Xadrez em tempos de impasse na novela do golpe

Atualizado às 10:20 com pequenos acréscimos

Não tem saída fora da negociação política

Elemento 1 – O jogo político empatou.

As últimas manifestações populares, de juristas, intelectuais, a favor de Dilma Rousseff indicam um empate do jogo. Sem acordo, ninguém leva, todos perdem e o país incendeia.

As arbitrariedades da Lava Jato, a sucessão de álibis para derrubar Dilma, consolidaram em parte relevante do país a percepção de que qualquer saída que implique em derrubada de Dilma ou humilhação de Lula será vista como golpe.

A ideia de “acabar com aquela raça” (apud Jorge Bornhausen) significaria alijar 30% da população  do jogo político. É factível? Evidente que não.

Por outro lado, a derrubada do impeachment não será suficiente para garantir governabilidade a Dilma, com baixa credibilidade e submetida às suas próprias limitações e à uma oposição ensandecida que continua querendo ver o país pegar fogo.

Elemento 2 – mesmo que a Câmara vote o impeachment, a presunção da legalidade virou pó.

Houve uma orquestração nítida entre a parte operacional da conspiração – o consórcio mídia-Lava Jato- com a parte institucional – Congresso, TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e TCU (Tribunal de Contas da União).

No início deste ano, o consórcio mídia-Lava Jato planejou uma blitzkrieg estimulando movimentos de massa que desmontassem as defesas do governo, permitindo que o braço institucional da conspiração liquidasse a fatura no Congresso ou no TSE, com algo similar ao Fiat Elba.

A pressa em deixar o campo preparado para o fim do recesso fez a Lava Jato precipitar-se, atropelar procedimentos e expor seu lado político.

Foi uma série de trapalhadas:

1.    O avanço sobre a lavanderia Mossak Fonseca, que obrigou os bravos, intimoratos, corajosos e isentos procuradores e policiais federais baterem em retirada humilhante, quando no fim do túnel encontraram indícios contra a família Marinho.

2.    Os factoides desmoralizantes no sitio de Atibaia, como manchetes sobre pedalinhos, barcos de alumínio.

3.    Finalmente quando decidiram promover o ápice da comoção popular, para acelerar a agenda policial, com a condução coercitiva de Lula e o vazamento dos grampos.

Ali rompeu-se o pacto que segurava a operação.

As arbitrariedades despertaram, finalmente, a consciência jurídica e a reação contra o golpe. Inspiraram não apenas grandes manifestações de rua, mas manifestos de juristas e críticas de Ministros do STF, como Marco Aurélio de Mello e Teori Zavascki.

No âmbito do Ministério Público Federal, figuras referenciais, como o ex-Procurador Geral Cláudio Fontelles, romperam a blindagem corporativa criticando os abusos.

Em seguida foi a vez do novo Ministro da Justiça Eugênio Aragão, criticar os vazamentos. Aragão é subprocurador, e sempre teve posição crítica em relação aos abusos e excesso de protagonismo de procuradores imaturos.

Provavelmente houve uma tentativa do Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, de chamar os procuradores da Lava Jato à razão, conversando. Mas, àquela altura, o excesso de visibilidade tinha criado semideuses ou semimonstros de vaidade (ou protagonistas do BBB, segundo Aragão) que só respondiam à turba. Provavelmente foi o que obrigou Janot a uma nota duríssima para trazê-los de volta ao mundo dos mortais.

A nota de Janot e a postura extraordinária de Teori deverão direcionar as operações para o âmbito da legalidade, reduzindo as manipulações políticas e o sensacionalismo midiático.

Depois que Teori Zavaski acabou com a Operação Pilatos do STF, haverá grande probabilidade de impugnar qualquer votação de impeachment que não contemple as hipóteses previstas na Constituição.

Elemento 3 – a crise econômica pode se converter em crise financeira.

Estamos alertando há algum tempo para o buraco negro do próximo semestre. Além do avanço do desemprego, começa o vencimento de financiamentos externos e haverá uma inadimplência circular. No auge da bonança, empresas tomaram empréstimo a prime + 3%. Hoje, na melhor das hipóteses, está em prime + 10%. Há urgência para uma operação

Elemento 4 – dúvidas sobre se Michel Temer montaria no burro xucro do impeachment.

