Xadrez da aliança Ciro Gomes-Lula, por Luis Nassif

Nas próximas eleições há apenas duas balas na agulha para interromper o desmonte do país e o fantasma de Bolsonaro: um candidato indicado por Lula ou Ciro Gomes, mas ambos os grupos caminhando juntos no segundo turno.

Há toda uma engrenagem montada em torno do impeachment, pronta a detonar “inimigos”. É o arco constituído pelo mercado, mídia e sistema judiciário. Mesmo assim, o aprofundamento da crise e o risco Bolsonaro estão tornando dois candidatos gradativamente palatáveis ao epicentro do golpe, em São Paulo: Fernando Haddad e Ciro Gomes.

Não significa necessariamente que Haddad será o candidato de Lula. Há também os nomes de Jacques Wagner, Celso Amorim e Patrus Ananias. Mas são as duas hipóteses levantadas pelas últimas pesquisas.

A disputa tem três tempos.

O primeiro turno, para definir quem será o candidato da centro-esquerda.

O segundo turno, e as alianças que resistirem à disputa do 1º turno.

A estratégia depois de eleito, assegurando a governabilidade.

Peça 1 – a estratégia de Lula

Para as eleições, a estratégia aparente de Lula consiste em manter sua candidatura até o último momento. Perto do prazo fatal, ficando claro que o golpe não permitirá que se candidate, haverá a indicação do vice, que assumirá seu lugar na chapa como seu candidato.

A lógica é clara.

Primeiro, manter viva a chama do lulismo e conseguir o impacto da proibição de se candidatar, em um momento em que cada vez mais cai a ficha da opinião pública sobre a perseguição política de que é vítima. Com isso, aumenta seu cacife e do PT para negociar alianças.

Depois, porque se o vice for apresentado antes, será fuzilado pela estrutura Lava Jato-mídia-Judiciário.  Em cima da bucha, o PT terá o horário gratuito para defender-se dos ataques.

Para ser vitoriosa, no entanto, essa estratégia depende de algumas variáveis indefinidas ainda:

  1. A capacidade de Lula de transferir votos.
  2. O tiroteio que se abaterá sobre seu candidato.

É um jogo de apostas. Se a estratégia der errado e houver o segundo turno com dois candidatos de direita, serão destruídos os últimos pontos de resistência das esquerdas e da incipiente social-democracia brasileira.

Daí as últimas orientações de Lula – após encontro com Jacques Wagner – de mandar emissários conversarem com Ciro, para esvaziar as tensões acumuladas entre ele e o PT. A orientação de Lula foi a de tratar Ciro Gomes como parceiro do mesmo lado político.

Tem lógica.

Peça 2 – a estratégia Ciro Gomes

Ciro Gomes vai montando sua estratégia política dentro da seguinte lógica:

  • Estratégia da redução de dano: a esquerda não o vê como um dos seus, nem a direita do DEM e assemelhados. Mas, para a esquerda, é garantia de suspensão do desmonte montado por Temer e, para a direita do DEM, a possibilidade de compor um novo bloco de coalizão, papel desempenhado pelo DEM com FHC e MDB com Lula.
  • Identificação dos inimigos externos, de forma alinhada com a opinião pública de esquerda e centro: a quadrilha Michel Temer, o MDB e Bolsonaro.
  • Recuperação de propostas desenvolvimentistas e interrupção da destruição empreendida por Temer.
  • Apropriação do discurso anticorrupção, tentando uma vacina contra o antipetismo. Mas, com isso, criando resistência junto à militância do partido, que Lula tenta diluir.
  • Um discurso articulado. Ciro tem na ponta da língua o manual dos bons princípios da social-democracia, assim como Fernando Haddad. A diferença é que, até agora, Haddad tem evitado se expor.
  • Cada vez mais tenta se apresentar como o anti-Bolsonaro, usando a retórica virulenta do seu opositor. É uma briga de machos-alpha, claramente definida para arrostar Bolsonaro no seu único terreno: a truculência.
  • A fala impositiva, autoritária até, em um momento em que parte relevante da opinião pública clama por um mínimo de disciplina institucional, só possível com a recuperação do protagonismo pelo Executivo.

Ao contrário do que muitos podem imaginar, Ciro não está disputando o espaço político com Lula, mas com Geraldo Alckmin. O espaço em questão consiste em juntar setores mais liberais, assustados com a hipótese Bolsonaro, os órfãos do velho PSDB; e, na hipótese de um segundo turno com Bolsonaro ou Alckmin, o apoio das esquerdas.

