Lula livre, já!, por Izaías Almada

Em oito anos de governo fez mais do que a maioria dos presidentes anteriores. Construiu e não destruiu como fazem os beneficiários do golpe de 2016

Foto Ricardo Stuckert

Lula livre, já!

por Izaías Almada

Eu não saberia dizer se foi num dia de sol a pino ou se numa noite de lua cheia, mas o dia 27 de outubro de 1945 foi, com certeza, um dia que entraria para História do Brasil e do mundo.

Talvez tenha sido até, quem sabe, um raro dia de chuva no interior de Pernambuco, embora o calendário das estações do ano indicasse meados da primavera tropical em Caetés, pequenina cidade pertencente, ainda na época, ao município de Garanhuns, zona agreste do estado.

No cenário árido, pessoas a trabalhar no solo de terra rachada e pedindo aos deuses, qualquer um deles, por um pouco de chuva e alguma colheita que prestasse… E matasse a fome.

Nos poucos rádios da cidadezinha as notícias se repetiam há dias comemorando o final da guerra com a rendição dos japoneses.

A senhora Eurídice Ferreira de Melo, distante de tudo aquilo e já sentindo as dores do parto, recolheu-se ao único quarto na casinha de taipa, preparando-se para dar à luz ao seu sétimo rebento, dos oito que teve com o marido Aristides Inácio da Silva.

Com a ajuda de uma vizinha, já que o marido Aristides viajara para São Paulo, onde iria procurar por uma vida com melhores oportunidades de trabalho, dona Lindu – apelido carinhoso que recebeu Eurídice – fez o que tinha que fazer: deixou a natureza ajudá-la naquele que seria um parto normal, mal sabendo ela que trazia ao mundo um ser humano diferenciado.

Quantos habitantes teria Caetés em 1945? À volta de quinhentos ou mil, dois mil habitantes se tanto? Os números não importam e não seriam muito diferentes desses se forem comparados ao último censo populacional de 2010 que indica o número de 27 mil habitantes para o agora município autônomo, desmembrado que foi de Garanhuns em 1963.

Nasceu um menino, chorão, como qualquer bebê e que recebeu o nome de Luiz acrescido de Inácio em homenagem ao pai, que viria conhecer somente cinco anos depois, quando Aristides vai do litoral paulista para visitar sua primeira família, trazendo a segunda para que se conhecessem.

Situação em certos aspectos constrangedora talvez, mas que fazia parte da cultura machista nordestina e não só, onde os homens – pobres ou ricos – eram os donos e trabalhadores das terras e, em qualquer das condições sociais, eram donos também das suas mulheres, filhas e filhos.

E por incrível que pareça, o nordeste brasileiro, segundo recente relatório da FAO, ainda está entre os “territórios esquecidos e invisíveis” da América Latina e do Caribe.

Ali, já no final da guerra, a pobreza e a miséria não davam suportes para a alegria e as pequenas convenções sociais, mesmo que hipócritas, mas tão importantes para outras classes sociais.

O menino Luiz cresceu sob o estigma da pobreza, com os pés descalços e os estudos feitos com extrema dificuldade, uma infância jamais imaginada pelos meninos ricos de qualquer cidade brasileira, sobretudo no sul do país. Aprendeu no dia a dia a vencer obstáculos dos mais desumanos e disso não se esqueceria.

Um forte, segundo a visão de Euclides da Cunha.

Assim como a mãe, o sétimo filho de dona Lindu ganharia um apelido carinhoso como ela, Lula.

O apelido seria acrescentado ao nome e sobrenome originais, depois de homem feito, já em São Paulo, quando resolveu se meter em política de gente grande. Dessa gente grande que ainda hoje acha que lugar de pobre é varrer o chão da fábrica, ser lixeiro ou empregada doméstica.

Não é que mesmo assim o menino de Caetés, que veio para o sul num caminhão pau de arara resolveu se candidatar à presidente da república? Antes foi trabalhador metalúrgico e aprendeu a conversar com seus companheiros de fábrica na luta por seus direitos e com os donos das fábricas.

Aprendeu a dialogar.

Com essa mesma “audácia” enfrentou com dignidade o competência os desafios do cargo de maior responsabilidade no país: a presidência da república. Audácia que jamais lhe foi perdoada pelos que fazem do dinheiro e apenas do dinheiro a sua razão de viver.

Em oito anos de governo fez mais do que a maioria dos presidentes anteriores. Construiu e não destruiu como fazem os beneficiários do golpe de 2016 (golpe sim senhores militares, não adianta tapar o sol com a peneira), que tirou uma presidente honesta do poder e possibilitou a vitória eleitoral de um cidadão, desprovido de qualidades físicas e morais, para presidente da nação.

Enquanto ajudava a tirar alguns milhões da miséria, seus adversários tentavam encontrar uma maneira de se livrarem do filho de dona Lindu.

E a encontraram, não sem ter – é claro – a sempre auspiciosa ajuda dos Estados Unidos da América, desta vez sutilmente com recursos e maracutaias jurídicas há mais de dez anos, lembram-se? Aquele tal de “mensalão” que, misturando verdades e mentiras, consagrou entre nós uma nova jurisprudência: a de que literatura jurídica permite condenar alguém sem provas. Não é mesmo doutora Rosa Weber? Não é mesmo doutor Sérgio Moro?

A justiça, a melhor justiça – se é possível fazer tal afirmação – será sempre aquela que defenderá os nossos interesses e os interesses dos nossos amigos. O resto é conversa fiada, de quem não tem programa de governo e que vende o país na bacia das almas.

A bandeira era, então, a luta contra a corrupção? Por que não estão presas outras impolutas figuras do cenário político brasileiro ou são presos por três quatro dias para parecer que o jogo de cena é sério.

Talvez ainda dê tempo de salvar o Brasil da barbárie, senhores juízes: LULA LIVRE, JÁ!

 

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