não reside nessa farsa de ocupação de territórios. O crime está instalado no comando do PCC e na Polícia Militar. Dias antes, Marielle denunciou especificamente as violências cometidas pelo 41º Batalhão da PM.

Depois, por ser um desafio ostensivo à intervenção militar no Rio – que, entre suas missões mais relevantes, incluiu a limpeza da Polícia Militar.

Escolheram um personagem símbolo. Marielle era uma unanimidade entre todas as pessoas que a conheceram, dotada de uma empatia única. Jornalistas alternativos, políticos, advogados e procuradores de direitos humanos, todos a retrataram não apenas como a líder política que emergia, mas como uma personalidade cativante.

Os tiros que a atingiram miraram diretamente o interventor militar.

Em suas primeiras entrevistas, o interventor, general Souza Braga, aparentava ser uma pessoa de bom senso. Impediu o showbiz da mídia, não fez desfiles de tanques na avenida Rio Branco, alertou que ocupação de território não funcionava, que o essencial seria a unificação das ações policiais com a supervisão militar.

De certo modo, sabia a armadilha que o governo Temer armou. Mas não soube escapar da sinuca em que o meteram. Deveria inaugurar a intervenção com condenação prévia enfática da truculência e das arbitrariedades contra a população. Antes do primeiro passo, deveria enquadrar a violência.

Em vez disso, a polícia e o exército passaram a praticar a identificação invasiva de pessoas, a invasão de casas e outros procedimentos de exceção – que são regras para as populações mais pobres. Exigiram tribunal militar para crimes de militares contra civis, anunciaram que não haveria comissão da verdade nas favelas – e Marielle trabalhava justamente na montagem dessa comissão.

Esses sinais atiçaram ainda mais os animais que habitam a alma dos justiceiros, das milícias à parte podre da Polícia Militar – claramente hegemônica na corporação. Marielle foi não apenas a consequência desse aumento da violência, como um desafio aberto das milícias e da PM contra o interventor.

Para vencer o desafio, o general terá não apenas que identificar e prender os dois criminosos, como enfrentar uma força armada do 41º batalhão da PM.

Aliás, das pirações institucionais do Rio não escapou nem o italiano Maurizio Giuliano, diretor do Centro de Informações da Organização das Nações Unidas para o Brasil. Entrevistado, afirmou que “infelizmente não chega a surpreender quem acompanha as estatísticas de violência do Estado. No Brasil, um jovem afrodescendente é morto a cada 21 minutos”, disse Giuliano em entrevista à BBC Brasil, por telefone, na noite desta terça”.

Uma vereadora símbolo das lutas sociais é executada em plena cidade, o episódio torna-se objeto de comoção internacional, e o bravo Giuliano reduz tudo a uma estatística, Ganha o título de o sem-noção do ano.

 

109 comentários

  1. um tiro no parlamento

    p>Exécito debela estudantes em protesto pela morte de Edson Luis de Lima Souto (Abril de 1968, foto, https://www.theatlantic.com/photo/2018/01/50-years-ago-in-photos-a-look-back-at-1968/550208/). Em dezembro do mesmo ano, por não haver retaliação ao deputado Marcio Moreira Alves (do MDB, que discursara contra a ditadura da tribuna), por parte do Congresso Nacional, é instuído o AI5 (https://pt.wikipedia.org/wiki/1968_na_pol%C3%ADtica)

  2. Na época da ditadura existia

    Na época da ditadura existia a PM-2, que era a policia secreta da PM. Ele tinha até poder de investigação. Com o fim da democracia e retorno da democracia, as PM-2 foram extintas. Na verdade as PM-2 nunca acabou e atuam por todo pais e, agora, em conluio com milicianos.

    “(…) Dois policiais do 2ª Batalhão de Polícia Militar, em Taguatinga, foram indiciados por usurpação de função pública na terça-feira (31/1). O caso foi registrado pelo delegado Thiago Boeing Schemes da Silva, plantonista da 12ª DP (Taguatinga Centro). Na ocorrência, ele chegou a chamar os militares de “milicianos” e afirmou que, se os PMs seguirem com os trabalhos de investigação, Brasília pode voltar “aos tempos de ditadura militar”.

    https://www.metropoles.com/distrito-federal/seguranca-df/delegado-chama-policiais-militares-de-milicianos-e-notifica-mpdft

  3. Assassinato de Marielle, “uma morte entre as outras”?

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    Alemanha, 1942. Um judeu é morto numa câmera de gás. Um membro da Resistência é capturado e fuzilado. Um médico ariano apolítico é morto num assalto. Pode-se dizer que são mortes equivalentes, e deveriam todas despertar a mesma indignação, já que “vidas são vidas”?

    União Soviética, década de 50. Um dissidente democrata é fuzilado por contestar o estalinismo. Um médico apolítico é morto num assalto. Pode-se dizer que são mortes equivalentes, e deveriam ambas despertar a mesma indignação, já que “vidas são vidas”?

    África do Sul, 1976. Um militante negro anti-appartheid é assassinado pela polícia. Uma médica branca de família abastada é morta num assalto. Pode-se dizer que são mortes equivalentes, e deveriam ambas despertar a mesma indignação, já que “vidas são vidas”?

