O mercado critica a política monetária do BC

O chamado mercado – o conjunto de vozes dissonantes, da maneira como é captado pela mídia – tem enorme dificuldade em admitir o óbvio.

Por trás das teorias, das formulações, existem conceitos básicos que não podem ser ignorados. Como, por exemplo, o impacto de juros elevados na dinâmica de crescimento da dívida. Ou a evidência de que, se uma recessão de quase 3% não derrubou a inflação, obviamente não se trata de uma inflação de demanda. Também o fato óbvio de que os dois canais de transmissão dos juros sobre os preços são o crédito (= demanda) e o câmbio.

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Ao contrário do que se supõe, o nível de conhecimento efetivo do mercado é pequeno. Há um conjunto de economistas e operadores mais experientes, capazes de identificar melhor os rumos da economia.  São aqueles que desenvolveram uma capacidade especial de sentir os humores do momento e antecipar os movimentos seguintes. Para tanto, é necessário conhecimento macroeconômico, não apenas da teoria mais geral, mas das correlações mais específicas da economia nacional, visão política e intuição sobre a psicologia do mercado.

Mas a maioria segue os sinais imediatos dos ventos. Aliás, a facilidade com que a maioria adere ao efeito manada é que garante o sucesso dos especialistas.

É por isso que muitas vezes renegam o óbvio. Julgam o óbvio simples demais para uma área em que os Economistas correlacionam séries estatísticas das  formas mais imaginosas possíveis, principalmente depois que a planilha eletrônica popularizou o processamento estatístico..

Dias Carneiro definia bem esse tipo de economistas, que juntava duas séries estatísticas sem nenhuma correlação entre si e gerava conclusões das mais estapafúrdias.

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O físico Brito Cruz, ex-reitor da Unicamp, tinha uma maneira muito simples de identificar os competentes dos bufões. Quem pensa claro, escreve claro, diz ele. Em relação aos que escrevem de forma complexa, há dois tipos: os gênios e os embusteiros. Gênio, eu conheci um: Einstein.

Também na Economia existem os craques e os embusteiros, os analistas e formadores de opinião de primeira e segunda classe.

Os de segunda classe são aqueles que recorrem a slogans ideológicos, vez por outra aderem ao padrão do colunista pitbull. Em geral são os mais ouvidos pela mídia, porque o que dizem fala mais de perto ao leitor comum. Tem o mesmo apelo do comentarista de futebol.

Em geral desprezam a lógica, não explicam suas análises com correlações claras de causalidade. E recorrem intermitentemente a bordões ideológicos.

Com a economia despencando 3%, insistem: se a expectativa de inflação subiu, obviamente o BC terá que aumentar a Selic, porque é isso o que está no manual.

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A melhor maneira de separar o economista de segunda classe do de primeira é pedir que explique as correlações, os pontos centrais de transmissão da política monetária, da cambial etc.

Os de primeira classe explicam. E é isso o que fizeram no jornal O Valor de ontem: Yoshiaki Nakano, Luiz Carlos Mendonça de Barros e Zeina Latif foram unânimes em enxergar o óbvio:

  1. Se a economia está caindo 3% e a inflação não cedeu, não há nada a se fazer em relação a política monetária – que visa, em última instância, derrubar a demanda. É evidente que a política monetária não está funcionando.

  2. Se a inflação foi alimentada por altas nos preços dos insumos (energia, combustíveis e câmbio) e se a demanda está despencando, o remédio é ficar quieto esperando passar o efeito dessas altas.

  3. Se a política monetária mostra-se ineficaz em relação à inflação, em vez de explicações que mais parecem de manual de Economia, o BC deveria estar estudando outras formas de trabalhar a questão. Ou pela âncora cambial, ou mudando o padrão DI (de indexação diária dos títulos da dívida pública).

  4. A elevação da Selic irá arrebentar de vez com o equilíbrio fiscal. E dois anos de recessão produzem um desastre ampliado;

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Confirmam o que este blog vem alertando há tempos para essa imprudência de deixar o controle da inflação como uma peça independente, nas mãos de quem não tem nenhum diagnóstico novo e eficaz a oferecer.

64 comentários

  1. Ações de política monetária e cambial

    Do ponto de vista da demanda nada justifica um aumento dos juros da Selic, muito pelo contrário, os juros deveriam se negativos considerando a atual queda do PIB e a projeção de queda do PIB para 2016.

    A atual taxa de câmbio é mais do que suficiente para aumentar significativamente as exportações de manufaturados, bem como proporcionar uma substituição de parte dos importados pela produção nacional, e manter o equilíbrio nas contas externas.

