Grande Porto Rico, por Marcelo Zero

Os rumos para o Brasil no contexto global, considerando o discurso do presidente eleito, Jair Bolsonaro 
 
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
 
Por Marcelo Zero
 
Porto Rico é um “estado associado” dos EUA. Anexado em 1898 pelos norte-americanos, após a guerra contra a Espanha, Porto Rico é um território subordinado, que não faz parte dos Estados Unidos. Seus habitantes, embora tenham a cidadania norte-americana, não podem votar para eleger o presidente, senadores ou deputados. No Congresso, Porto Rico tem apenas um Resident Commissioner, com direito a voz, mas sem direito a voto.
 
Dessa forma, Porto Rico não é nem um Estado soberano nem um Estado dos EUA. Porto Rico fica num limbo de soberania. É, na verdade, uma colônia dos EUA. Tal status é reconhecido até pela ONU. Com efeito, o Comitê Especial das Nações Unidas sobre a Descolonização declarou que os EUA deveriam “permitir que o povo de Porto Rico tome decisões de maneira soberana e enfrente seus urgentes problemas econômicos e sociais, incluindo o desemprego, a marginalização, a insolvência e a pobreza”. Em vão. 
 
Entretanto, o caso de Porto Rico, embora extremo, não chega a ser exatamente um ponto totalmente fora da curva, na América Latina. A bem da verdade, muitos países da região, mesmo não sendo colônias formais, têm uma forte relação de dependência, em relação aos EUA. 
 
O Brasil, por suas vastas proporções territoriais, demográficas e econômicas, era, até pouco tempo, uma exceção parcial a essa realidade latino-americana. 
 
Com efeito, tivemos períodos em que nos alinhamos subordinadamente aos interesses geopolíticos norte-americanos, como no período Dutra, nos governos Castelo Branco e Médici e nos governos FHC. Mas também tivemos períodos em que o Brasil tentou ativamente afirmar seus interesses próprios no cenário regional e mundial de forma mais autônoma. Foram os casos, por exemplo, da Política Externa Independente (PEI) do período de Jânio Quadros e João Goulart, do “pragmatismo responsável” de Geisel e, sobretudo, da política externa “ativa e altiva”, implantada nos governos do PT. 
 
Nesse último período, o Brasil fez avanços extraordinários em seu protagonismo mundial. Investimos muito na integração regional, fortalecendo o Mercosul e criando a Unasul e a Celac. Demos prioridade à vertente Sul-Sul da política externa e estabelecemos sólidas parcerias estratégicas com outros países emergentes, como a China, a Índia e a Rússia. Reaproximamos-nos à África e criamos laços de cooperação inéditos com regiões como a do Oriente Médio, por exemplo. 
 
Com isso, diversificamos muito nosso comércio exterior e nosso fluxo de investimentos, bem como ampliamos extraordinariamente nossas exportações e nossos superávits, algo que foi fundamental para a superação da vulnerabilidade externa da nossa economia, a qual vivia pendurada no FMI. 
 
Criamos o grupo dos BRICS, contribuindo para conformação de uma ordem internacional mais multipolar. Fomos indispensáveis para a transformação do G7 em G20 e exercemos nossa respeitada liderança em todos os grandes foros mundiais. 
 
Lula converteu-se no primeiro presidente brasileiro a ter dimensões mundiais. O “cara”, segundo Obama. 
 
Todos esses avanços estão sendo celeremente destruídos pelo golpe. Como se sabe, hoje temos uma política externa passiva e submissa. Voltamos a nos alinhar aos interesses norte-americanos na região e no mundo. 
 
Porém, temos, agora, um sério agravante. Esse sério agravante chama-se Bolsonaro, o “capitão-que-bate-continência-para-a-bandeira-dos-EUA”. 
 
Com efeito, se fizer o que está acenando, Bolsonaro fará com que a política externa do Brasil se converta num ponto totalmente fora da curva, em relação à sua história e às suas tradições. Uma coisa é aliar-se aos EUA, mantendo, porém, alguns espaços para a defesa de seus interesses próprios, como o Brasil fez, por exemplo, na era FHC. Na época, mesmo priorizando as relações com o grande irmão do Norte, não abandonamos a integração regional e as relações com alguns países emergentes. 
 
