Visita de Bolsonaro aos EUA é simbólica e retórica, pondera analista de relações internacionais

“A visita não muda a lógica dessa relação bilateral, que inclui a cooperação em algumas áreas, e dificilmente cria um alinhamento constante, porque é uma relação assimétrica: a relação é mais importante para o Brasil do que para os EUA”, explica Oliver Stuenkel.

Foto: Divulgação/Planalto

Jornal GGN – “Sou cético quanto ao que Washington está disposto a dar ao Brasil, uma vez que o Brasil tem pouco a oferecer aos EUA”, avalia o professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, Oliver Stuenkel, em entrevista ao portal DW.

O analista explica que a visita de Bolsonaro aos EUA é simbólica e nos próximos meses e até anos não deve haver “tanta substância” prática no sentido de acontecer, a partir do encontro, acordos importantes ao Brasil.

“Quando uma visita acontece tão cedo na Presidência, sabemos que o elemento simbólico é mais importante e que não pode haver tanta substância, porque uma visita presidencial normalmente é o ponto final de negociações que costumam demorar meses. Como não havia esse tempo, todos sabiam que não haveria grandes resultados que iriam transformar a relação entre Brasil e EUA. Mesmo assim, houve alguns resultados significativos”, ponderou Stuenkel.

Por outro lado, o Brasil decidiu oferecer aos EUA um pacote de presentes, podemos chamar assim, liberando os vistos para os americanos e o uso comercial da base de Alcântara. Em resposta, Donald Trump se limitou a dizer que apoia o Brasil na adesão à OCDE. Mas em troca Brasília, foi dito ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que o país terá que desistir de tratamento especial na Organização Mundial do Comércio (OMC).

“A princípio, parece-me pouco provável que o Brasil abra mão desse privilégio [na OMC]. Porém, os EUA devem estar pedindo isso não só ao Brasil, mas também a outros países que têm o mesmo status. Então, se Brasília perceber que há uma tendência, aí poderia aceitar essa troca. Mas essa negociação só começa agora, e isso deverá ser discutido ao longo dos próximos meses e anos. Vale lembrar que a adesão à OCDE é um processo longuíssimo e que ela provavelmente não vai acontecer durante o governo Bolsonaro”, destacou Stuenkel sobre o ponto da OCDE.

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O que se viu no encontro entre Bolsonaro e Trump foi mais um discurso de retórica, apropriado sobretudo pelo brasileiro ao pedir aos EUA ajuda para “libertar o povo venezuelano”. Na verdade, a política externa do governo Bolsonaro enfraquece a capacidade brasileira de articular acordos e mediar conflitos na América Latina.

Stuenkel explica, por exemplo, que EUA, China, Rússia e Cuba tem muito mais poder de atuação no país vizinho. “Portanto, eu não vejo coisas concretas e relevantes que o Brasil possa fazer a respeito neste momento, e essa observação se aplica a toda América do Sul. Essa é uma crise que envolve grandes potências e, em função disso, a região irá reagir a tendências mais amplas”, pontua.

“O chanceler [Ernesto Araújo] erra ao considerar a maior aproximação do Brasil com a América Latina e Brics como resultado de uma escolha ideológica. É natural que um país que ocupa 50% do território e que representa 50% da população e do Produto Interno Bruto (PIB) da América do Sul queira ganhar uma presença maior na região. Isso é natural, pois é por meio da relação econômica mais forte que conseguimos influenciar também eventos políticos na região”, completa.

O cientista político reforça que o Brasil tem pouco a oferecer aos EUA. “Os EUA querem que o Brasil atenda a demandas muito específicas. As duas principais são: ajudar na questão da Venezuela e limitar a influência chinesa na região. Quanto à primeira, o Brasil não tem muito o que fazer, pois não tem mais uma relação econômica forte com a Venezuela e não apoia uma intervenção militar. Em relação à China, em função da dependência brasileira dos chineses, Bolsonaro tem muito pouco espaço para ajudar nessa empreitada. A visita não muda a lógica dessa relação bilateral, que inclui a cooperação em algumas áreas, e dificilmente cria um alinhamento constante, porque é uma relação assimétrica: a relação é mais importante para o Brasil do que para os EUA. Um exemplo é que a visita domina as notícias no Brasil, mas não nos jornais americanos”, observa o analista.

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Stuenkel alerta também que a decisão do governo brasileiro liberar o visto para norte-americanos causa desconforto entre grupos que o elegeram.

“É uma ruptura com a tradição diplomática, e muitos observadores têm manifestado preocupação com a retórica pró-EUA e a maneira como essa aproximação pode afetar os interesses nacionais brasileiros”.

“É preciso explicar melhor como essa aproximação, inédita nas últimas décadas, ajuda o país. Isso será um ponto de muita controvérsia ao longo dos próximos meses e anos, sobretudo em função da dúvida se Bolsonaro quer se aproximar de Trump ou se aproximar dos EUA. Isso porque existe uma chance de Trump perder as próximas eleições. Assim, a grande dúvida é se Bolsonaro, neste cenário, manteria essa aproximação”, conclui. Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui.

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1 comentário

  1. É inegável que Bozo é um grande negociDador. O famigerado negociador caracu, onde ele entra com o sufixo.
    Parece um estagiário deslumbrado com o big Dick, digo “boss” (comportando-se como tal no salão oval).
    NegociDando unilateralmente (com o lado das nádegas) diversas questões pouco relevantes (para o brasileiro):
    l) Visto (como se tirar visto impedisse qualquer americano e demais de fazer turismo no Brasil).
    2) Entrar para a OCDE (como a Letonia, país dos mais pobres da Europa, Costa Rica em processo de
    entrada, etc), com a contrapartida de abrir mão de privilégios que nos importam bem mais do que aparecer numa foto.
    3) Prejudica exportações de segmentos (infelizmente) importantes do PIB com outros paises inclusive mais importantes que os EEUU.
    4) Fez acordos secretos para servir de bucha de canhão contra um país sulamericano que fornece energia a
    um estado brasileiro e tem saldo comercial favorável a nós brasileiros (e cadê a prometida transparência).
    5) Cede o uso de base estratégica a um só país (por que não a TODOS os interessados do mercado e faturar mais?)
    6) Acena com a cessão de território para base(s) militares no país.
    7) Desmorallzou seu chanceler em detrimento do filhote número zero n
    8) Agride o México e mexicanos por tabela, apoiando o muro (só ao sul).
    Além disso, como o “grande” estadista que é (movido apenas por ideologia que tanto critica):
    9) Vai fazer compras no xoping.
    10) Vìsitou a CIÁ (fora da agenda), centro de inteligência, espionagem e promoçåo de golpes e assassinatos em países bananeiros, mineiros e petroleiros, como o nosso.
    Salvo esquecimentos e contribuições, este e o resumo da histórica e famigeradamente inesquecível visita, como uma prostituta à seu cafetão do momento.
    Contudo, Mijair Golden Shower (®aIguém no Twitter) e seu séquito de fanáticos e obscuros estão exultantes…
    O mais perigoso de tudo: agora, depois de (lógico, né?) bem recebido por um condescendente e quase jocoso Trump, começa a se achar.
    Um no notion, autista político que não tem conexão com a realidade.
    Presidente eleito por uma eleição manipulada, ajudada até por “inside jobs” no TSE.

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