Os ecos de Dilma em Davos

Os ecos de Davos foram plenamente favoráveis à presidente Dilma Rousseff. No World Economic Forum, o mais importante evento do capitalismo mundial, sua fala recebeu elogios gerais, conforme a cobertura dos jornais brasileiros.

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Há um sem-número de críticas quanto à forma do governo, às vulnerabilidades da política econômica, à insuficiência dos gestores. Critica-se a contabilidade criativa, a forma como foram distribuídos subsídios, as idas e vindas dos leilões de concessão.

Embora sejam críticas consistentes, elas se referem ao periférico. É evidente que, com Ministros mais eficientes, com visão técnica mais apurada, com maior abertura na discussão de políticas públicas, o caminho seria mais fácil. Mas não é o essencial. No máximo, provocam algum atraso no deslanche da economia.

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O essencial foi dito por Dilma nos seus dois discursos: o compromisso com a responsabilidade fiscal, com o controle da inflação, com o câmbio flutuante e com os investimentos privados em áreas cruciais, como da infraestrutura. E, claro, com a construção de um país de classe média, sem a pobreza aviltante que o marcou historicamente.

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Os discursos de Aécio Neves e Eduardo Campos trazem poucas variações em torno do mesmo tema. Os pontos em comum trazem mais informações sobre o futuro do país do que eventuais pontos de discordância: significa o alinhamento em torno de princípios consolidados.

Significa o país caminhando para um modelo similar ao europeu: um partido de centro-esquerda, nos moldes trabalhistas; outro de centro-direita, mais liberal; partidos menores ocupando o espaço da extrema esquerda e da extrema direita, mas sem comprometer a polarização.

Nem se pense que o PSDB tenha lugar cativo na centro-direita. Se não se sair bem nas próximas eleições, esse espaço poderá ser ocupado pelo PSB de Campos.

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O importante é que se consolidaram os princípios centrais desse modelo brasileiro.

  1. Capitalismo social, com foco nas políticas de inclusão social e de combate à miséria.
  2. Fortalecimento de um setor produtivo privado, especialmente com os programas de concessão e do pré-sal, redução de juros e melhoria do câmbio. Há muitos furos nessa caminhada, especialmente a forma como o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) de Luciano Coutinho tratou os tais “campeões nacionais”. Mas são exageros corrigíveis.
  3. Democracia participativa. Houve um recuo no governo Dilma, com as decisões de gabinete. Mas as próprias manifestações de junho passada indicam a irreversibilidade da construção de políticas públicas coletivas, retomando o espírito da Constituição de 1988.
  4. Ênfase em investimento, inovação e educação

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Há muitos ajustes a se fazer. Tem-se um ambiente econômico anti-empreendedorismo, um Banco Central que recuou na caminhada anterior, de romper com dogmas de mercados e contas externas pouco favoráveis. E há um rombo preocupante nas contas externas. 

Mas são problemas que a própria dinâmica da democracia brasileira tratará se acertar.

O maior desafio foram as eleições de 2010. O exorcismo de José Serra foi o desafio final para a consolidação desse modelo. Tivesse sido eleito, a economia teria parado e Serra estaria buscando os álibis nos inimigos externos. E 25 anos de construção democrática teriam ido para o fundo.

157 comentários

  1. Premissas equivocadas de Luís Nassif

    O renomado jornalista se equivoca em algumas premissas:

    1) O discurso de Dilma em Davos não foi bem recebido. Veja-se a reportagem do Financial Times, importante jornal britânico de economia: http://blogs.ft.com/beyond-brics/2014/01/28/davos-wrap-em-winners-mexico-and-losers-brazil/#axzz2rtQd1wlO

    2) O PSB de Eduardo Campos é muito bem definido como de esquerda. Veja-se trecho de seu programa partidário (disponivel em http://www.psb40.org.br/fixa.asp?det=1):

    PROGRAMA

    Classes Sociais – O estabelecimento de um regime socialista acarretará a abolição do antagonismo de classe.
    Socialização – O Partido não considera socialização dos meio de produção e distribuição a simples intervenção de Estado na economia e entende que aquela só deverá ser decretada pelo voto do parlamento democraticamente constituído e executada pelos órgãos administrativos eleitos em cada empresa.
    Da Propriedade em Geral – A socialização realizar-se-á gradativamente, até a transferência, ao domínio social, de todos os bens passíveis de criar riquezas, mantida a propriedade privada nos limites da possibilidade de sua utilização pessoal, sem prejuízo do interesse coletivo.
    Da Terra- A socialização progressiva será realizada segundo a importância demográfica e econômica das regiões e a natureza de exploração rural, organizando-se fazendas nacionais e fazendas cooperativas, assistidas estas, material e tecnicamente, pelo Estado. O problema do latifúndio será resolvido por este sistema de grandes explorações, pois assim sua fragmentação trará obstáculos ao progresso social. Entretanto, dada a diversidade do desenvolvimento econômico das diferentes regiões, será facultado o parcelamento das terras da Nação em pequenas porções de usufruto individual o­nde não for viável a exploração coletiva.
    Na Indústria – Na socialização progressiva dos meios de produção industrial partir-se-á dos ramos básicos da economia.
    Do Comércio -A socialização da riqueza compreenderá a nacionalização do crédito, que ficará, assim, a serviço da produção.

