Como operam as fintechs no mercado de capitais, por Luis Nassif

Uma das características da tecnologia é a quebra de barreiras de entrada em diversos setores, pulverizando os antigos focos de poder.

É o caso do sistema bancário tradicional. A barreira de entrada estava na necessidade de investimentos em redes de agências, treinamento de equipes. conquista de clientelas, enquadramento nas regras do Banco Central. E a falta de competição permite aos bancos nacionais praticarem os mais altos spreads do planeta.

 A competição está surgindo através das fintechs, startups tecnológicas que fornecem grande parte dos serviços bancários pela Internet.

É um mercado que vale a pena acompanhar.

Nos últimos anos, bancos de investimento e corretoras acordaram para a necessidade de educar os clientes. Em suas plataformas oferecem informações variadas e a possibilidade de o cliente investir pessoalmente nos ativos que selecionar e acompanhar em tempo real o valor das aplicações.

Há espaço para aventureirismo, especialmente nas plataformas que visam a massificação dos investidores. É o caso da Empiricus, que recebeu investimentos de um aventureiro norte-americano, cujo modelo de atuação, no país natal, mereceu condenações da SEC (a Comissão de Valores Mobiliários local).

Mas há trabalho sério, como da XP e outros bancos de investimento. De qualquer modo, para aplicar nessas plataformas, o investidor terá que se contentar com os produtos do próprio conglomerados.

Algumas corretoras têm aberto áreas de educação financeira. Mas está ocorrendo o inverso também, com  empresas de educação financeira se aventurando pelo mercado de capitais, transformando-se em corretoras.

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É o caso da Toro, grupo de jovens empreendedores mineiros que ontem lançou sua plataforma na B3 – a nova bolsa de valores. Fui lá pela curiosidade de entender melhor o modelo de negócios das fintechs.

A empresa diz dispor de um quadro de 200 funcionários trabalhando em tecnologia e em análises de mercado. E vendeu parte do capital para financiar um desenvolvimento de R$ 50 milhões.

O site será aberto a qualquer um. Não haverá necessidade de cadastro ou assinatura.

Há informações sobre os diversos tipos de ativo, e o cliente poderá selecionar a carteira de acordo com seu perfil: mais conservador ou arriscado.

O próprio cliente define tetos e pisos para sua aplicação. Batendo no teto, realiza-se o lucro; batendo no piso, assume-se o prejuízo. A fintech cobrará uma corretagem de 10% do rendimento, caso o cliente siga suas recomendações e tenha lucro; e não cobrará corretagem em caso de prejuízo.

Como todo o trabalho é online, através da plataforma, o único aumento de custo será a contratação de mais operadores, para atender as dúvidas pontuais dos clientes.

O modelo de negócios consiste nessa corretagem e nas comissões pela colocação de papéis de terceiros. Até as aulas de educação financeira serão abertas ao público sem custo.

Essas fintechs permitirão uma democratização inédita do acesso ao mercado de capitais. Por outro lado, a disseminação desse modelo poderá gerar uma demanda especulativa complicada. Com as taxas de juros caindo, dependendo do resultado das eleições, poderá haver um movimento de manada em direção ao mercado de capitais.

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Daí a importância da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e do próprio Banco Central acelerarem a regulamentação das novas ferramentas e ficarem atentas para um possível efeito manada pós-eleitoral.

 

 

 

 

 

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8 comentários

  1. A concorrência inicial vai terminar em monopólio

    Caro Nassif,

    Acho que é ilusão acreditar em concorrência. O mais provável é que este novo mercado seja como tudo na internet. Começa pulverizado e concorrendo com os bancos tradicionais, depois vira monopólio ou oligopólio, como aconteceu com o Google e Facebook.

    A tendência do capital é a concentração, inclusive na internet. A realidade já mostrou isso.

    • “A tendência do capital é a

      “A tendência do capital é a concentração, inclusive na internet. A realidade já mostrou isso.”

      Na verdade é pouco diferente isso… Na internet, só existe mono/oligopólio quando as pessoas optam por dar esse poder às empresas, porque sempre existem opções (às vezes até livres, como no caso do Software Livre).

       

      Exemplo: é díficil e caro competir com um banco ‘físico’: montar agências, contratar pessoas e espalhar caixas eletrônicos pelo país. Porém, a criação de uma fintech como a Nubank (que não é um banco ainda, mas apenas um cartão de crédito que permite fazer depósitos e gerar rendimento acima da poupança) é relativamente barata, na casa dos milhões, como de costume com startups.

      É como comparar um programa de distribuição de cestas básicas com o Bolsa Família. O Bolsa Família possui uma capilaridade maior porque é mais fácil entregar dinheiro às pessoas via cartão magnético do que sair por aí com toneladas de comida.