    Desde de setembro de 2014 o dólar passou de R$ 2,23 para R$ 4,03 uma “maxidesvalorização” de 80%(oitenta por cento) do real diante do dólar.  e que já provocou  uma valorização em reais das Reservas Cambiais, de R$ 845,8 bilhões(26% da dívida pública bruta)  para R$ 1,48 trilhões(40% da dívida pública bruta) no período,daqui para frente basta manter um relativa estabilidade cambial, com correções de 6% a 10% nominais ao ano  para manter a atual paridade.

    Mas para poder resgatar os títulos públicos em poder do mercado é necessário vender antes os dólares das Reservas Cambiais, mas se for vendido tudo de uma vez o dólar volta a cair no Brasil, e em uma velocidade bem maior do que levou para atingir os atuais R$ 4,03(cerca de 15 meses)

    A venda tem que ser feita de forma gradual aproveitando os períodos de queda da liquidez no mercado internacional, como no final de 2008, no início de 2014 quando o FED anunciou a mudança na política monetária, e como   agora que o FED está iniciando o processo de aumento dos juros americanos.

    A venda de parte das reservas Cambiais proviocaria  uma diminuição da liquidez em reais no sistema financeiro, diminuindo a necessidade das operações compromissadas realizadas pelo Banco Central

    É um  movimento de idas e vindas, comprando na baixa para impedir uma queda acentuada do dólar, e vendendo na alta para evitar altas exageradas da taxa de câmbio.

    Um dos principais erros do Banco Central do Brasil foi vender swaps cambiais, sem vender parte dos dólares das Reservas Cambiais no mercado à vista, este erro permitiu aos especuladores comprar swaps cambiais e ao mesmo tempo comprar dólares no mercado à vista para puxar a taxa de câmbio e ganhar nos contratos de swaps cambiais.

    O Banco Central vem atuando como se o Brasil não tivesse Reservas Cambiais de quase US$ 400 bilhões, apenas quando o dólar bateu em R$4,25, ele passou a vender dólar com compromisso de recompra para financiar exportadores, o que é muito pouco diante da mudança na política monetária americana.

    Mais importante do que impedir novas altas exageradas do dólar, é impedir que o dólar volte a cair de forma acentuada, por meio de compra de dólares para aumentar novamente as Reservas Cambiais, caso seja necessário.

    Hoje o Brasil importa a maioria dos componentes eletrônicos, o que elevaria o preço deste produtos em reais, além disso uma série de produtos que utilizam o dólar como referência, soja, milho(base da ração animal-gado e frango), trigo café, nafta, cobre, ferro, ouro, prata, petróleo e derivados, nafta, energia elétrica produzida em Itaipu(20% energia elétrica do Brasil), apesar do aumento da produção nacional, haveria uma preferência das principais indústrias em exportar a produção em caso de alta exagerada do dólar, além disso haveria uma significativa redução do poder de compra dos trabalhadores brasileiros em função da alto dos preços que tem o dólar como referência.

    Uma dívida de pública buta de R$ 3,8 trilhões não dá para liquidar da noite para o dia, é necessário fazer de forma gradual, ano após ano, caso contrário haveria um aumento exponencial da liquidez  que seria impossível controlar.

     

  2. Salvador Aqui

    Infelizmente para o povo brasileiro a situação é surreal.

     

     

    Quem se alterna no poder, vai de playboys irresponsáveis, passa por ingênuos e termina nos acadêmicos arrogantes, todos eles incentivados pela ganancia do Poder e cooptados por este Poder. Em síntese cada um obra por si mesmo, pelo próprio interesse particular relevando para segundo plano o bem estar da coletividade. A mediocridade de quem se acastela no poder e nos formadores de opinião que os sustentam é aterradora.

     

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=3ovWpnKSoic%5D

     

    Senão como explicar o imbativel: – O fisiologismo.

    Todo governo é estruturado num mecanismo perverso de desvios, conchavos, pactos e manutenção de um poder pequeno que visa somente e unicamente interesses corporativos, classistas que chega as raias do deboche com a opinião publica e a inteligência alheia.

    Distribui-se cargos na maior cara de pau sem constrangimento algum e a própria mídia publica como a coisa mais natural do mundo. Aos olhos do cidadão comum parece uma partilha de território muito comum nos filmes de gangsteres e da máfia. Tanto se repete isto nos noticiários como a coisa mais natural que vai se incorporando nas massas como uma coisa normal. A pouca educação do povo e a ignorância politica da maioria vai tornando esta situação algo a ser digerido como inevitavel e natural e não como veneno a ser evitado. Esta surreal, verdadeiro descalabro com os interesses da Nação.