A provável frente que se desenha na cabeça de Ciro, caso sua candidatura decole, ficará mais ou menos assim:

  1. Apoio dos governadores nordestinos, que temem a demora na definição do lulismo.
  2. Possível adesão de parcelas relevantes do PSDB, órfãos de uma liderança forte, depois do esvaziamento da banda barra-pesada – Serra-Aécio-Marconi-Richa.
  3. Aproximação com o clube dos bilionários e com os grandes grupos paulistas que sabem o desastre que seria Bolsonaro, e não tem confiança no fôlego e na competência de Alckmin.
  4. Com o discurso anticorrupção, aproximação com o Partido do Judiciário, que será crucial em dois momentos: para garantir votos da parte punitiva do eleitorado; e como aliados na guerra mortal contra o MDB.
  5. Montagem de um novo bloco de coalizão, com o DEM e outros partidos menores fornecendo a base de apoio, mas com uma incógnita sobre com quem dividirá a governabilidade: se com o PT ou um bloco mais alinhado com o PSDB.

Analistas respeitáveis sustentam que, a exemplo de outras eleições, na reta final do primeiro turno vencerão os candidatos que tiverem atrás de si mais estrutura partidária. Ou seja, haveria a reedição da disputa PSDB, com Alckmin, e PT, com o candidato indicado por Lula.

Mas será que os tempos atuais repetem as mesmas características de outras eleições? Têm-se o PT e o PSDB baleados junto a parcelas da opinião pública; novas formas de mobilização com as redes sociais, e um eleitorado consolidado de Bolsonaro. A rigor, há duas únicas forças se movimentando: o lulismo e o antilulismo.

Peça 3 – os fatores de instabilidade

Além disso, há um conjunto de fatores aleatórios no ar. Têm-se um quadro de caos, um cenário aberto para novas tentativas de instabilização.

Graças à Globo e ao Supremo Tribunal Federal (STF) o país experimenta a situação esdrúxula, de estar sendo governado por um presidente que será preso, assim que deixar o cargo, mas com plena liberdade até lá para continuar montando negócios.

Do lado do grupo de Temer, a contagem regressiva para a prisão induzirá a novas tentativas de endurecimento político. Até agora, duas delas foram tiro n’água graças à baixíssima credibilidade do grupo: a intervenção militar no Rio de Janeiro e a tentativa de militarização na greve dos caminhoneiros.

Mesmo assim, se tem no STF uma presidente inconfiável, como ficou claro no episódio de desengavetamento do julgamento do parlamentarismo. Logo depois, Carmen Lúcia o tirou novamente de pauta. Imaginou-se que tivesse recuado devido às críticas recebidas, mas foi apenas porque o propositor da ação, deputado Arlindo Chinaglia, a retirou.

Continua pendente no ar a possibilidade de um novo golpe jurídico-midiático, mesmo porque o STF está dominado pela politização, com os Ministros Luís Roberto Barroso, Edson Fachin, Luiz Fux, Alexandre Morais, Rosa Weber e Carmen Lúcia atuando com despudor, e o antipetismo explícito condicionando a atuação dos garantistas Celso de Mello e Gilmar Mendes.

De qualquer modo, o fator Temer promoveu um desgaste também no coração do impeachment – a própria mídia.

Ao contrário de outros tempos, as tentativas de desenhar cenários esbarra em fatores de imprevisibilidade inéditos. Ninguém pode ter certeza de nada.

 

189 comentários

  1. A eleição, se ocorrer, será

    A eleição, se ocorrer, será uma farsa.

    Quem dá golpe não torra bilhões para entregar a paçoca 2 anos e meio depois.

    Ponto final.

  2. Confesso que cheguei a

    Confesso que cheguei a cogitar a possibilidade de voto em Ciro Gomes.

    Avaliando melhor o andar da carruagem, princpalmente com Benjamin Steinbruch podendo ser vice, o DEM como base de sustentação e a Lava Jato dando às cartas nos bastidores, pulei fora imediatamente.

    Não existe a menor possibilidade, pelo menos para mim, de votar em um candidato cujo o vice seja da FIESP e o DEM esteja no arco de alinaças para a eleição. 

    Ciro não esteve presente para dar apoio ao Lula por ocasião da sua injusta prisão. Também não condenou a Lava Jato como instrumento de perseguição política. Trabalhou para Benjamin Steinbruch, da FIESP e apoiador do golpe e da reforma trabalhista. O fato de estar alinhado ao pensamento estratégico de Mangabeira Unger, ex-Ministro de Lula e Dilma e Professor de Harvard, não chega a ser impedidtivo, em minha opinião, até pelo fato de Lula e Dilma também terem se valido de Unger. 

