O desafio de acabar com a armadilha das metas inflacionárias, por Luis Nassif

A dúvida é até onde irá o governo Lula para desmanchar a armadilha da política monetária.

ROBERTO PARIZOTTI (SAPÃO)

Há uma certeza e duas alternativas para o Banco Central. A certeza é a de que a política monetária implementado desde o Plano Real significou a maior transferência de renda da história e o maior custo orçamentário do país. A ponto de não haver dúvida de que, se metade do custo de rolagem da dívida pública fosse aplicada em investimentos públicos, se teria hoje em dia um país desenvolvido.

A dúvida é sobre a maneira de combater esses vícios.

O problema maior é a concepção da política monetária, das metas inflacionárias e do foco exclusivo nas taxas longas de juros.

Cada vez que a inflação aumenta, o modelo indica uma alta maior ainda da taxa de juros, de modo a combater a alta de preços. No modo convencional, alta de juros serve para reduzir o consumo, via encarecimento do crédito e do financiamento. Portanto, só seria empregada em caso de aquecimento da demanda.

Por aqui, não há distinção. Aumenta a inflação – mesmo que por choques de oferta ou problemas sazonais – toca aumentar os juros. O impacto sobre o crédito ao consumidor é mínimo. Em um país em que o crédito tem piso de 35% ao ano, não é o aumento de 1 ou 2 pontos ao ano que irá reduzir a demanda por financiamento. Por outro lado, o impacto sobre o investimento é direto. Um ou dois pontos ao ano, em um prazo de 10 a 15 anos (de maturação do investimento) impacta fortemente o custo do financiamento.

Por que, então, o aumento de juros reduz a inflação? Pelo efeito sobre o câmbio. Aumentando os juros, aumenta o fluxo de dólares entrando no país, provocando uma apreciação do câmbio e o barateamento dos produtos comercializáveis – importados ou exportáveis.

Portanto, um dos preços fundamentais da economia – a taxa de câmbio – passa a ser utilizado como variável de ajuste para a inflação, uma loucura econômica imposta pelo ultraliberalismo.

No caso brasileiro, há mais que isso. A lógica do BC é aumentar a taxa de juros até que as taxas longas do mercado comecem a ceder. Segundo a superstição mercadológica, começando a ceder, os dólares voltam a entrar no país. Mas que dólares? Os dólares para aplicações financeiras, não para investimento em fábricas e aumento da produção.

O quadro é agravado pelo fato de que o BC deixa o mercado operar livremente, em movimentos especulativos tanto nas projeções de inflação quanto nas taxas longas de juros e no câmbio. Nos Estados Unidos, o FED opera as taxas, para impedir que especuladores elevem a curva futura de juros.

A partir daí, há dois caminhos. O caminho conservador seria obrigar o BC a atuar mais decididamente no câmbio e nos juros, reduzindo a volatilidade de ambos os ativos. E até substituir o sistema atual, de operações compromissadas, por depósitos remuneradas. Pelo sistema atual, sempre que há sobra de caixa nos bancos, eles adquirem títulos do BC, com o compromisso do BC de recomprá-los no dia seguinte, uma mera operação de controle da liquidez pressionando agudamente a dívida pública.

O segundo caminho seria romper de vez com a ortodoxia, controlando a taxa de câmbio – com o poder das reservas, com IOF ou com medidas administrativas -, recompondo estoques reguladores, atuando diretamente sobre setores que pressionem os preços, para garantir a normalização da oferta.

Em algum momento do futuro, será considerado um anátema utilizar o câmbio para combater a inflação, ou trabalhar com ficções estatísticas, como taxa de juros neutra, PIB potencial e outras, totalmente despregadas da realidade da produção.

A dúvida é até onde irá o governo Lula para desmanchar a armadilha da política monetária.

2 Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

José de Almeida Bispo

- 2022-07-01 21:39:57

"Em um país em que o crédito tem piso de 35% ao ano, não é o aumento de 1 ou 2 pontos ao ano que irá reduzir a demanda por financiamento." Mas o agiotês dos cabeças de planilha, pagos ou não, intencionais ou não, se alimenta de mantras. E se agrada aos patrões - os bancos - melhor ainda.

Luiz Alberto melchert de Carvalho e silva

- 2022-07-01 09:06:53

Enquanto não se fizer uma regressão tendo a inflação como variável dependente e a taxa de juros como veriável independente, qualquer coisa que se diga é mera dialética. O problema é montar ummodelo econométrico para fazer essa medição. Para que a taxa de câmbio caia em função da taxa interna de juros, por exemplo, é preciso que ela suplante a taxa de juros americana dividida pelo risco-país. Ora, se o risco-Brasil sobe e a taxa prime rate também sobe, nossa taxa básica de juros tem que subir brutalmente, inviabilizando qualquer negócio por aqui. Aí, os dólares que entram não têm outra alternativa além de adquirir títulos de nossa dívida pública. Há ainda outro agravante, a taxa precisa incluir a expectativa de inflação, o que a faz aumentar ainda mais, tornando o remédio numa bola de neve.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador