Xadrez de um período obscurantista que se espera breve

Tem-se o seguinte jogo na mesa:

Peça 1 – Um presidente interino, prestes a assumir o poder, com escassa legitimidade, dentro de um caso clássico de golpe parlamentar.

Peça 2 – uma guerra política prévia que dividiu o país ao meio espalhando o ódio.

Peça 3 – um aglomerado de forças dispersas, divididas entre vários núcleos de micro poder, prestes a tomar a cidadela adversária, sem obedecer a um comando central.

Peça 4 – Os últimos episódios parlamentares, tanto a votação da Câmara quanto o contraste chocante no Senado, entre propositores do impeachment e seus críticos, entre os argumentos de Janaína Cabral e José Eduardo Cardozo. Para qualquer pessoa dotada do mínimo de discernimento, não há mais dúvidas quanto à natureza do golpe, deslegitimando ainda mais o novo bloco de poder.

Juntando as quatro peças não se tenha dúvida de que nos primeiros tempos do novo governo haverá uma verdadeira Noite de São Bartolomeu política.

Será um período de intensa repressão, de ajuste de contas, até que haja uma relativa unificação do poder de Estado e uma reação das vozes democráticas contra os abusos. Não será uma repressão centralizada, de Estado, mas uma vendetta generalizada em todos os setores onde houve disputa política e resistência ao golpe.

Será um período rico para análises de caráteres e de condutas. Os mais velhos verão muitos pontos similares com o período militar, com delações, acertos de contas, tentativas de expurgo, ações políticas contra os recalcitrantes. Muitos estranharão o comportamento de conhecidos, endossando arbitrariedades, expelindo ódio pelas ventas, contribuindo com delações, insuflando a vingança. Faz parte desses momentos excepcionais, em que a barbárie toma conta de um país e engolfa as instituições, trazendo à tona o que de pior existe na sociedade.

Nos últimos dias houve um pequeno ensaio do jogo.

·      O indiciamento do advogado Augusto Botelho, acusado de conspirar contra a Lava Jato, por ter divulgado postagens no Facebook de delegados da Lava Jato em campanha pro-Aécio. Segundo a denúncia, ele teria “conspirado” contra o Superintendente da Polícia Federal em Curitiba.

·      A juíza de Belo Horizonte que proibiu reunião do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) para manifestar discordância do processo de impeachment.

·      As sucessivas ameaças de senadores a quem pronunciasse a palavra “golpe” na reunião da comissão do impeachment.

Os próximos capítulos já estão delineados.

No Judiciário, representações contra juízes que ousaram sair em defesa da democracia. Já existem pelo menos quatro casos no Rio de Janeiro.

No Ministério Público, representações contra procuradores que se posicionaram a favor da democracia. Vários casos em Brasília.

A Lava Jato prepara duas operações simultâneas: uma contra advogados das partes; outra contra jornalistas e blogueiros críticos.

E aí, o quadro político ficará exposto a um paradoxo curioso.

As arbitrariedades generalizadas são frutos da falência ampla do regramento político e jurídico, dos instrumentos institucionais e das regras sociais que regem as sociedades civilizadas, incluindo as normas que garantem direitos individuais.

É como se o golpe rompesse os fios que unem a Presidência da República, o STF (Supremo Tribunal Federal), os tribunais superiores, ao cidadão comum, toda a edificação que garante a convivência civilizada de pensamentos opostos.

O país está, de fato, ingressando no mais virulento faroeste, regredindo aos idos dos anos 60.

Em circunstâncias normais, caberia ao provável novo presidente Michel Temer organizar o estatuto da gafieira em que se converterá o país após o golpe. Mas, como, com a parca legitimidade e as ameaças que pairam sobre ele?

Sabe-se como os golpes começam; não se sabe como terminam.

E aí Temer terá um de seus grandes dilemas. Se estimular a guerra, ou mesmo se não conseguir evita-la, terminará na fogueira, com o país envolto em uma pré-guerra civil.

Sua única saída será propor alguma forma de pacto. Mas como ser bem-sucedido se assume o poder de forma ilegítima? E quem serão os interlocutores, com a Procuradoria Geral da República buscando a todo custo a criminalização de Lula e Dilma, além de manter em suspenso os indiciamentos de Temer e Renan?

Os próximos meses exigirão um enorme exercício de boa-vontade – que, por sinal, é a matéria prima mais escassa no mercado da opinião pública. Será um período obscurantista, mas passageiro, a não ser que se aposte na volta do país à República Velha. Enquanto durar, doerá.

203 comentários

  1. A cereja do golpe-bolo…….

    A cereja do golpe-bolo é a instalação do parlamentarismo-presidencialista à brasileira (nossa jabuticaba), já para 2018. De um golpe só, vão retirar do povo – com o aval do acovardado STF – o direito de eleger seu presidente. Ficaremos a mercê de Cunhas, Felicianos, Bolsonaros, Jovaires, Caiados, Cunhas Lima, Perrelas, e outros picarestas da política brasileira. Sob o comando do PSDB e do DEM , é claro!

  2.  Cirley BorbaA um passo de
     

    Cirley Borba

    A um passo de assumir o governo pela porta dos fundos, Michel Temer parece assustado com a possibilidade de ser afastado da sonhada (e imerecida) presidência por uma campanha por eleições diretas.