      A Nubank tem menos de 1000 funcionários (e tinha ainda menos quando começou) e já possui mais de 4 milhões de clientes com cartão de crédito (eu estou entre esses clientes, e sem reclamações até o momento). Zero anuidade (diferente de BB, Itaú e cia…) e um aplicativo IMPECÁVEL para gerenciamento do que foi gasto e geração de boletos. Eles estão há anos no prejuízo, mas porque optaram em investir para aumentar a base de clientes, como no caso da Amazon, que hoje é a maior varejista do mundo. A hora que eles pararem de tentar expandir, começarão a ter lucro automaticamente, e só cobrando dos clientes que atrasam/adiam as faturas…

      Os bancos tradicionais estão tentando correr atrás do prejuízo, mas é díficil colocar esses dinossauros que inventam serviços que a maioria do pessoal não quer/precisa só para tirar um troco a mais, com quase zero transparência… Aquele monte de seguros, títulos de capitalização e o escambal acabou…

      Eu já mudei minha conta ‘tradicional’ do BB por uma conta de serviços essenciais (sem tarifas, mas com limite de saques e extratos), e fiz outra conta no banco Inter (que também é um show de bola, com zero tarifas, só que nesse caso é um banco mesmo, com conta corrente e tudo o mais) que possui saques sem cobrança e um aplicativo show de bola…

      Tanto Nubank quanto Inter possuem anuidade zero, TEDs gratuitos para outros bancos e aplicativos modernos (diferente daquele aplicativo meio bugado do BB). Acessar BB ou CEF pela Internet é um parto, a instalação de plugins estraga totalmente a performance do computador (sou da área de TI) e é um pé-no-saco… Os caras estão presos nos anos 90…

       

      Finalizando, como estava dizendo lá no começo, o monopólio acontece porque as pessoas optam pelas plataformas mais famosas… Há anos não utilizo Gmail (mudei para o ProtonMail, que é mais aberto/transparente e mais seguro), Windows (uso Linux), MS-Office (uso LibreOffice), WhatsApp (uso Telegram), IE/Chrome (uso Firefox), etc… (todas as opções entre parenteses que eu citei são abertas para se fazer auditoria e além disso, são gratuitas)…

      No mundo virtual, as opções estão aí (apesar de muitas vezes não serem conhecidas do público mais mainstream), mas a maioria das pessoas optam pelo que é mais famosinho, como é o caso do famigerado WhatsApp, que nada mais é que um programa espião no seu smartphone…

       

      Já falei para o Nassif (na questão das criptomoedas) e repito: esses dinossauros (bancos) serão engolidos pelos mais jovens, e não vai dar nem tempo de anotar a placa… São a Kodak ou Blockbuster dos dias atuais… Os mais jovens nem vão saber do que se trata…

      • Sim porém não

        Jigsaw,

        Concordo que existem opções livres para tudo, porém as pessoas leigas nunca irão se preocupar com essa questão. A pessoa que usa o whatsapp não está se importando se está só colaborando para que uma megacorporação domine o mercado de comunicação, pra ela a ferramenta resolve seu problema e só.

        A questão da centralização intrínseca existe e achar que só porque novos concorrentes irão aparecer que todos os problemas vão acabar é ilusão.

        Quando o mercado de opinião da internet começou a se tornar uma opção viável, várias pessoas amarguradas com a mídia tradicional (TV, jornal e revista) acreditavam que isso por si só iria resolver o problema. Hoje com quase 10 anos de realidade nada mudou, o conteúdo na internet está quase todo centralizado em 2 ou 3 players que controlam o que cada um vê.

  2. Humpf. Daqui a uns anos essa

    Humpf. Daqui a uns anos essa nova bolha vai estourar, o dinheiro dos incautos vai desaparecer, ninguém vai responder, não tem seguro como os bancos normais.

    Muda-se o nome: Ponzi, pirâmide, Boi Gordo, Frango Gordo, Porco Gordo, Avestruz Gordo, Kriptacoin Argent Global Network, Banners Viewer, DFRF Enterprises, Telexfree, BBom, Geteasy, iFreex, Bitconnect…

     

    Só esperando.

     

  3. Nessas horas vale lembrar a pergunta do ascensorista:

    “É uma boa investir em ações?”

    Quando pessoas de menor poder aquisitivo estão sendo “infectadas” pelo virus das bolsas que andavam crescendo, é hora de cair fora da mesma, pois os tradicionais especuladores na bolsa perceberam que as cotações bateram no teto e é hora de passar o mico adiante.

    Daí tentam seduzir os mais humildes.

    Talvez as tais fintéches sejam justamente corretoras disfarçadas como algo novo na praça para passarem seus micos para os otários.

    Mas, confio no Nassif, cedo ou tarde saberemos dele, pois ele nos informará a respeito.

  4. davi e golias

    o crédito consignado no Brasil começou com a ideia de trabalhar com juros mais baixos que os praticados pelos grandes bancos. então eles entraram na jogada.

    infelizmente é assim, se eventualmente as finthechs ameaçarem os grandes bancos, provavelmente serão compradas.

     

    • fintechs num mundo com BACEN e CADE

      infelizmente é assim, se eventualmente as finthechs ameaçarem os grandes bancos, provavelmente serão compradas.

      O que, infelizmente, é extremamente provável num país em que o Banco Central e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica deram seus beneplácitos à oligopolização bancária, aceitando de boa coisas inacreditáveis como a compra do Unibanco pelo Itaú e do HSBC Brasil pelo Bradesco.

       

  5. Interessante também é

    Interessante também é acompanhar a atuação dos operadores de cartão de crédito, como o Nubank, cujo próximo passo – se conseguir furar o bloco monolítico do Banco Central – é tornar-se um banco totalmente virtual. Seu cartão de crédito tem taxas muito mais civilizadas que a concorrência tradicional; até por isso, a resistência.

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