A questão gay, por Frei Betto

A urgência de uma lei contra a homofobia não se justifica apenas pela violência física, mais grave é a violência simbólica, que instaura procedimento social e fomenta a cultura da satanização
 
Foto: Agência Brasil/Marcello Casal.
Foto: Agência Brasil/Marcello Casal.
 
 
É no mínimo surpreendente constatar as pressões sobre o Senado para evitar a lei que criminaliza a homofobia. Sofrem de amnésia os que insistem em segregar, discriminar, satanizar e condenar os casais homoafetivos.
 
No tempo de Jesus, os segregados eram os pagãos, os doentes, os que exerciam determinadas atividades profissionais, como açougueiros e fiscais de renda. Com todos esses Jesus teve uma atitude inclusiva. Mais tarde, vitimizaram indígenas, negros, hereges e judeus. Hoje, homossexuais, muçulmanos e migrantes pobres (incluídas as “pessoas diferenciadas”…).
 
Relações entre pessoas do mesmo sexo ainda são ilegais em mais de 80 nações. Em alguns países islâmicos elas são punidas com castigos físicos ou pena de morte (Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Nigéria etc).
 
No 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 2008, 27 países membros da União Europeia assinaram resolução à ONU pela “despenalização universal da homossexualidade”.
 
A Igreja Católica deu um pequeno passo adiante ao incluir no seu Catecismo a exigência de se evitar qualquer discriminação a homossexuais. No entanto, silenciam as autoridades eclesiásticas quando se trata de se pronunciar contra a homofobia. E, no entanto, se escutou sua discordância à decisão do STF ao aprovar o direito de união civil dos homoafetivos.
 
Ninguém escolhe ser homo ou heterossexual. A pessoa nasce assim. E, à luz do Evangelho, a Igreja não tem o direito de encarar ninguém como homo ou hétero, e sim como filho de Deus, chamado à comunhão com Ele e com o próximo, destinatário da graça divina.
 
São alarmantes os índices de agressões e assassinatos de homossexuais no Brasil. A urgência de uma lei contra a homofobia não se justifica apenas pela violência física sofrida por travestis, transexuais, lésbicas etc. Mais grave é a violência simbólica, que instaura procedimento social e fomenta a cultura da satanização.
 
A Igreja Católica já não condena homossexuais, mas impede que eles manifestem o seu amor por pessoas do mesmo sexo. Ora, todo amor não decorre de Deus? Não diz a Carta de João (I,7) que “quem ama conhece a Deus” (observe que João não diz que quem conhece a Deus ama…).
 
Por que fingir ignorar que o amor exige união e querer que essa união permaneça à margem da lei? No matrimônio são os noivos os verdadeiros ministros. E não o padre, como muitos imaginam. Pode a teologia negar a essencial sacramentalidade da união de duas pessoas que se amam, ainda que do mesmo sexo?
 
Ora, direis ouvir a Bíblia! Sim, no contexto patriarcal em que foi escrita seria estranho aprovar o homossexualismo. Mas muitas passagens o subtendem, como o amor entre Davi por Jônatas (I Samuel 18), o centurião romano interessado na cura de seu servo (Lucas 7) e os “eunucos de nascença” (Mateus 19). E a tomar a Bíblia literalmente, teríamos que passar ao fio da espada todos que professam crenças diferentes da nossa e odiar pai e mãe para verdadeiramente seguir a Jesus.
 
Há que passar da hermenêutica singularizadora para a hermenêutica pluralizadora. Ontem, a Igreja Católica acusava os judeus de assassinos de Jesus; condenava ao limbo crianças mortas sem batismo; considerava legítima a escravidão e censurava o empréstimo a juros. Por que excluir casais homoafetivos de direitos civis e religiosos?
 
Pecado é aceitar os mecanismos de exclusão e selecionar seres humanos por fatores biológicos, raciais, étnicos ou sexuais. Todos são filhos amados por Deus. Todos têm como vocação essencial amar e ser amados. A lei é feita para a pessoa, insiste Jesus, e não a pessoa para a lei.
 
Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.
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3 comentários

  1. islamofobia?

    Proporcionalmente, é muito maior a fobia, o ódio mortal dos muçulmanos, por exemplo, na Arábia Saudita, contra os infiéis. Lá, Frei Beto não andaria com uma bíblia nas mãos. A irmã de Frei Beto deveria usar uma burka, senão sofreria n chicotadas na praça pública.

    Os homo são executados na Arábia Saudita, no Irã……nos países teocrático-islâmicos. No Egito, são frequentes os ataques contra as igrejas coptas, e contra estes. No Egito, é comum a circuncisão feminina, abençoada pelo Islã.

    Tudo indica que há forte dose de modismos nestas n-fobias. Por que o Frei não identifica uma cristianofobia, uma candomblefobia….e tantas outras a inventar? São neologismos que vestem noções fáceis e superficiais, com color de bom-mocismo.

    Parece que a escrita rápida e de aceitação presumida relaxa a reflexão, afrouxa a crítica de si-mesmo. Mesmo assim, gosto de ler Frei Beto, e o admiro.

  2. Sim, ler é preciso, argumentar também é preciso.

    Frei Betto escreve: “Mais tarde, vitimizaram indígenas, negros, hereges e judeus. Hoje, homossexuais, muçulmanos e migrantes pobres (incluídas as “pessoas diferenciadas”…).”

    Registro, novamente, a estranheza que causa mencionar muçulmanos entre as vítimas de segregação social, ao lado de homossexuais, de negros, de judeus e hereges (hereges de que heresias? Qual a fé traída?). Em que país islâmico não muçulmanos têm o mesmo tratamento que muçulmanos têm, por exemplo, na Europa? Os kafirs são execrados em todos os países islâmicos, os infiéis.

    Como por no mesmo nível de hostilização judeus e muçulmanos?

    Mas o artigo é inconsistente também ao sustentar que as escrituras deixam espaço para os homossexuais. A sexualidade tanto no antigo  como no novo testamento é deturpada, a mulher e o ato sexual têm conotação de impureza. Assim, Maria é virgem, concebeu do espírito santo, reza o dogma. O que isso conota? A ênfase da virgindade, antes, durante e após o parto?

    Se mesmo a mulher é inferiorizada nos testamentos, quanto mais os homossexuais. 

     

     

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