    Explica-se: uma pesquisa feita pelo Ibope mostrou que apenas 8% da população aprova que Temer substitua Dilma Rousseff como presidente, enquanto 62% dos entrevistados desejam novas eleições. Cerca de 25% apoiam a permanência de Dilma no governo.

    Temer não tem legitimidade política … click em

    Continuar lendoNão contem com o Supremo.A defesa da democracia brasileira terá de ser feita por seus cidadãos e cidadãs. Os 11 do STF têm outra agendaBRASILEIROS.COM.BR  

     

  3. Um dos homens da Band que

    Um dos homens da Band que está a entrvistar FHC a dada altura referiu-se a José Serra como “o nosso Serra”.

    Patético!

  4. Manifestações, sim! Violência, não!

    Manifestações, sim, por todos os meios. Na rua; pelos blogs progressistas; por WhatsApp (por sinal está proibido, interessante, não?). Jango fez bem ao não reagir com as forças militares fiéis. E nos lembremo do entusiasmado Presidente da Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil, Cabo Anselmo na comemoração de 25 de março ( Assembléia pelos 2 anos de fundação da AMFNB). Creio que, muito provavelmente, grupos da luta armada tiveram infiltrados.

    • Cabo Anselmo.

      Talvez voce não saiba mas o Cabo Anselmo foi informante dos militares. E assim como no Chile, muito do que contribuiu para o golpe foi pre-fabricado pelos inimigos da democracia, os golpistas.

  5. Cerimônia da Tocha Olímpica
    Está chegando o momento.

    No olhar de Dilma, hoje pela manhã, a despedida.

    A força que poderia deter o desfecho não se apresentou na plenitude e contundência necessárias para barrar a Besta. Não há manifesto inequívoco por sua permanência – ressalve-se os valorosos senadores – nem mesmo dentre seus pares.

    Há dentre os que deveriam defendê-la os portadores dos senões – mas, porém, contudo, todavia…

    A despedida, acho, é mais para estes. Do adversário – aqui inimigos – nada a esperar. Mas dos aliados, o que não chega, fere.

    Trazer à tona nossa indignação é catártico, salutar, terapêutico. Mas não altera o fato.

    Dilma está se despedindo; quer renuncie ou não.

  6. O disco quebrado

    Aqueles que são mais novos, provavelmente não se lembrem, mas houve um tempo em que se escutava discos.
    Isto muito antes do MP3, bem antes do CD, antes do Cassete. Na epoca dos discos, uma vez arranhado, o disco nunca mais tocava corretamente. Não existia como consertar.  Um disco arranhado ficava para sempre arranhado.
    E a pior coisa que podia acontecer era uma arranhão que não deixava a musica ir para frente. O disco tocava por alguns segundos e bem no arranhão ele voltava alguns segundos para tras. Fazendo com que se tivesse a impressão de que desta vez a musica seguiria em frente, mas quando chegava no arranhão , bam, voltava para tras uma vez mais…algumas vezes, porque o toca-discos era uma péça analogica e dependia de força fisica para tocar, o arranhão jogava a agulha para tras fazendo com que a musica retrocedesse mais do que o normal. E desta forma a sensação de esquecimento do arranhão era temporaria, mas ele estava la. E justamente naquele momento X, o arranhão não deixava a musica ir em frente.
    E as vezes me parece isso que o Brasil é um toca-discos com um disco quebrado.
    E este disco quebrado é a elite Brasileira que se manifesta na forma de uma direita desonesta, corrupta e maquiavelica.
    Se pode ter um periodo de tranquilidade, se pode ter um periodo de estabilidade economica, mas isto tudo é temporario pois o arranhão esta la, esperando. 
    Em 1888, quando finalmente se deu a tão esperada abolição da escravatura, o que se esperava era que isto traria estabilidade ao pais. Mas o “arranhão” pensava diferente, e com um golpe derrubou a monarquia, e com outro derrubou os propios proclamadores da republica.
    E o arranhão seguiu, a cada vez que se achava que haveria um progresso social, que é a base do progresso economico, e não vice versa, o”arranhão” trazia a realidade a tona e a musica voltava para tras. 1930, 1937, 1954, 1964 e por ai vai. Sempre que se criou a ilusão de que desta vez poderiamos sonhar em ver o fim da musica, ou quem sabe até em poder conhecer qual seria a faixa seguinte do disco, “o arranhão”, apareceu e fez tudo voltar atras.
    O Brasil de 2016, o Brasil das tão sonhadas olimpiadas, este cartão de visitas ao mundo desenvolvido, foi pego de surpresa, pelo “arranhão”. Quando se pensava que as Olimpiadas iriam trazer não so boa publicidade mas tambem mostrar a pujança e a criatividade do pais, “o arranhão”, fez tudo voltar atras.
    O Brasil é como este disco quebrado, vitima de um arranhão, e que tem a sua musica, ou melhor a sua democracia interrompida, para não dizer estrupada por uma elite que não esta interessada em que o pais progresse ou evolua.
    O arranhão não tem relação nenhuma com o disco, nem com o toca-discos e muito menos com a agulha.  O arranhão não é uma coisa natural, ele é na verdade uma aberração. Ele é o que faz com que todo o processo se interrompa.
    E com isso o pais segue neste eterno “arranhão”, nunca evolui socialmente, nunca evolui democraticamente e o que é pior faz com que muitos achem é normal ter a sua musica preferida interrompida bruscamente por um “arranhão” que hoje tem o codinome de impeachment.

     

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