Xadrez do jogo político dos fake news, por Luis Nassif

A história do fake news que dobrou o Facebook para que instituísse a censura política em suas páginas. E as ligações desse episódio com as eleições brasileiras de 2018, capítulo importante e até agora não revelado das disputas políticas globais.

O fenômeno das agências de checagem é um capítulo a mais na disputa que se trava hoje, em torno da globalização versus projetos nacionais.

Peça 1 – a desorganização do mercado de opinião

Havia um modelo de mídia instalado, com os grupos tradicionais disciplinando o mercado de opinião, sistematizando uma opinião pública já incluída e invisibilizando vozes dissonantes.

A Internet e as redes sociais implodiram esse modelo, abrindo possibilidades infinitas de organização social e de vocalização de demandas, desde causas humanitárias a discursos de ódio.

A expansão das redes sociais, com seus impactos na desorganização do mercado de opinião, também cria instabilidades na democracia convencional. Surgem ativistas digitais, mudando completamente as formas de interação do público com a notícia.

Mas, principalmente, emergem as duas mídias mais poderosas da história, Facebook e Google, com  estratégias de negócio fundadas na democratização e universalização do acesso.

Esse é o preâmbulo para nossa história, que tem como personagem central o Atlantic Council, um dos mais influentes think tanks norte-americanos, nosso velho conhecido, por suas ligações com a Lava Jato.

Peça 2 – o Atlantic Council

Três fenômenos vieram alterar profundamente a geopolítica internacional:

  1. O fenômeno das redes sociais.
  2. O fracasso do modelo neoliberal como alternativa eleitoral a partir de 2008. A disputa sai do âmbito dos estados para o campo internacional, trabalho facilitado pela integração proporcionada pela telemática e pelas redes sociais e pela proliferação de bilionários ativistas.
  3. As legislações internacionais se sobrepondo às nacionais, inicialmente para propósitos humanistas (punição dos chamados crimes contra a humanidade), derivando depois para o combate à corrupção, que joga no caldeirão dos EUA todo crime em que circularam dólares.

Esse desenho abre espaço para think tanks, que se tornam o grande espaço de promoção de novas alianças, de articulação entre grandes capitais, funcionários públicos e sistemas de poder de outros países.

Clicando aqui, você vai a uma reportagem do The New York Times sobre o uso abusivo pelos think tanks de um falso conhecimento técnico para impor aos governos decisões de interesse de seus contratantes. E um trecho especial sobre as jogadas do Atlantic Council.

Assim que explodiu a Lava Jato, o Atlantic Council se tornou uma das vitrines de juízes e procuradores junto ao público corporativo norte-americano, exibindo-os como troféus. Nomeou o ex-Procurador Geral da República Rodrigo Janot como conselheiro, em um caso clássico de fake reputation,  e promoveu encontros com membros do Departamento de Justiça, no qual um deles, Kenneth Blanco, narrou a maneira como o DoJ (o Departamento de Justiça) articulou-se informalmente com o grupo de Curitiba para preparar a Lava Jato.

No post “Xadrez de como os EUA e a Lava Jato desmontaram o Brasil”, há mais detalhes dessa combinação.

A estratégia comercial do Atlantic Council se baseou nos estudos do guru Harlam Ulmann, relevantes para entender a tentativa recente de impor censura política nas redes sociais.

O ideólogo Harlam Ulmann

Resultado de imagem para Harlan Ullman

Harlam Ulmann é um cientista político que mudou o conceito de segurança nacional nos Estados Unidos com seu “Shock and Awe Doctrine”.

Confira seu pensamento:

  • A revolução da informação e das comunicações globais instantâneas estão frustrando a nova ordem mundial” 
  • Apenas um outro cataclismo como o 11/9 permitirá que o estado possa reafirmar o seu domínio e a eliminação de agentes não estatais e indivíduos capacitados, a fim de preservar a nova ordem mundial.
  • A definição de uma “nova ordem mundial” deve ser a de uma tecnocracia mundial gerida por uma fusão do grande governo e o grande negócio em que a individualidade seja substituída por uma singularidade trans-humanista.
  • Não são as superpotências militares, como a China, mas “atores não estatais”, como Edward Snowden, Bradley Manning e hackers anônimos, que representam a maior ameaça para o Westphalian System, porque eles estão incentivando as pessoas a se tornarem autocapacitadas e eviscerar o controle do Estado.