    Com o vice-presidente tendo assumido como Presidente em diversas ocasiões depois de 1954 (Café Filho, João Goulart, José Sarney, Itamar Franco e Michel Temer), nunca que eu arriscaria a votar em um candidato tendo um golpista da FIESP como vice.  

    Já firmei opinião: é Lula, ou se Lula for impedido quem ele indicar (nesse caso, acho o PT indicaria o Haddad). O resto é mercearia. 

    Se uma tragédia se abater sobre o país e dois candidatos de direita forem para o segundo turno, e isso inclui o Ciro, anulo o meu voto.

     

     

     

     

  3. A arte de se posicionar.

    Em abril de 1984, quando foi derrotada a emenda Dante de Oliveira (diretas já), muitos caíram de pau no Tarso de Castro porque ele passou a apoiar Tancredo Neves via colégio eleitoral. Em suas colunas na Folha, Tarso era um dos mais ardorosos defensores das diretas e só mudou de posição quando achou que era inevitável. Outros continuavam acreditando nas diretas via emenda Theodoro Mendes ou outros caminhos pouco prováveis. O resultado sabemos. Nesses casos posicionar-se não é óbvio e a experiência conta mais que o ímpeto.

    Nassif enfrenta situação parecida e, salvo engano, acompanhou de perto o acontecido com Tarso.

     

    • Em todo caso não houve

      Em todo caso não houve desistência antes da queda da emenda Dante de Oliveira …

  4. O lulismo e o antilulismo

    “A rigor, há duas únicas forças se movimentando: o lulismo e o antilulismo.”

    Essa é a verdade. Entretanto, como Ciro Gomes busca se amparar nos votos do antilulismo, fica cada vez mais difícil uma aliança com o PT, especialmente para o primeiro turno.

    Por isso, a estratégia do Lula/PT é corretíssima. Somente se sobrevierem fatos muito extraordinários, o candidato do PT (Lula ou um indicado) ficará de fora do segundo turno.

    No segundo turno, as alianças podem variar, a depender do concorrente. No entanto, é bem provável, por exemplo, que Ciro Gomes e quem o apoiar (se ele não se tonar o candidato do golpe, coligando-se com DEM e PP) ficará do lado do PT.

    De outra parte, o MDB dificilmente terá candidato próprio. Como disse sabiamente Cid Gomes em uma entrevista com PHA, o MDB não é uma partido, mas uma frente. E, como tal, caminha para ficar em cima do muro e deixar seus filiados livres para apoiar quem quiser ou não apoiar ninguém. Essa é a natureza desse “partido”.

    Nesse sentido, setores minoritários do MDB (Requião, Renan, Eunício etc.) apoiariam Lula ou seu indicado, desde o primeiro turno. Já a ala dominante do MDB, Temer e Cia., provavelmente não será aceita por nenhum presidenciável, por motivos óbvios.

    O PSDB, o partido que fazia o papel de agultinador das forças direitistas nas útlimas eleições, tornou-se uma agremiação irrelevante. Sua única salvação seria se apoiar, de forma discreta, por trás de alguma candidadura das já postas: Marina, Ciro ou, até, Álvaro Dias, um ex-tucano.

    Como se vê, o cenário é bem confuso. Entretanto, se deixarem Lula concorrer, sua astúcia afortunada brilhará à luz do sol e fará a diferença, como bem disse o professor Aldo Fornazieri, em outro post aqui mesmo no GGN.

     

  5. HÁ QUE SE TER CUIDADO

     Deixar para ultima hora Lula desistir da candidatura para colocar o plano B pode ser indeferido este candidato, já aconteceu em Paulinia onde o candidato muito conhecido como Edson Moura sabedor de problemas com a Justiça a frente colocou seu filho no ultimo momento Moura Junior e venceu a eleição mas logo foi cassada sua candidatura por levar o eleitor a acreditar que estava votando no pai, não deu tempo habil para o eleitor saber do novo candidato, foi cassado e não voltou mais, entrou o segundo colocado, não se pode dar margem para a Nazijustiça cassar o PT.A qualidade de Ciro e não ter ploblemas com a Justiça e estar sempre do lado do trabalhador, votaria nele mas meu preferido é Lindhberg.

  6. Chato isso
    Esse reducionismo binário da cabeça do eleitor sobre sua analise politica, com lula e sem lula, não me faz não querer voltar a essa página.

    Os petistas serão culpados por mais essa tragédia que será Bolsonaro ou Alckmin no poder. Afinal, Michel temer e sua quadrilha no centro de poder é o resultado do projeto de poder único petista em detrimento da esquerda brasileira.

    PT e lula nao sao vitimas. Nunca foram e estamos pagando pelas escolhas fáceis e egoístas dessa cúpula inconsequente

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