    Esse raciocínio diluidor e deliberadamente diversionista é ainda mais absurdo se aplicado ao caso Marielle.

    Circula um post tentando fazer equivaler seu assassinato ao de uma jovem médica branca e abastada, morta num assalto em plena Linha Vermelha, RJ. O post termina com a afirmativa: “os assassinos da médica vão bem, obrigado” – com evidente intenção de acirrar o ódio punitivista aos criminosos. Ora, quem comete um crime tão estúpido como o assassinato da médica, com tamanho risco para tão pouco resultado, só pode ser bandido pé-de-chinelo, para quem a vida (própria e alheia) não vale coisa nenhuma. Isso nos remete aos “suspeitos de sempre” – e reafirma seu estatuto de impunemente matáveis. Com isso, o post realimenta a dinâmica do crime que alega combater!

    Marielle foi assassinada por estar lutando contra as verdadeiras causas da criminalidade violenta, inclusive a que abateu a médica branca. Devia estar incomodando os abutres que se nutrem dessa criminalidade, e extraem da mesma dinheiro e poder.

    A criminalidade violenta massiva não resulta de um déficit moral inato aos criminosos. Resulta da desigualdade de renda e riqueza; resulta da exclusão, da humilhação dos mais pobres.

    Tentar combater a criminalidade violenta acirrando a exclusão e humilhação dos mais pobres é contribuir para aumentar a criminalidade violenta. Quem o faz sabe disso. Conta exatamente com essa espiral da violência para aumentar o próprio poder, e engordar os lucros que extrai disso.

    Os que gozam de privilégios sociais, raciais e econômicos não se sentem responsáveis pela exclusão e humilhação dos mais pobres. Acreditam que ocupam o topo da pirâmide por “meritocracia”. Pela mesma lógica, julgam que os mais pobres devem resignar-se a sua condição de párias, e culpar a si mesmos por não terem sido inteligentes e esforçados o bastante para galgar os degraus da prosperidade.

    Infelizmente, essa estória da carochinha não cola. Alguns jovens nascidos em condições sociais muito adversas preferirão o caminho suicida do crime a resignar-se com um destino de privação e humilhação.

    Armas e poder de fogo são muito eficientes para impressionar as garotas. Adolescentes não se importam em arriscar as próprias vidas para ganhar prestígio e conquistar meninas bonitas – especialmente se não enxergam nenhum outro meio para atingir esse fim. Sem dinheiro para comprar os itens de ostentação no vestuário, os gadgets da moda; sem acesso a capital simbólico; sujeitos a episódios públicos de abuso físico e humilhação cotidiana… quantos não se deixarão seduzir pelo caminho curto do crime, para ganhar “moral” consigo mesmos e com as “minas”?

    Inútil tentar combater esses fatos com cortinas de fumaça moralistas, racistas ou fascistas. O jovem favelado esculachado pelos milicos ou pela PM é o mais provável candidato a engrossar as fileiras do tráfico e da criminalidade violenta, para recuperar sua auto-estima e a admiração das moças. Quem tem ou teve filho adolescente, se não estiver muito cego pelo seus ódios de classe e de raça, saberá que isso é verdade.

    Inútil sonhar que seria possível gozar privilégios oriundos da exclusão de multidões sem nada pagar por isso. Inútil sonhar que os excluídos seriam, todos eles, dóceis e servis. A humanidade não funciona como formigueiros e cupinzeiros, já advertia Freud. Escravidão e servidão produzem revolta. Racismo, segregação, exploração e humilhação geram ódio e reação violenta – homicida e suicida.

    Marielle lutava contra o racismo, a segregação, a humilhação e o esculacho da juventude negra e favelada carioca. Lutava, portanto, contra as CAUSAS da criminalidade violenta.

    Comparar seu assassinato com o de qualquer outra vítima da criminalidade violenta, no contexo brasileiro da atualidade; e tomar esse argumento como álibi para legitimar… o racismo, a segregação, a humilhação e o esculacho da juventude negra e favelada significa não só aviltar a memória de Marielle; significa contribuir para AUMENTAR AS TAXAS DE CRIMINALIDADE VIOLENTA.

    Quem o faz é, na melhor das hipóteses, um inocente útil. Um cego que não quer ver. Um manipulado.

    Ou alguém que LUCRA com a criminalidade violenta; e, por isso, quer jogar uma cortina de fumaça sobre suas verdadeiras causas.

    Trata-se, nesse último caso, de um abutre que se alimenta dos corpos resultantes da “guerra à criminalidade”: policial da “banda podre”. Miliciano. Ou grande traficante de armas e drogas – morador de cobertura, onde jamais os milicos entrarão com “pé na porta”; intocável pela Justiça.

    Mas nem mesmo estes estarão cem por cento protegidos contra os resultados sinistros de seus próprios negócios, por mais que recorram à indústria da “segurança”. Bala perdida, “queima de arquivo”, assalto no engarrafamento, traição de cúmplice… a violência acha um jeito de engolir inclusive os trouxas que crêem se dar bem às custas dela. Triste Justiça poética, que por si mesma nada produz de novo.

    Só milhões de Marielles poderão fazer alguma diferença nesse território de brutalidade e estupidez. Sejamos essas milhões de Marielles!

     

     

     

     

     

     

     

     

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