Com base nos estudos de Ulmann,  o principal produto que o Atlantic Council passou a vender foi a grande batalha da globalização através das redes sociais.

Mas como impedir o acesso à rede daqueles que o Atlantic Council denomina de “atores malignos”, disputando a narrativa com o sistema, confrontando a ideologia da globalização? Como domar as redes sociais, se a universalização do acesso está no cerne do seu modelo de negócio? 

A maneira como o Atlantic Council conseguiu dobrar o gigante Facebook é um caso que ainda será contado, um dia, como um clássico do uso dos fake news, o 11 de novembro das redes sociais, preconizado pelo guru Ullman.

Peça 3 – a fake news que dobrou o Facebook

No dia 24 de novembro de 2016, The Washington Post publicou uma reportagem de capa sobre a interferência russa na eleição de Donald Trump. Essa reportagem deflagrou a campanha mundial contra o fake news, apontado a partir de então, com evidente exagero, como a maior ameaça à democracia. E, provavelmente, foi o maior fake news das últimas décadas.

A reportagem se baseava em um site obscuro, o PropOrNot, cujos autores eram anônimos. O grupo divulgou um relatório de 32 páginas detalhando a metodologia, e delatando cerca de duzentos meios de comunicação suspeitos de publicar propaganda russa para torpedear a campanha de Hillary Clinton. E justificava o anonimato pelo receio de ser atacado pelos hackers russos.

Ao melhor estilo “Guerra dos Mundos”, o site apregoava:

Uma campanha de informação em grande escala está enganosamente injetando propaganda russa no discurso público americano on-line. Ele opera tanto à esquerda quanto à direita, gerando milhares de artigos de notícias, memes, tweets e vídeos falsos (…) É vital que esse esforço seja exposto pelo que é: uma tentativa coordenada de enganar os cidadãos dos EUA para que atuem no interesse da Rússia.

O espaço dado pelo Washington Post mereceu críticas generalizadas do jornalismo sério do país. Andrew Cockburn, editor da Harper’s, classificou a reportagem como um “lixo lastimável”. Colunistas do The Intercept , Fortune e Rolling Stone também despejaram, críticas sobre o jornal.

Adrian Chen, do respeitado The New Yorker, informou que havia sido contatado pela organização mas não embarcou na história.

 “Um olhar mais atento no relatório mostrou que estava uma bagunça. “Para ser honesto, parece uma tentativa muito amadora”, disse-me Eliot Higgins, um pesquisador respeitado que investigou notícias falsas da Rússia em seu site, Bellingcat, durante anos. “Eu acho que nunca deveria ter sido publicado em qualquer site de notícias de qualquer nota.”

O Washington Post foi obrigado a se retratar. Na cabeça de reportagem online publicou numa Nota do Editor dizendo não garantir a validade das conclusões do PorpOrNot. Nem tinha condições de avaliar se a campanha russa havia sido decisiva para eleger Trump.

Criou-se o mistério: quem estaria por trás das notícias superdimensionadas sobre a invasão russa?

Dois pesquisadores independentes buscaram a resposta através de caminhos distintos.

Um deles se valeu de análise linguística. Concluiu que o autor anônimo era Michael Weiss, editor sênior do The Daily Beast , colunista de Política Externa e colaborador frequente em segurança nacional da CNN . Ele também é editor-chefe do The Interpreter , membro sênior não-residente do Atlantic Council e co-presidente do Russia Studies Center da Henry Jackson Society.

Outro pesquisador se valeu de uma ferramenta de teste, que permite a varredura de vulnerabilidades em sites.  Mostrou que o painel de administração pertencia a www.interpretermag.com,  site financiado pelo Atlantic Council.

