Foram os economistas, não os bolsominions, que atropelaram a razão, por Luis Nassif

Grandes grupos nacionais naufragaram com CEOs genéricos, da Sadia à BRF, o Unibanco e, agora, a Vale do Rio Doce. E, no plano internacional, a desmoralização do modelo de gestão do pai de todos os genéricos, Jorge Paulo Lehman

Tenho escrito alguns artigos sobre a praga do CEO genérico – o sujeito que só trabalha em cima do conceito de corte de custos e de aumento da rentabilidade da empresa no curto prazo.

Grandes grupos nacionais naufragaram com esses tipos, da Sadia à BRF (a tempo, os sócios trocaram um genérico por um do setor), o Unibanco e, agora, a Vale do Rio Doce. E, no plano internacional, a desmoralização do modelo de gestão do pai de todos os genéricos, Jorge Paulo Lehman.

O universo de uma empresa passa por inovação, segurança, desenvolvimento de novos produtos, atenção às mudanças no mercado. Mas o CEO genérico é focado exclusivamente na busca de resultados de curto prazo. O que importa é a distribuição de bônus a cada trimestre e o corte de custos.

Narrei aqui o deslumbramento de executivos da Sadia, quando o conselheiro Vicente Falconi descobriu um método de economizar água na lavagem dos uniformes; ao mesmo tempo em que se descuidava de uma norma básica de gestão: o departamento incumbido de analisar riscos de operações financeiras estava diretamente subordinado ao diretor financeiro, incumbido de correr riscos de operações financeiras. A Sadia quebrou, mesmo economizando a água da lavagem dos uniformes. Assim como no setor público, é o Executivo maior que dá a orientação geral, o enfoque a ser seguido pelos subordinados. Quando o enfoque é unicamente melhorar a rentabilidade, a empresa mata seu futuro; como mataria se o enfoque fosse o de aumentar os preços a qualquer custo.

Quando se subordina toda política econômica ao Ministro da Fazenda, o resultado é o mesmo. A partir de Paulo Haddad (o último Ministro da Fazenda com conhecimento do funcionamento da economia real), nenhum dos Ministros posteriores tinha a menor noção sobre a relevância das políticas científico-tecnológicas, do apoio à pequena e micro empresa, dos programas de treinamento profissional do sistema S, das estratégias comerciais, dos modelos de financiamento de longo prazo, do impacto do câmbio apreciado sobre a atividade industrial.

E sequer sobre as correlações entre os setores da economia. Por conta da preponderância massacrante da análise econômica de mercado, o Brasil criou uma ciência econômica aplicada tão irracional quanto os argumentos de bolsonaristas nas redes sociais. Assim como o CEO genérico, o analista de mercado quer saber apenas a influência dos eventos econômicos sobre as cotações de mercado.

O jogo do micro preto

Montou-se um jogo perverso, no qual os grandes gestores criam questões ilusórias para provocar a alta dos mercados. Por exemplo, se a reforma da Previdência for aprovada, o mercado explode. Aí, com a ajuda preciosa do jornalismo econômico-financeiro, vai alimentando as expectativas. Se um fenômeno internacional provoca a alta do dólar, eles explicam que ela se deveu ao menor esforço do governo em aprovar a reforma. E vai-se em frente com um jornalismo subdesenvolvido.

Quando está perto do fato (ou da aprovação ou rejeição da reforma), o primeiro time vende seus ativos no pico e começa a alimentar o discurso negativo. O mercado despenca e o jogo recomeça. E para onde eles vão, a mídia vai atrás.

Nesse loucura, perdeu-se qualquer noção de correlação econômica.

A ciência-demência da economia

A melhor definição para o jogo de manipulação da ciência foi Olavo de Carvalho, em um artigo dos anos 90 intitulado “Ciência e Demência”.

Dizia ele que o intelectual se torna respeitado e conhecido devido a uma determinada teoria que abraçou. A teoria se torna tudo para ele, seu ganha pão, sua fonte de prestígio. Aí, ele começa a observar a realidade, e o que vê na bate com a teoria que aprendeu. Mas, como ele é um intelectual, ele desenvolve uma nova teoria para provar que aquilo que ele está vendo não existe.

Desde que comecei a questionar dogmas acadêmicos, ainda nos anos 80, me surpreendia com esse padrão de auto-defesa de escolas acadêmicas.

Lembro de uma defesa da indústria nacional infante, e o economista amigo me fuzilando: “Você se tornou um mercantilista!”. E eu apenas queria ver a solução de um problema da industrialização brasileira. Ou, fazendo a defesa do mercado de capitais como forma de reciclar, para a economia real a acumulação financeira do período anterior. “Você se tornou um neoliberal!”.

Esse conjunto de slogans em nada fica a dever ao padrão de argumentação dos bolsominios no Twitter. Na verdade, a perda de foco na análise dos fatos foi uma praga antiluminista que atingiu todos os setores das ciências humanas, da economia ao direito – nesse campo, o maior estimulador desse antirracionalismo foi o Ministério Luis Roberto Barroso, do STF, tornando a decisão jurídica uma interpretação aleatória do que supostamente pensa a opinião pública.

O melhor exemplo da ciência-demência foi fornecido, recentemente, por Edmar Bacha, em um artigo em que tentava rebater argumentos de André Lara Resende sobre gastos públicos.

Bacha pegou um tema específico: o peso dos juros no déficit público nominal (deficit primário +  juros). Disse que não era 7,5%, mas 3,5%, “logo, os juros têm que seguir abaixo da expectativa de crescimento do PIB”.

Qual a relação de causalidade? Nenhuma. Mas o argumento tornou-se padrão e Bacha se vê autorizado a repetir em qualquer ambiente.

O grande Dionísio Dias Carneiro, economista neoclássico, lá pelos anos 90 definiu bem o novo jogo que se armava, em torno da era das planilhas eletrônicas:

  • O jovem economista junta duas séries, sem nenhuma correlação, e tira conclusões taxativas sobre elas.

É o que ocorre nas políticas de estímulo à demanda. A raiz de todos os males atuais está na queda da demanda: queda de emprego e de renda, endividamento das empresas e famílias, queda da arrecadação fiscal, inviabilização das concessões rodoviárias e de aeroportos – obviamente com a contribuição fundamental da Lava Jato, destruindo a engenharia nacional.

No entanto, todas as soluções apresentadas passam por restrições de demanda visando criar um suposto choque de expectativas positivas. Se o empresário acreditar que a reforma da Previdência será bem sucedida, ele voltará a investir. Mesmo que todas as decisões tenham sido no sentido de contrair ainda mais a demanda.

Mas vender para quem? E a troco de quê investir se a crise gerou capacidade ociosa?

 

Leia também:  Roberto Leonel: o homem de confiança da Lava Jato dentro da Receita Federal

Analise no gráfico o conjunto de medidas tomadas desde Joaquim Levy com a intenção de recuperar a demanda:

  • elevação da taxa real de juros – antidemanda;
  • corte drástico nos gastos – antidemanda
  • PEC do teto – antidemanda
  • redução dos programas sociais – antidemanda
  • travamento do crédito – antidemanda
  • esvaziamento do BNDES – antidemanda.

É evidente que há limites para os gastos públicos. Mas esses limites são dados pelo nível de preços ou pelas contas externas. Se uma economia está bombando, a receita fiscal também estará bombando, o nível de desemprego está caindo, a renda está subindo. Chega um momento em que poderá ocorrer um super-aquecimento, gerando inflação.

Justamente por isso, a política econômica é muito mais arte do que ciência, muito mais conhecimento do mundo real – isto é, da maneira como os agentes econômicos irão reagir às decisões de política econômica – do que as suposições contidas nos manuais. Qual a dosagem ideal de aumento nos gastos públicos que provoque um aumento da receita fiscal superior ao gastos efetuado? Não há manual que resolva essa questão. Mas qualquer norma de bom senso, qualquer análise dos fundamentos da economia, sabe que, quando a economia cai, cortes fiscais aceleram ainda mais a queda. Nem essa lição básica a política econômica brasileira aprendeu. É por isso que todo ano começa com uma projeção de crescimento que vai se diluindo à medida em que o tempo passa. A fé move montanhas, mas não ressuscita PIB fuzilado pela política econômica.

O Brasil tornou-se uma sociedade irracional. E a culpa não foi dos Bolsonaro. Eles apenas saíram às ruas, quando uma suposta elite intelectual abriu as portas das jaulas.

16 comentários

  1. A dupla Nassif-André Araújo é a única coisa sensata no jornalismo econômico brasileiro atual (creio eu o André ser o sábio recluso dos anos 2000 mencionado pelo Nassif em suas colunas. É cristalino que primeiro temos que ter demanda para movimentar a economia (a reforma da previdência se aprovada tiraria de circulação de 500 bilhões a 1 trilhão, dinheiro que move a economia, comprometendo de vez a década de 2020). Não à reforma!

  2. Nassif, por 60 mil dollars EU aceito te dar o premio de Homen Mais Bonito do Planeta.
    No mesmo “forum” nova yorkino do Bolsonaro, alias…
    Vai ter… Camarao!!!
    (De aperitivo, claro. Por esse preco voce nao vai comer mais que 3 camaroes, mas pelo menos eh o de numero 21!!! Mais que Bolsonaro vai comer na “premiacao” dele!)

    Ok… 59 mil.
    Ultima oferta.

  3. Excelente ler o Nassif raiz, de volta as origens! Nada pior do que compactuar com o baixo clero acadêmico. Muita gente boa tendo que rebolar para adaptar-se às patrulhas do momento. E já foram várias e de todos os naipes. Já basta a política maniqueísta e infestada de culto à personalidades!

  4. A maioria dos economistas é surrealista. Cria uma tese pirotécnica para impressionar a plebe ignara, arrastando atrás de si uma tropa abestalhada. Por isso, a nossa economia cresce como rabo de cavalo, para baixo.

  5. Sim, essa elite intelectual, ou seja, o mercado (e sua maquina de propaganda) fez o serviço de rebaixamento do debate publico.
    Mas, ai o Nassif vai e cita Olavo de Carvalho?!
    Pior so o caso recente de um professor que escreveu artigo sobre Kant como quem propõe debate racional com Olavo de Carvalho…Isso é que é conflito com a realidade.

  6. O “choque de expectativas positivas” virou uma solução mágica para todos os problemas da economia real. Parece óbvio que colocar em algo no campo da fé econômica a solução de todos os problemas reais da economia não daria certo… mas não no Brasil.

  7. I. Um camarada criticou o Nassif por ele usar uma ideia de Olavo de Carvalho, porém se confunde a ideia com o portador. Se Bolsonaro dissesse que ao dia sucede a noite, estaria dizendo uma verdade, muito embora seja um personagem completamente desprezível. É por isso que o debate de ideias deve ser centrado nas ideias, e não nos homens.
    II. Existem pessoas racionais em todas as áreas do conhecimento. O problema não é acadêmico, é político. Não é que não temos mais economistas racionais e realistas, o problema é que quem manda no mundo é uma burguesia EXTREMAMENTE criminosa, mafiosa. É a crua questão do PODER, quem manda de fato. Daí a atualidade das visões da sociedade como totalidade (por exemplo, a de Marx), nos lembrando que o discurso econômico hegemônico não passa de ideologia para justificar o assalto de praticamente toda a sociedade por essa burguesia EXTREMAMENTE criminosa.
    III. Portanto, o estabelecimento da racionalidade na política econômica não depende de um movimento acadêmico, mas sim de um movimento político. Digo mais: depende (ao contrário do que alguns gostariam) de uma confrontação violenta das massas populares com o sistema político podre e com os poderes econômicos em geral, principalmente os bancos.
    IV. Essa burguesia EXTREMAMENTE mafiosa está disposta a implantar uma ditadura de tipo fascista no país, portanto precisamos neste momento:
    a) Derrubar o governo; contra todas as tentativas de legitimar o regime político do golpe de estado, incluindo as últimas eleições e seus resultados.
    b) Libertar Lula; o maior líder político do país, vítima de prisão política, o anti-Bolsonaro, e, neste momento, o fiador da possibilidade de um acordo político a nos tirar desse atoleiro.
    c) Construir e fortalecer um partido político que se ocupe de política, e não de eleições.
    AS ORGANIZAÇÕES DE ESQUERDA CORREM O RISCO DE SEREM EXTINTAS NUM FUTURO PRÓXIMO CASO NÃO HAJA CONSCIÊNCIA POLÍTICA POR PARTE DAS DIREÇÕES NESTE MOMENTO DE EXTREMA GRAVIDADE.

  8. A burrice não é consequência, mas o método aplicado à economia brasileira. Mas tem lógica.
    Qualquer estudantezinho meia-boca sabe que desde os anos 40 o Council on Foreign Relations traçou uma tarefa para economias como a brasileira: servir apenas como fonte de matéria-prima e absoverdora de capitais dos EUA.
    De lá para cá este objetivo tem sido conseguido infiltrando quintas-colunas na academia e nas FFAAs. Essa gente tudo fez, para, conscientemente ou não, reduzir o Brasil a uma imensa plantation. Ou melhor, fazer o Brasil voltar a ser o que era no século XIX. Esse povo jamais evoluiu. Jamais se importou com o Brasil e seu povo. Para eles isso daqui ainda é uma colônia com escravos que deve ser sugada até a alma. Nada mais.
    Como disse: a burrice é o método. E alunos entusiasmados é o que não falta.

  9. Luis Nassif, eu já era seu fã, mas com esse texto sou agora mais ainda. Nunca gostei de ler sobre economia, mas o seu texto foi claro, deu pra entender a essência. Mas o mais magnífico mesmo foi o final. E tenho certeza que essa elite intelectual demente está arrependida de ter soltado seus cães raivosos. Parabéns!

  10. Penso que, na verdade, há duas questões que devem ser distinguidas no debate econômico travado no Brasil.
    A primeira concerne à política a ser adotada frente a recessão. Nesse ponto, duas visões, ou modelos, pautaram as discussões pelo menos a partir de 2014: os de inspiração keynesiana e o que podemos chamar, sem muita precisão, de neoliberal.
    No modelo keynesiano (adotado por Nassif), devem ser conjugadas políticas monetária e fiscal expansionistas, ou seja aumentar a demanda agregada; no neoliberal, ao contrário, deve-se promover um ajuste do setor público, o que, evidentemente, reduz a demanda agregada. Mas, o ajuste, nessa visão, restaura a confiança do setor privado que aumenta seus investimentos mais do que compensando a retração do setor público. É a famosa “fada da confiança”.
    Tudo isso foi muito discutido na academia, nos jornais nacionais (aqui mesmo, no GGN) e internacionais (Krugman, p. ex.) e no FMI. A esta altura só os mais fanáticos neoliberais (mas não são poucos, Folha de SP, etc.) insistem na desmoralizada fada da confiança. Resta saber se de fato ainda acreditam mesmo nisso.
    Por que, então, não se adotam políticas anticíclicas? Bem, primeiro devemos reconhecer que houve alguma redução dos juros, mas a política fiscal expansionista continua a ser tabu. Julgo que a explicação está na segunda questão que está em pauta: o modelo de desenvolvimento econômico (algo muito mais complexo do que o ajuste de curto e médio prazo) a ser adotado no Brasil.
    É a opção pela construção de uma sociedade neoliberal que trava a adoção de políticas anticíclicas tradicionais. Para o construtivismo autoritário neoliberal (não há contradição nos termos), é necessário terminar a destruição do incipiente estado de bem-estar social brasileiro e do setor produtivo estatal, o que enquadraria o Brasil na “nova ordem” econômica e política hoje em crise no mundo. Trata-se, portanto, de reduzir o tamanho do setor público, o que é incompatível com uma política fiscal expansionista.
    Devemos reconhecer, no entanto, que a esquerda (digamos assim) não tem uma proposta clara de modelo de desenvolvimento. É certo que a era Lula marca a tentativa de construção de um estado de bem-estar social, mas pouco ou nada fez para implementar um modelo de desenvolvimento alternativo ao neoliberal (lembremos as escolhas para o BC, etc). E exemplos existem, o mais notório é o da China, com forte presença do estado.

  11. Apenas continuamos com o Estado Fascista Esquerdopata Ditatorial implantado no Golpe Civil-Militar de 1930. Um Estado a sustentar e dar suporte à Elite que ascendeu juntamente com o Caudilho e se manter desde então. Chegamos à estratosfera do recolhimento de impostos. A Sociedade Civil não suporta mais nada. O Parasita corre o risco de perder o Hospedeiro. A tal Curva de Laffer. Drenagem absurda de receitas da Sociedade Civil para a manutenção da Elite arraigada no Estado. Elite que diz não se enxergar Elite. Fazer o que então? Culpa-se o Estado, pela mediocridade desta Elite, e torna-o em Propriedade Privada. Tal Elite continua no Estado a comandar o Processo. E quem irá comprar e comandar este Patrimônio Público, Nacional, do Povo Brasileiro que se tornará em Propriedade Privada? Adivinhem?!!!! Como você conseguiu tal fortuna, caro Paulo Lehman? Pedágios Estratosféricos em Rodovias construídas com Dinheiro Público e obras do Governo? Diz aí Richa? Tem alguma idéia, caro Paulo Preto? 150 milhões na Suíça é todo seu? Sabemos. Contratos com Garantias de Faturamento e Lucratividade. Qualquer risco será coberto pelo Estado e Bolsos Brasileiros. Temos que garantir a Segurança dos Contratos, brada Mirian Leitão. No país do óbvio e das coincidências, estamos discutindo o sexo dos anjos. Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação. Só mais 3 perguntas: Quem matou Marielle? Tem mais alguém morando no Brasil? Filhos e Netos do Poder Público estudam aqui, em alguma High School ou Harvard, Cambridge ou Oxford?

  12. Não entendi a menção ao olavo de carvalho.
    parece que ele próprio abraçou as suas asneiras e está abraçado a elas, com mais xingamentos e palavras de baixo calão.
    Num país de ignorantes e mentecaptos ele faz sucesso e até influencia governos, ruins é claro.

  13. + comentários

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