    Percebe-se que, com tal programa, o PSB não se situa à direita (mais liberal), mas possivelmente até mesmo à esquerda do PT.

    3) “O maior desafio foram as eleições de 2010. O exorcismo de José Serra foi o desafio final para a consolidação desse modelo. Tivesse sido eleito, a economia teria parado e Serra estaria buscando os álibis nos inimigos externos.”.

    Com Dilma, a economia está parando (taxa média de crescimento do PIB de 2%, inadequada para uma população tão jovem como dispomos, e com inflação alta, de cerca de 6%) e o governo constantemente busca os álibis nos inimigos, externos (os “países desenvolvidos”) e internos (a “guerra psicológica da imprensa golpista”).

    Parece que o jornalista se olvidou de analisar os fatos de maneira isenta. Bela maneira para contribuir para o estado de coisas do Brasil.

    • À esquerda da direita

      1) Engraçado, os países europeus estão numa crise danada, mas tem jornais econômicos que sabem de tudo. Só não souberam ajudar o seu próprio país a não entrar na crise mundial. Eles sabem tudo o que é bom para os outros, mas nunca aplicam o mesmo remédio para o seu país de origem. E, quando os economistas do governo do seu país fazem m…. , nunca o retratam como imbecis, como tentam fazer com o governo brasileiro atual. Eu sou brasileiro, tenho nível superior, trabalho numa grande instituição e estou muito confiante no meu país. E não haverá nenhum jornalzinho do primeiro mundo que me tirará a confiança no meu país.

      2) Se o PSB é de esquerda, então ele deve ser ideologicamente canhoto. Programa socialista todos os  partidos tem. Vai ver o programa do PSDB, do DEM e principalmente do PPS. São todos socialistas. Vê se não está escrito que é tudo pelo social.

       

      3) Temos uma crise enorme lá fora, que não chegou ao Brasil. Chegou? Então só vc está sentindo. É óbvio que, só uma pessoa que nasceu em 2002 poderá criticar duramente este governo, pois não conheceu os anteriores. Agora, se a pessoa tiver um pouco mais de idade e de maturidade, ela poderá os governos anteriores com o atual. Qual era melhor para o senhor? A ditadura? Sarney? Color? FHC? Não me faça rir. 

           Se o senhor deseja contribuir para este país com uma análise isenta, faça a comparando governos. Do contrário fica uma análise vazia. Seria a mesma coisa que eu dissesse para alguém que o atleta João do Pulo, só conseguia pular 17,89 metros. Quem ouvisse e não conhecesse o esporte, pensaria logo, ele deve ser um péssimo saltador. Mas acontece que esta marca na época, deu a ele o título mundial de salto triplo, com quase meio metro a frente da marca anterior. Então, ele ganhou a medalha porque comparativamente foi o melhor. E não porque exista uma marca absoluta que algum atleta atinge é se torna o melhor. Concluindo: o governo Dilma/Lula tem defeitos, mas ainda é o melhor e eu voto no melhor. E eu não recebo bolsa família.

  2. Que tal trocarmos o discurso político-econômico?

    Ainda que este artigo tenha sido direcionado à fala da Presidente Dilma no contexto do fórum de Davos, me causa estranheza essa supervalorização da economia quando falamos de Brasil. É claro que o superávit na balança comercial e um PIB elevado são importantes, mas penso que todo texto que pretenda fazer uma análise político-econômica brasileira precisa, necessariamente, ser contundente naquilo que se mostra mais urgente em nossa realidade – a nossa crise social, que é crônica e gravíssima. Ficar falando de política e economia sem a devida ligação e ênfase com o nosso drama social é alimentar um discurso que não nos faz falta, pois já conhecemos de longa data. A meu ver, a nossa urgência passa pela política, sim, mas a partir de um processo de revisão da própria política. Não é construindo Coliseus por aí e nos projetarmos como potência econômica mundial que vamos minimizar o nosso caos doméstico. Antes disso, é um processo de dentro para fora, onde a valorização do cidadão (leia-se, todas as pessoas) é imprescindível e impostergável.

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