Mesmo com todos os ingredientes de uma notícia falsa, plantada, o fake news ganhou vida e levou a uma campanha mundial contra os poderes do Facebook.

A empresa já estava vulnerável. O fake news sobre a Rússia foi o empurrão final para deixa-la de joelhos. Mark Zuckerberger jogou a toalha e procurou o seu verdugo, o próprio Atlantic Council, contratando-o para um trabalho de assessoria.

Segundo a Fortune,

“O Facebook não forneceu muitos detalhes sobre como o Atlantic Council ajudaria a identificar possíveis desinformações, apenas para que a equipe forense cibernética do think tank trabalhasse com a equipe do Facebook para fornecer “insights e atualizações em tempo real sobre as ameaças emergentes”.

O Facebook queria uma trégua para poder respirar, tal o tiroteio que se viu envolvido. Permanece o gigante, mas a inexperiência política de Zuckerberger obrigou-o a um movimento de recuo, ante raposas experientes da política norte-americana.

E o Atlantic Council já tinha pronta, há tempos, sua receita.

Peça 4 – a receita para o controle da rede

No dia 26 de julho de 2017, o site do Atlantic Council publicou um artigo explicando como deveria ser o critério para Google e Facebook impedirem notícias falsas.

 “As leis de mídia existentes já estão sendo usadas por pessoas no poder para silenciar seus oponentes, e o termo “notícias falsas” foi rapidamente adotado por políticos com o objetivo de desacreditar a mídia. É muito fácil imaginar um governo usando o discurso falso da notícia falsa / discurso do ódio para censurar pontos de vista inconvenientes”.

E defendia que não poderia se dar a ambos o direito de censurar.

“Obrigações de remoção de conteúdos ilegais devem estar sujeitas a uma supervisão judicial adequada ou a de transparência e de comunicação”.

O caminho, segundo o Atlantic Council, seria estabelecer “parcerias com organizações de checagem de fatos, reprimindo propagandas de sites não confiáveis, modificando seus algoritmos”. Nas apenas isso, mas essas organizações “lançando seus próprios projetos de suporte de mídia”. Espalha-se, aí, o fenômeno das agências de checagem.

Mas quem seriam essas organizações aliadas?

Peça 5 – o clube dos bilionários

O destino manifesto sempre induziu bilionários norte-americanos a cruzadas de salvação moral contra os ímpios do hemisfério sul. Esse tipo continuou florescendo nos Estados Unidos, como demonstram os texanos irmãos Koch, prováveis financiadores de movimentos de ultradireita na América Latina.

Mas, ao mesmo tempo, surgiu outra geração de bilionários mais instruídos, muitos aparecendo com o boom da Internet, procurando exercer o soft power do setor, como o próprio Bill Gates e sua fundação para combater a miséria na África.

/var/folders/hy/dl8cpd596lx8m5wsqntm05c40000gp/T/com.microsoft.Word/Content.MSO/28607309.tmpÉ o caso de George Soros e seu Open Society.

Segundo artigo publicado em seu site no dia 1º de fevereiro de 2018:

“Na última década, à medida que a confiança nas instituições diminuiu em todo o mundo, a política em muitos países aparentemente se transformou em uma disputa que colocou “elites” egoístas contra todo mundo. E como a convicção de que as “elites” não representam os interesses do “povo” tornou-se cada vez mais comum, dois caminhos alternativos à frente também se tornaram ascendentes. Um caminho está enraizado no populismo e representado pela construção de paredes, tanto literais quanto figurativas. O outro é inclusivo e baseado em colaboração e confiança’.

Através do Instituto Update, o Open Society passa a mapear todas as iniciativas sociais que florescem nas redes sociais, visando criar uma sociedade global, com troca de experiências e defesa de valores humanitários – mas estritamente individuais. E, especialmente, como alternativa às “elites egoístas”, que são justamente as que comandam os Estados nacionais. E por “povo” não se entendam os movimentos sociais nacionais, mas a nova geração de influenciadores que nasce com a Internet.

Com Soros, se alinham vários bilionários bancando sites jornalísticos, alguns de boa qualidade e considerados de esquerda.