Há uma lógica no desembarque do PMDB do governo. O país está dividido. A parte do país que combate o golpe não é integrada por eleitores do PMDB, especialmente em redutos mais fisiológicos, como no Rio de Janeiro. Seus parlamentares sempre foram votados pela parte não politizada da opinião pública – que hoje forma a banda pró-impeachment.

O jogo será decidido na cúpula.

Qual seria o cenário político pós-impeachment com Temer:

1.    Receberia um país conflagrado.

A radicalização política é diretamente proporcional à indignação, quando parte da opinião pública se convence de que as regras do jogo democrático não foram respeitadas. A perda de legitimidade do impeachment trará os movimentos populares para as ruas e, dependendo do nível de repressão, os empurrará para a ilegalidade. Há um risco concreto de volta ao pós-64

2.    No momento em que Dilma caísse haveria uma carnificina entre os partidários do golpe.

Temer teria que administrar a divisão do botim, os favores aos grupos de mídia, as jogadas de Serra, a agenda imposta por lobbies, os cargos para os fisiológicos, sem ao menos ter a legitimidade da legalidade do golpe, sem possuir uma base sólida de apoio.

3.    A guerra política pós-impeachment certamente seria alimentada com dossiês e vazamentos de operação.

A partir do momento que se permitiu a politização da Polícia Federal e do Ministério Público, abriu-se uma porta para caminhos imprevisíveis. E nenhum dos protagonistas escapa dos respingos da operação. Por outro lado, o primeiro ato dos supostos vitoriosos será reduzir as prerrogativas do MPF, da PF e da Lava Jato.`           

4.    No plano jurídico, Temer se converteria no coveiro da Constituição de 1988.

O grande momento de sua vida foi como um dos juristas da Constituinte. Como político, não fez nada de marcante. Com a perda da legitimidade da operação, aceitará ser o coveiro da Constituição e encarar o olhar acusador de Celso Antônio Bandeira da Mello e de outros juristas?

5.    Possibilidade do impeachment ser impugnado pelo Supremo.

6.    Tudo isto tendo pela frente o incêndio lavrado pela crise financeira.

Temer montaria no burro xucro?

Elemento 5 – não se sai da crise sem um novo pacto.

Supondo que o governo consiga os 171 votos na Câmara para barrar o impeachment, o que seria o dia seguinte? Uma oposição ensandecida e irresponsável botando fogo na política e na economia e um governo amarrado pelo boicote no Congresso e pela falta de ousadia na política econômica. E uma economia exigindo medidas heroicas para essa reciclagem de financiamentos, entre outros problemas expressivos.

Em algum momento, todos terão que se sentar e negociar em cima de um plano de salvação nacional. E dando uma saída para os parlamentares que dependem do voto não-ideológico.

Provavelmente a grande moeda de troca será Lula. Ou melhor, a perspectiva Lula para 2018. Obviamente, a decisão exclusiva é do próprio Lula e de sua energia para enfrentar a guerra e tentar consolidar nova maioria.

Seja quais forem os termos do acordo, é importante que o lado responsável da República comece a pensar em saídas. E que os diversos poderes comecem a recolher seus radicais, sob risco de serem atropelados pela própria tropa.

174 comentários

  1. É lamentável, mas o golpe já está dado!

    Nassif!

    Como sempre, seu raciocínio é brilhante e sensato, mas o pacto proposto é inexequível porque os golpistas já estão deliberados.

    Lamento, mas o que posso constatar de forma serena e sem sofismas é que, independente do que o STF venha a decidir, o golpe contra o PT-Lula-Dilma já está dado de forma inapelável por seus algozes, os integrantes do sistema e para o que falta apenas concluir o ritual macabro em rápido andamento.

    O complô armado por seus mentores, tal qual no enredo do clássico “A Volta ao Mundo em 80 dias”, já tem previsto todas as casualidades (reações pro governo) até o desfecho final do golpe que contempla, tanto a tomada efetiva do poder seguido da tentativa de governar o País impondo o script traçado, como a continuação do atual governo que, nessa hipótese, será sem nenhum apoio do congresso e sob petardos contínuos dos demais atores do sistema até chegar 2018 totalmente esvaído e refugado por todos pela situação caótica que estaremos vivendo.