Outra coisa, entretanto, é a promessa de terra arrasada de Bolsonaro. A total submissão do país aos interesses dos EUA, em nome de um feroz anticomunismo totalmente deslocado e extemporâneo, que faria até McCarthy corar. O que se prenuncia é a inteira perda de soberania. O novo superministro da economia do capitão já deixou claro, de forma bastante grosseira, que o Mercosul e a Argentina não são prioridades, não terão qualquer relevância.  Isso causou grande rebuliço num bloco que é fundamental para economia brasileira e para a paz em nossa região. Trata-se de completa ignorância, por parte de quem pretende governar o Brasil. 
 
A Argentina já foi nosso primeiro parceiro comercial. Mesmo depois da crise, é nosso terceiro parceiro comercial. Entre 2003 e este ano exportamos para o Mercosul nada menos que US$ 276 bilhões, com um superávit a nosso favor de cerca US$ 100 bilhões. Saliente-se que as exportações brasileiras para o bloco são, em mais de 90%, de produtos industrializados, com alto valor agregado. Em contraste, no que tange às nossas exportações para a União Europeia, a China e os EUA, os percentuais de manufaturados são de 36%, 5% e 50%, respectivamente. Portanto, o Mercosul compensa, em parte, a nossa balança comercial negativa da indústria. Entretanto, o “posto Ipiranga” talvez não ligue para isso, pois já avisou que não terá políticas para promover nossa industrialização. Ao contrário, terá políticas para inviabilizá-la, pois pretende abrir totalmente nossa economia e extinguir o BNDES, nosso grande instrumento de financiamento da indústria. De agora em diante, a indústria brasileira só terá desincentivos. 
 
Obviamente, essa negligência criminosa em relação ao Mercosul estender-se-á a toda a integração regional, bem como às alianças estratégicas com blocos e países emergentes. O único relevante, agora, será a relação privilegiada com EUA e aliados, como Israel, por exemplo.
 
A aliança firme com Trump, evidenciada pelas declarações de Bolsonaro, pelo efusivo e único comunicado de felicitações do presidente dos EUA ao recém-eleito e pela recente visita do embaixador norte-americano ao capitão, bem como à talvez decisiva participação de Steve Bannon na campanha eleitoral, já suscitou a advertência severa de Beijing, que não admitirá retrocessos em sua parceria estratégica com o Brasil, o qual nos beneficia enormemente. 
 
A China é nosso primeiro parceiro comercial. No ano passado, exportamos para lá US$ 47 bilhões, com um superávit a nosso favor de US$ 20 bilhões. Em contraste, exportamos apenas US$ 26, 8 bilhões para os EUA, com um superávit a favor do Brasil de somente US$ 2 bilhões, dez vezes menor que o obtido com a China. 
 
Ademais, é a China que alimenta o Banco de Desenvolvimento dos BRICS (NDB) e o Arranjo Contingente de Reservas (CRA), instrumentos financeiros que poderiam contribuir muito para nosso desenvolvimento. O posto Ipiranga e o capitão parecem ignorar esses fatos que são do conhecimento de alunos do primeiro ano do curso de Relações Internacionais. 
 
A sabujice política e ideológica do capitão chega ao ponto de anunciar a transferência da embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém e o fechamento da embaixada da Autoridade Palestina no Brasil, emulando Trump. 
 
Trata-se de uma estupidez inacreditável, de uma ruptura clara não apenas com política externa ativa e altiva, mas com toda nossa tradição diplomática no tratamento do tema. Com efeito, o Brasil é um defensor histórico da solução dos “dois Estados” para a solução do conflito israelo-palestino e, por isso, acompanha a determinação da ONU, inscrita na Resolução 181 de sua Assembleia Geral, de que Jerusalém é uma cidade de status internacional. É por isso também que à exceção dos EUA de Trump, do Brasil do capitão e da Guatemala, um satélite norte-americano, todos os países mantém embaixadas em Tel Aviv. 
 
Os países árabes e muçulmanos estão adorando essa iniciativa desastrosa do capitão. Exportamos US$ 11,6 bilhões para o Oriente Médio, em 2017. Para Israel, exportamos somente US$ 466 milhões. Tal decisão é, como se vê, muito pragmática e inteligente. Está em perfeita sintonia com os interesses da nossa agroindústria e com os milhões de descendentes de árabes que temos no nosso país.
 
Mas isso é só o começo. O ex-embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, já anunciou que apoia a humilde solicitação do capitão, no sentido do Brasil entrar na OTAN. O que um país do Atlântico Sul fará na OTAN não parece muito claro. O que é evidente é que tal decisão fará o Brasil rumar para o fundo do “posso”, em termos de soberania.
 
Se concretizada, essa preclara decisão tornará o Brasil um satélite definitivo, que orbitará fielmente, de forma canina, os interesses geoestratégicos dos EUA no mundo. Obviamente, tal iniciativa inviabilizará a participação do Brasil no BRICS. Nem Beijing nem Moscou aceitariam um membro da OTAN no seu clube. 
 
O que virá depois? Uma aventura militar na Venezuela? A liderança, na América do Sul, contra o “marxismo cultural”, seja lá o que isso for? Medidas protecionistas contra a China, acompanhando Washington? A extinção do Mercosul e da Unasul? Um pedido para que o Brasil se torne Estado associado dos EUA, como Porto Rico? Não sabemos. Contudo, pelo andar da carruagem (seria melhor dizer carroça), só falta isso mesmo.
 
O que é certo é que a combinação de ultraneoliberalismo do posto Ipiranga com a subordinação política e ideológica do capitão que bate continência para a bandeira dos EUA rompe com todo resquício de soberania que nos sobrava, após o golpe. 
 
Com tal combinação, que subverte por inteiro a nossa tradição diplomática, mesmo a do período neoliberal anterior, nos tornaremos uma nulidade geopolítica. 
 
Não seremos apenas um país menor, seremos um país desprezível. Formal ou informalmente, seremos colônia, a exportar commodities para quem conseguirmos exportar. E não serão muitos os países, pelo visto. 
 
Trump, aquele que aprisionou crianças brasileiras, e os grandes interesses do capital estão adorando esse novo país que engatinha, de quatro, pelo cenário mundial, sujando as suas fraldas, seus interesses e sua memória.
 
Só falta batizá-lo. Que tal “Gran Puerto Rico”?
 

11 comentários

  1. O ideal pros EUA é o Brasil

    O ideal pros EUA é o Brasil implodir como aconteceu com a américa espanhola no século XIX. Afinal, somos o único país do continente americano que rivaliza com os EUA em questão de tamanho, independência alimentar, recursos minerais e unidade linguística. Mas não adianta um país ter todas essas vantagens se não conta com uma elite de verdade. Brinco que se a Argentina tivesse se tornado uma potência militar de peso internacional, provavelmente hoje o Brasil seria uma província deles – nossa elite entregaria o país a Argentina como a francesa da década de 30 entregou de bandeja pra Hitler.  

  2. Argentina depois do golpe militar de março de 1976

    Exageros, nossa situação está muito mais para o que aconteceu com a Argentina depois do golpe de 1976, milhares de desparecidos políticos, uma política de liberalismo econômico que vai devastar a indústria nacional e aumentar significativamente a pobreza.

    Continuaremos a ser independentes juridicamente, mas totalmente dependente economicamente, com a entrega do petróleo nacional e a queima das Reservas Cambiais que fará voltar as portas do FMI.

    Nossos governantes ficarão bilionários, e pais muito pobre.

    • Com a diferença de que os que

      Com a diferença de que os que fizerem essa desgraceira serão anistiados e não morreram na prisão, na privada, como Videla Cadela 

  3. Fácil, muito fácil.

    Os “Isteites” não imaginavam que seria tão fácil transformar um país do tamanho do Brasil em uma de suas colônias e em pleno século XXI. Foram muito espertos.

  4. Estadunidismo cultural é…

    …vibrar com o fato de um presidente daquele país elogiar Lula. Estadunidismo cultural é a gente achar natural saber o nome até de ruas da cidade de Nova Iorque, uma cidade dos EUA, estrangeira a nós, por tanto.

    O problema é que Bolsonaro, Joaquim Barbosa, Sérgio Moro etc., e uma parcela da classe média brasileira lucra com a dependência do Brasil em relação aos EUA, se não apenas em dinheiro, também em prestígio social. A pessoa, sendo ou não, se sente importante, continua sabendo-se brasileiro mas arroga para si mesma a condição de VIP por alinhar-se a estrangeiro:

    – “Sou brasileiro, sim, mas sou um brasileiro ‘diferenciado’, especial.”

    Isso é estadunidismo cultural.

  5. Já somos uma Guatemala com dimensões continentais

    O texto captou com perfeição a sensação do que será o governo do nazista: muita bravatinha anticomunista anacrônica e medidas descabidas (do mesmo modo intempestivas) em nome dessa ideologia.

    O que nos traz novamente aquela sensação de que até o finado Enéas Carneiro tinha mais a cabeça no lugar do que essa besta autointitulada de “patriota”, que não passa de um cachorrinho de madame adestrado.

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