Porque um bilionário capitalista financiaria grupos de direitos humanos, muitos deles identificados com a esquerda? A resposta é algo óbvia, já foi bastante discutida no GGN, e foi bem explicada por Alan Ghani, Doutor em Finanças pela FEA-USP:

“Basicamente, porque muitos movimentos de esquerda não são necessariamente contra o capitalismo de George Soros, mas contra valores e princípios conservadores, base da civilização ocidental, que representam obviamente uma resistência aos anseios globalistas de Soros e outros grandes capitalistas – tema muito discutido em outros países e totalmente obscuro no Brasil”.

Essa é a distinção básica, que vai explicar o papel das agências de checagem no Brasil e seu foco no jornalismo independente crítico da Ponte para o Futuro e dos grandes negócios em andamento com as estatais.

Peça 6 – as eleições de 2018

Tem-se, então, o seguinte desenho:

  1. Na qualidade de consultor do Facebook, o Atlantic Council dispondo da capacidade de indicar os tais representantes da sociedade civil para exerceram o filtro na rede.
  2. Como aliados, bilionários dispostos a lançar seus próprios projetos de financiamento de mídia, conforme a recomendação descrita na Peça 4, e sendo os representantes da sociedade civil na filtragem de informações do Facebook.

Mas qual o objetivo imediato desse movimento? Apenas combater o discurso de ódio? Ou usá-lo como álibi para coibir a opinião dos tais “agentes malignos” antiglobalização?

Nos diversos estudos disponíveis no site do Atlantic Council se percebe uma grande prioridade: a enorme preocupação com as eleições de 2018, especialmente no Brasil, Colômbia e México e o papel das disputas nas redes sociais.

Um artigo deste ano, publicado no seu portal, exemplifica bem essas preocupações:

Os atores malignos

“Na América Latina, região que assistirá a três importantes eleições em 2018, o conceito de notícias falsas tornou-se uma preocupação significativa tanto para formuladores de políticas quanto para grupos da sociedade civil. 

Antes das eleições no Brasil, Colômbia e México, as falsas narrativas espalhadas nas notícias e nas mídias sociais são agora construídas para dois propósitos: 1) disseminar mentiras e 2) criar incerteza ou suspeita profunda.
 

(…) Como foi visto na preparação para as eleições europeias, essas narrativas são projetadas por atores malignos para influenciar o resultado de uma eleição, de modo a costurar discórdia e prejudicar a fé na democracia.  

(…) No Brasil, vídeos falsos, contas de mídias sociais, imagens, artigos e infográficos começaram a influenciar as principais mídias e conversas públicas. 
 

(…) As narrativas não são neutras, mas projetadas para influenciar a opinião dos leitores. Quando atores malignos empregam narrativas falsas destinadas a mudar a opinião pública e interferir nos processos eleitorais, a democracia sofre como resultado. 

(…) No Brasil, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece estar pronto para um retorno nas eleições de outubro (…)Uma vitória de Lula ou Bolsonaro pode ser disruptiva, potencialmente descarrilando a frágil recuperação econômica do Brasil.  

Peça 7 – as agências de checagem

Acertado o novo modelo de filtragem de informações pelo Facebook, imediatamente começaram a brotar agências de checagem de notícias que, mal saíam do berço, já eram convocadas para o trabalho de filtragem das informações da rede, indicadas pelo próprio Atlantic Council.

No Brasil, três iniciativas se destacaram:

  1. A Open Society, de Soros, que tem como articulador  Pedro Abramovay, advogado que chegou a trabalhar no Ministério da Justiça na gestão Márcio Thomaz Bastos. Provavelmente partiu dele a indicação para que a Publica topasse assumir a Agência Truco, que significou um custo adicional em sua estrutura. A Open Society é uma das financiadoras permanentes da Publica – que, aliás, pratica um jornalismo investigativo de primeira.
  2. A revista Piauí, de João Moreira Salles, outro belo veículo jornalístico, ele, dono de uma biografia até agora respeitável, abriu a Agência Lupa.
  3. O Projeto Credibilidade, montado na UNESP, que se se alinha com o The Trust Project, de uma universidade localizada no Vale do Silício, todos de olho na possibilidade de serem o Santo Ofício do Facebook.