    A única alternativa que vejo a esse cenário seria a Presidenta convocar o Conselho de Defesa Nacional e decretar o Estado de Defesa, à revelia do Congresso e com prévio e pleno apoio dos Comandos Militares, se estivessem afim, inclusive para medidas excepcionais, posto que terá de governar por decretos porque, forante isso não sei mais o que poderá vir a acontecer, se sombras de confrontos e repressões, ou mesmo nada.

     

  2. kabalidus

    Amigus de kabu Verdi e Guine (purdon pabia nha kriolu e jagasidu),

    Ten paciensa,  abos, (nhos) spaja (konta tudo alguin) es banoba pa tudu kau. Na brasil tene um manjua di kabalidus, panelerus, mufunadus: es ta tcjhomadu: Moro (futseru garandi, prigosu,), Merval (kabalidu garandi), Marinhos (ka bali fodja di tabaku), Cunha (paneleru mas mufinadu), Temer (paneleru pikenu, traidur, dus kara), FHC (mestri di kabalindadi) Gilmar (korderu kabalidu)

    Ben no sokorê. 

    Bapur ka na nkaja

     

  3. Eu só pergunto: vale a pena uma saída negociada?

    Pensando no futuro deste país, vale a pena uma saída negociada, quando esta negociação terá que ser feita com o que há de pior na sociedade brasileira? Vamos, mais uma vez, fugir das reformas estruturantes necessárias, tudo para que as coisas se acalmem?  Ou seria melhor ir para o embate frontal entre as forças em jogo, e quem vencer que aplique suas reformas e se mantenha no poder, se conseguir se manter? Por quanto tempo mais vamos ficar aturando uma imprensa controlada por meia duzia de famílias, que usam deste oligopólio para transformar seres humanos em bestas humanas? Por quanto tempo mais vamos suportar a injustiça fiscal que exaure o pequeno e enriquece o grande? Por quanto tempo mais vamos suportar que, num estado laico, ideias religiosas seja trazidas para dentro do aparelho de estado?  Por quanto tempo mais vamos continuar suportando que um MP seja detentor do poder de subjugar todos os outros poderes?  Por quanto tempo mais vamos continuar com um sistema eleitoral que privilegia os que tem dinheiro para se elegerem?

    Eu sinceramente não sei se vale a pena. Por que ter medo da Revolução? Medo da morte? medo de que sangue escorra pelas ruas?  Mas isto já vem acontecendo numa escala surpreendente.  Os dados mostram que no Brasil, nos últimos vinte anos, mataram-se mais seres humanos do que na Guerra do Vietnã.

    Quantas vezes eu ouvi, este é problema de haver vivido tanto tempo, vozes dizendo em poupar o sangue de inocentes.  Poupar?  Seria melhor dizer, poupar o sangue de uns e derramar o sangue dos pobres coitados que são mais pobres do que nós.

    Já imaginaram se tivesse havido um sujeito com liderança  suficiente para acalmar os revoltosos que atacaram a Bastilha, ou os latifundiários sulistas que preferiam dividir a nação, a abrir mão de seus negros escravos? Já imaginararm se a China, ao final da segunda guerra mundial,  tivesse aceitado a convivência com as forças corruptas e antinacionais do Kuomitang? Mesmo com todos os erros de Mao, eles conseguiram mudar o rumo da História e reconstruir, com orgulho, a grande pátria Chinesa.  Para mim está claro que caso Mao tivesse conciliado, hoje a China seria algo nojento, com milhões de pobres jogados pelas sarjetas, com milhões de crianças pedindo comida nos sinais das ruas, prostituindo-se por uma porção de arroz.

    Vale a pena evitar o confronto? Eu não estou perguntando se vale a pena para mim, minha família ou para você e sua família. Estou perguntando se vale a pena para o futuro do Brasil, para o futuro dos milhões de brasileiros.

+ comentários

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome