Desigualdade, estatísticas e a sombra do Coringa, por Luis Nassif

São curiosas as estatísticas sobre desigualdades sociais. Tome-se o caso do Chile. Até pouco tempo atrás era visto como caso de sucesso, devido ao crescimento do PIB e, supunha-se, da renda.

O bem estar de um povo se mede pela renda per capitã e pelos serviços públicos colocados à sua disposição. Um país com renda menor, mas com bom serviço de saude, pode proporcionar mais bem-estar aos seus cidadãos do que um país com renda per capita melhor, mas sem os serviços de saude. Ou sem acesso a habitação acessÍvel.

Lembro-me de uma discussão sobre renda de algumas décadas atrás. O estatístico queria provar que a renda média melhorara no governo FHC. A afirmação se chocava com a realidade.

O que ocorreu, na verdade. O pai trabalhava fora e a mãe ficava em casa cuidando dos filhos e orientando-os na educação. Mas esse trabalho não era computado. Com o agravamento da crise, ela precisou sair de casa para completar o orçamento. Passou a ter gastos maiores. Se com filhos menores, gastos com creche ou babá. Ou então, passou a dobrar o trabalho.

As informações que vem do Chile sustentam que a maior parte da população não consegue bancar os gastos com saude – que foi inteiramente privatizada. E contam com previdência social insuficiente, depois da introdução dos planos de capitalização.

Além disso, continua uma sociedade quase inteiramente dependente de matérias primas, essencialmente do cobre, ou de frutas e madeira.

Outro ponto relevante é que os conflitos distributivos independem do nível de melhoria da população. No final dos anos 70, os metalúrgicos do ABC estavam em siutuaçao melhor do que no inicio da década. Mas havia uma brutal disparidade de renda e, mais do que isso, falta de perspectivas de melhoria futura, devido ao agravamento da crise econômica. A consequência foram as greves do ABC base da criação do PT e da liderança de Lula.

O mesmo fenômeno ocorreu no governo Dilma. Houve o fenômeno inédito da inclusão de milhoes de pessoas na linha do consumo. Sua vida melhorou substancialmente em relaçao ao passado recente, mas abortou-se a perspectiva de mais melhoria com a crise chegando e, mais que isso, um nível maior de exigência em relaçao aos serviços públicos. O resultado foi a revolta,

É o mesmo fenômeno que acomete nações europeias, e mesmo os Estados Unidos, com o advento da ultradireita e, agora, com a reação de partidos de esquerda mais radicais.

Pior que isso, os movimentos atuais não são ideológicos. Como dizia um cartaz no Chile, não somos nem de esquerda, nem de direita, somos de baixo, e estamos contra os de cima.

Esse é o nó maior da atual quadra. A esquerda ganha na Argentina, e pegará uma economia em ruínas. Passada a fase de carência, todos os males da economia serão jogados em suas costas. O mesmo ocorrerá no Chile. Pinera amarga índices recordes de rejeição. Voltando Bachelet, a conta irá para ela.

O problema maior é a falência do sistema de democracia representativa. Em algum momento do futuro, o país terá que trazer de volta a experiencia dos conselhos de paeticipaçao, previstos na Constituiçao, mas que pouco funcionaram no período democrático.

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