Peça 8 – os indícios da censura política

Há uma série de indícios de que as agências de checagem brasileiras podem ter se submetido à estratégia do Atlantic Council, de calar as vozes antiglobalização.

Para tanto, retornemos à explicação contida na Peça 5: mesmo blogs de esquerda serão apoiados, desde que não façam a crítica aos princípios globalistas defendidos pelo clube dos bilionários, ou, por tabela, a denúncia dos grandes negócios que estão sendo perpetrados à sombra da tal Ponte para o Futuro.

Indício 1 – o mapeamento das iniciativas digitais.

A exemplo do Instituto Update, do Open Society, provavelmente por inspiração de Abramovay, a Publica procedeu a um levantamento das principais iniciativas de jornalismo e ativismo digital no Brasil. Os critérios de seleção eram:

  1. Organizações que produzem primordialmente conteúdo jornalístico;
  2. Organizações que nasceram na rede;
  3. Projetos coletivos, que não se resumem a blogs;
  4. Sites não ligados a grandes grupos de mídia, políticos, organizações ou empresas.

Foram selecionadas cem iniciativas, algumas conhecidas, outras praticamente de gueto. Entraram Midia Livre, Jornalistas livres, Marco Zero, Congresso em Foco, Nexo, Acurácia, ESTOPIM, Escotilha, Papo Reto, Jornal Comunitário da Vila Prudente, Farofa-fa, Rede de Informações Anarquista. Não entrou nenhum dos sites jornalísticas que fazem o contra discurso à mídia convencional e a crítica à globalização.

Indício 2 – o estudo da Publica para Veja

Com patrocínio da Ambev – controlada por Jorge Paulo Lehmann -, Veja montou um seminário sobre fake news. Saliente-se que Lehmann é um dos controladores do 3G, o grupo que está articulando a privatização da Eletrobras. As únicas resistências a essa jogada partem dos blogs jornalísticos independentes.

A base do seminário foi um trabalho produzido por Pablo Ortollado, um acadêmico esperto e ambicioso, junto com a Publica. Nele, mapeava três grupos de influenciadores digitais: à direita, um conjunto de blogs claramente fakes (sem identificação de responsáveis e especializados unicamente em notícias falsas); no centro virtuoso, os grupos de mídia; à esquerda, os blogs jornalísticos que fazem o contraponto ao jogo político da Ponte, incluindo o próprio GGN.

Qual a razão de terem apresentados blogs jornalísticos identificados com teses de esquerda aos blogs fakes de direita? A explicação da Publica é que os fakes de esquerda tinham pouca audiência. Ora, se o critério era de relevância, qual a razão para os blogs jornalísticos terem sido excluídos do tal Mapa montado pela Publica? E qual o motivo de não terem incluído blogs de direita? Explicação: audiência insuficiente, o que não é verdade.

Indício 3 – a censura da Agência Lupa

Montou estratégia similar. Primeiro, a denúncia de notícias fake produzidas pelo MBL e congêneres. Depois, o ataque aos blogs jornalísticos, tido como de esquerda, em cima de um episódio menor, sem característica de notícia fake – o caso do rosário que um emissário do Papa entregou a Lula. Foi uma iniciativa esdrúxula, que mereceu uma única defesa, um professor do Insper (universidade ligada a Lehman), de que o episódio significaria a maturidade das agências de checagem, por estarem sendo atacadas, agora, pela direita do MBL e pela esquerda. 

Indício 4 – a seletividade do Projeto Credibilidade

O projeto tem como participantes apenas grupos de mídia e sites e portais alinhados com o sistema. Para testar, solicitei a inscrição do Jornal GGN no grupo. A resposta dos organizadores: “Agradecemos o interesse do Jornal GGN de integrar o consórcio de mídia do Projeto Credibilidade. Em função de limitações operacionais, estamos impossibilitados de responder sua solicitação de forma imediata, pois estamos analisamos solicitações anteriores de outros veículos”. A resposta foi no dia 13 de março passado. Até hoje não recebi resposta.