    Todo mundo sabe disto e em vez de se focar diretamente no alvo, aceita-se os mais variados recursos de prestidigitação que desvia a atenção do verdadeiro objetivo a ser trabalhado.

    O que adianta a luta encarniçada para manter no governo da Nação a Dilma, o Aécio, o Lula ou o Fernando Henrique se a estrutura apodrecida continua a mesma?

    Indice de abstenção nas ultimas eleições – Cerca de 38 milhões de pessoas não escolheram candidato na ultima eleição.

    Não se discute na formação dos ministérios que são os mais altos cargos auxiliares de governança qualquer atributo e necessidade de competência e tecnicidade, antes de tudo distribui-se e preenche-se todos os espaços baseados unicamente nos interesses particulares invariavelmente vinculados a benesses pecuniários. Se é assim no alto escalão, nos subalternos a coisa toda resvala o absurdo.

    O povão sente isto. Pode até não compreender como é possível tamanha desfaçatez sobreviver e dirigir os destinos dos milhões de cidadãos, mas institivamente vai acumulando experiências que periodicamente explode em revolta e mudanças.

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=Xqrt1kniMIg%5D

    Verdadeiro samba do crioulo doido.

     

    A politica no Brasil é um deboche. O pior é que  se vincula esta realidade aterrorizante como normal. Qdo muito publica-se algum vídeo como este em demonstração de indignação e tudo continua como antes.

     

    Não adianta mudar os móveis de lugar. É urgente uma reforma na casa toda, senão os cupins continuarão a obra incansável de destruição.

    Pode-se argumentar que em plena tempestade não se pensa em reformas que é necessário esperar que os elementos desencadeados enfurecidos se amenizem. Porem, ao constatar que nenhum morador aparvalhado diante da crise manifeste qualquer disposição no sentido das reformas imprescindíveis, torna a casa a constatação do triste destino de sua realidade.

    Aponte-se um discurso, sequer, que trate de equacionar com esta herança maldita.

    Um somente.

    Não existe.

    A oposição interessa o ambiente de ambivalência e incerteza, pelo menos até 2018, ao governo unicamente abraçar-se ao primeiro que se aproxima para evitar o afogamento.

    É muita grana. A casa da mãe joana é riquíssima. A vaquinha tem tetas enormes.

    E no meio disto tudo o mercado, Deux ex Machina que sobrevive a tudo e a todos alimentado pela ganancia e pelo descaso com o bem estar do populacho.

    Enquanto se manter unicamente este fla-flu de neoliberarismoXpopulismo, se a Selic deve permanecer nas alturas para gáudio dos rentistas ou deve imitar os juros dos EUA, a galhofa continuara a mesma, muda-se apenas os beneficiados da coisa publica e o prejuízo continua na conta de todo mundo, dos pobres é claro.

    Teorias… Teses, lucubração econômica são uma coisa. A realidade é outra.

    Enquanto se discute o sexo dos anjos, a nave vai. Quem tem continua a ter e até mais, quem não tem o pouco que tinha lhe é tirado e o jogo sórdido da busca do poder segue impune e inalterável. É até compreensível admitir que a busca do poder é algo inerente nas sociedades humanas, mas aqui no Brasil a coisa toma ares de opera bufa, inspirada pelo deboche, descaso e menosprezo a inteligência. É certo que o povo mantido na ignorância durante séculos não tem poder de coalisão que alterasse com as coisas, é triste… Extraordinário potencial sendo descarregado pelos esgotos da historia.

    Quem neste Brasil virado do avesso tem capacidade para romper a inercia da herança maldita que nos mantem na periferia global? Algum projeto? Alguma ideia? Existem vozes esparsas que discursam no deserto e mesmo estes discursos as dunas, são inconsistentes imponderáveis.

    O Brasil precisa orar!

     

     

     

     

     

  3. Eu sou fã do Lula, sempre

    Eu sou fã do Lula, sempre votei nele (ou em quem ele indicou), mas está claro que o PT não quer mexer com vontade no vespeiro dos juros. Dilma até fez uma tentativa tímida, mas logo recuou.

    Quem sempre tem falado contra essa política de aumento de juros para combater uma inflação que não é de demanda é Ciro Gomes. Ele critica com todas as letras. Então, possivelmente, meu voto vai para ele.

    Ao contrário do que a mídia e a oposição tentam incutir na cabeça da população, a maior praga do Brasil não é a corrupção, mas sim os juros que dão lucros absurdos para os bancos e atravancam a nossa economia.

    Por falar nisso, alguém já viu o Aécio reclamando dos juros altos?

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