Peça 9 – a volta da censura

/var/folders/hy/dl8cpd596lx8m5wsqntm05c40000gp/T/com.microsoft.Word/Content.MSO/EE99E973.tmp

Quando teve início o carnaval em torno dos fake news, o Ministro Luiz Fux, do STF (Supremo Tribunal Federal), anunciou que, na condição de presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), montaria um grupo de trabalho com Polícia Federal, ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) para combater os fake news. Anunciou até a intenção de recorrer a buscas e apreensões, como maneira de prevenir ataques – um caso claro de ameaça de censura prévia.

 No evento da Veja – alimentado pelos estudos de Ortollado e da Publica -, na casa da revista que soltou uma capa fake na véspera das últimas eleições, Fux anunciou seu pacto com jornais para coibir as notícias falsas. Soltou a bazófia, de que o TSE anularia a eleição se fosse comprovada a influência decisiva de uma notícia falsa.

Peça 10 – as hipóteses em jogo

É evidente que está em andamento um processo de censura na próxima campanha eleitoral, ou, quem sabe, mais permanente, sob a capa de uma falsa legalidade – a exemplo do que ocorreu no impeachment.

A quem recorrer? No CNJ (Conselho Nacional de Justiça), a inacreditável presidente Carmen Lúcia montou um grupo destinado exclusivamente a defender os grupos de mídia das ações judiciais. No TSE, Fux acena com ameaças e pactos com a imprensa tradicional, como revelou no Jornal Nacional de dias atrás.

Está em fase montagem a mais grave ameaça à liberdade de pensamento do país.

A primeira hipótese é que as agências participam deliberadamente do jogo da censura.

A segunda hipótese, levando em conta a biografia dos envolvidos, é o da imaturidade no exercício onipotente de poder vetar publicações no Facebook.

Há sempre a possibilidade de que Publica e Piauí tenham pecado pela inexperiência e que os ataques apenas expuseram idiossincrasias jornalísticas contra veículos que vinham criticando o seu trabalho.

De qualquer modo, é relevante que seus titulares se deem conta do enorme risco não apenas para a democracia, mas para sua própria reputação. E se posicionem claramente a respeito do seu papel nesse jogo. Afinal, o que está em jogo não é a questão esquerda x direita, ou globalização x antiglobalização, mas princípios fundamentais na construção da democracia e dos direitos humanos: a liberdade de expressão.

35 comentários

  1. Primeiro, parabéns por mais

    Primeiro, parabéns por mais esse “xadrez” esclarecedor, imprescindível e urgente, caro Nassif. Montar “tabuleiros” com tantas variáveis é só pra que é fera, mesmo.

    Agora quanto às notícias falsas ou numa hipótese mais bondosa, tendenciosas… se fosse apenas a Pública e a Piauí tava ótimo. Estamos em tempos de concentração de poderes econômico e político, ares liberalizantes e, por paradoxal que pareça, conservadores, e isso parmeia até as relações pessoais, porque não atingiria o “ganha-pão” geral?

    Outro dia a Pública reportou o declínio da atividade-fim dos convênios médicos que ocorre concomitantemente ao aumento de seus lucros e preços. Como se a onda de precarização da cidadania ocorresse apenas no ramo da Saúde… Estamos vendo empobrecimento geral e em todos os sentidos. Isso faz com que os convênios aumentem seus preços mesmo e mesmo assim não consigam ganhar o que o neoliberalismo lhes prometeu, prometeu a todos nós: riqueza e privilégios sem fim.

    Creio que para que outra onda se sobrepusesse a essa – uma nova, que tornasse “moda” a responsabilidade profissional e a solidariedade acima dos ganhos financeiros – seria necessário que todos nós encontrássemos alternativas não apenas de sobrevivência mas de bem viver de uma forma geral. E não dá para contar com diminuição dos ataques sob o qual estamos sendo destruídos nas nossas humanidades, vai ser bem difícil os operadores do capitalismo neoliberal deixarem a gente em paz para isso. Teríamos que fazer algo apesar desses ataques…

    De qualquer forma, como postei lá, n’A Pública, acho que não dá prá gente fugir da responsabilidade pessoal sobre surfarmos nessas ondas desumanizadoras.

  2. 2 oservações

    1- Curioso usarem fake news para combater fake news.

    2- Espero estar errado, mas acho que o Brasil vai para o buraco mesmo. O mundo criou uma nova forma de colonização, muito sofisticada e caímos na armadilha como patos (até adotamos um como símbolo! hahaha!). Vamos voltar ao nosso papel de fornecedores de matérias primas para a metrópole.

  3. Muito bem,Nassif já está
    Muito bem,Nassif já está preparando o seu dossiê público digital para eventuais necessidades e para mim ficou claro a “mudança de comportamento”do Facebook após a grande mobilização via redes sociais no Brasil na manifestação de Abril em Brasília ao qual houve mais de cem mil pessoas,após isso houve coincidentemente mudanças nos algoritmos, para mim ficou claro o movimento de limitação/manipulação do Facebook e agora estão terceirizando as manipulações/limitações e lógico vai dar errado no Brasil por causa de pessoas como Nassif !!

  4. 2 oservações

    1- Curioso usarem fake news para combater fake news.

    2- Espero estar errado, mas acho que o Brasil vai para o buraco mesmo. O mundo criou uma nova forma de colonização, muito sofisticada e caímos na armadilha como patos (até adotamos um como símbolo! hahaha!). Vamos voltar ao nosso papel de fornecedores de matérias primas para a metrópole.

  5. Parabéns, caro Nassif!E

    Parabéns, caro Nassif!

    E comentando esse “Xadrez”, o jogo político é o mesmo que permeia nossa sociedade: uma onda neoliberalizante imposta pelos donos das firmas de comunicação social intensa como a que Margareth Thatcher impôs ao Reino Unido.

    A mim parece natural que publicações como a piauí – e sua agência “Lupa” – surfe nessas ondas por causa da cultura, da educação de seu dono, Moreira Salles. E também não estranho que a Pública a sua seção “Truco” a acompanhe, basta ver quem a mantém. Por mais que diga que fundações financiam sem interferir, o tempos são de guerra e todos sabem – ou pelo menos sentem, intuem – que abordagens “contra a corrente” no mínimo causarão desconforto aos financiadores. Fica uma imposição implícita, tácita.

    Ainda dava para pensar se alguém mostrasse, “Olha, naquele lugar o neoliberalismo foi imposto pelas elites, o povo de lá prosperou, não ficou um em posição precária e servil e aquele lugar ficou democrático, independente e soberano.” Mas pode verificar: onde o neoliberalismo foi imposto há crime e pobreza. Mostra-se PIBs mais ou menos mas o que se vê entre o povo é corrupção, terror e, desculpe a repetição, pobreza mesmo. O que faz todo sentido: o povo quer o mesmo que vê a elite obter. Como pelas vias institucionais os poderes econômico e político, os privilégios estão concentrados, o povo busca por vias paralelas. Em culturas especialmente criativas – com a nossa, brasileira – isso acaba ficando como Rio, cheio de milícias, de poderes à margem das instituições, de “vire-se quem puder”, de “é preciso primeiro fazer rir para poder rir”.

    Às vezes penso que há um trato que reza que uma pessoa é madura se é capaz de suportar atrocidades, de aplacar sua consciência, de manter postura contida e fleumática sem, no entanto, atinar com responsabilidade. Se a pessoa é inconsequente mas aprendeu a pose, os trejeitos de “madura”, pronto: os que compram tal trato a incensam.

    Mas tanto inconsequência, irresponsabilidade quanto crueldade são atributos de criança. Sabe aquela história da menina de 3 anos que jogou o irmão de 1 ano pela janela da apartamento? Pois é, ela não esfaqueou o menino, não quis ver o sangue nem ouvir os gritos. Da mesma forma agem esse mal-criados neoliberais: continuam em suas mansões “limpinhas”, numa espécie de bolha ascéptica, “pro meu lado tá bom”.

    Efeitos da propaganda capitalista, que mantém as pessoas imaturas. É que imaturos, arrogantes, irresponsáveis e inconsequentes compram mais, compram por impulso, num eterno oba-oba.

  6. Quem dá valor ao fakenews é o jornalismo que se acha

     

    Luis Nassif,

    Este post “Xadrez do jogo político dos fake news, por Luis Nassif” de segunda-feira, 18/06/2018 às 23:56, pareceu-me mais factual do que os Xadrezes sobre a política brasileira. E bem mais informativo. É claro que eu sei um tanto sobre a política brasileira de modo a poder questionar as suas afirmações e quase nada sei sobre o tema deste post.

    A noticia verdadeira pode transformar o mundo, mas é preciso ser uma notícia incontestavelmente verdadeira e incontestavelmente capaz de muda a opinião de muita gente. Essas notícias são quase inexistentes. Só uma gravação de um político comportando como um gangster ou coisa do gênero tem capacidade de mudar a opinião das pessoas.

    O jornalismo se acha muito importante para aceitar isso. Ele quer fazer crer que o jornalismo tem um poder supremo, tudo porque ele (o jornalista ou o meio de comunicação qualquer) foi inteligente o suficiente para saber a opinião da maioria e acompanhar essa maioria.

    Os blogueiros também imaginam que eles mudam a opinião dos que acompanham porque observam que no blog dele quase todos têm opinião semelhante. Não se dão conta de que essa é a sina malévola dos blogs: torna-se um centro reprodutor de uma ideia única.

    É claro que há acontecimentos muitos expressivos que tem o condão de influenciar as pessoas. A paralização que a greve dos caminhoneiros causou deve ter sem dúvida reduzido os investimentos já neste segundo trimestre. Creio que agora as pessoas vão pensar em estudar os efeitos no PIB da paralização e os quantificar. Algo que já deveria ter sido feito em relação às manifestações de junho de 2013 e seus efeitos na queda dos investimentos a partir do terceiro trimestre de 2013.

    Quando à notícia da interferência da Rússia nos Estados Unidos eu transcrevo a seguir um parágrafo do meu comentário junto ao post “O problema russo na Suécia, por Paulina Neuding” de quarta-feira, 14/06/2018 às 10:38, e que pode ser visto no seguinte endereço:

    https://jornalggn.com.br/noticia/o-problema-russo-na-suecia-por-paulina-neuding

    Do meu comentário que eu enviei quinta-feira, 14/06/2018, às 18:39, para junto do comentário de Marcos Antônio enviado quinta-feira, 14/06/2018 às 11:52, eu transcrevo o seguinte parágrafo:

    “E o problema dessa acusação sobre a interferência russa feita por pessoas que se dizem democrata é que a acusação faz desacreditar-se na democracia. Se a Rússia, com um PIB de 1 trilhão de dólares e menos de 150 milhões de habitantes, pode interferir em qualquer democracia do mundo, a começar pela americana com uma população de mais de 300 milhões e com um PIB de quase 20 trilhões de dólares, o que um país como os Estados Unidos podem fazer nas democracias nos demais países do mundo.”

    Não é que eu questione se a Rússia apoiou um candidato ou outro na eleição americana ou que hackers russos tenham feito campanha para um ou outro candidato. O que eu questiono é qualquer efeito no eleitorado da tentativa de interferência russa no resultado da eleição americana.

    Não creio que Trump tenha carisma, mas avalio que ele sabe expressar bem a opinião de grande parte dos americanos principalmente daquele povo que compõe o que se denomina eleitorado branco, anglo-saxão protestante (WASP). Foi isso que o elegeu. Se um hacker russo soubesse como ganhar uma eleição ele se fantasiaria de um candidato e faria o discurso capaz de o eleger.

    Clever Mendes de Oliveira

    BH, 21/06/2018

+ comentários

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome