Coronavírus pode ter infectado 66% dos habitantes de Manaus, estima pesquisa

Número pode sugerir imunidade coletiva quando casos diminuem, pois restam menos pessoas suscetíveis à infecção. Mas especialistas destacam a dimensão da tragédia na região, ressaltando que deixar o vírus circular não pode ser entendido como uma política pública

Vista aérea de Manaus – Foto: Jose Zamith de Oliveira Filho via Wikimedia Commons / CC-BY-3.0-BR

do Jornal da USP

Coronavírus pode ter infectado 66% dos habitantes de Manaus, estima pesquisa

Por Júlio Bernardes
Colaboraram: Fabiana Mariz e Luiza Caires

Em Manaus, capital do Amazonas, cidade com 2,2 milhões de habitantes, estima-se que 66,1% da população foi infectada pelo coronavírus desde o início da pandemia de covid-19. A estimativa é de um estudo internacional coordenado pelo Instituto de Medicina Tropical de São Paulo (IMTSP) e pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). A partir de dados sobre a presença de anticorpos para o vírus em doadores de sangue, os pesquisadores calcularam uma taxa de infecção de 64,8% em junho e de 66,1% em julho e agosto. O mesmo cálculo foi feito em São Paulo, obtendo uma taxa de 22,4%, o que equivaleria a cerca de 2,5 milhões de pessoas. O estudo foi publicado como preprint (versão prévia de artigo científico, sujeita a verificação) no site Medrxiv em 21 de setembro.

Segundo a professora Ester Sabino, do IMTSP e da FMUSP, que coordenou a pesquisa, a estimativa pode servir como um indicativo da imunidade coletiva da população. “Também chamada de imunidade de rebanho, ela acontece quando um grande número de pessoas é contaminado, a ponto de baixar a taxa de transmissão. Isso pode fazer com que o número de casos diminua, porque não haveria mais pessoas suscetíveis a serem infectadas”, explica ao Jornal da USP. “No caso da covid-19, que é uma doença nova, esse número era calculado a partir de modelos matemáticos teóricos. O que esta pesquisa fez foi produzir uma estimativa da imunidade coletiva baseada em dados reais.”

O estudo mediu a evolução da quantidade de anticorpos para o vírus da covid-19 ao longo do tempo em doadores de sangue, entre os meses de março (início da pandemia) e agosto deste ano, nas cidades de Manaus e São Paulo. “No Brasil, os bancos de sangue são obrigados a guardar as doações durante seis meses”, aponta a professora Ester. “Alguns desses doadores foram sorteados para que amostras de sangue pudessem ser usadas nas análises.”

O professor da Escola Politécnica (Poli) da USP Vitor Nascimento, que ajudou na realização dos cálculos, relata que o resultado dos testes serviu para estimar a taxa de prevalência, ou seja, a porcentagem de pessoas contaminadas em Manaus. “Em junho, depois de serem aplicadas correções nos cálculos, pois a distribuição por idade e sexo dos doadores de sangue é diferente da população em geral, estimou-se uma taxa de infecção de 51%”, destaca. O dado corresponde ao mês seguinte ao pico da epidemia de covid-19 na cidade, acontecido em maio, depois de um crescimento acelerado do número de casos em março e abril.

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No entanto, os pesquisadores observaram que as pessoas que testaram positivo para a doença há mais tempo começaram a apresentar resultado negativo nos testes. “Isso acontece devido à diminuição da quantidade de anticorpos”, ressalta Ester. “Foi preciso fazer uma medida exata desse número, estabelecendo a partir de qual concentração um caso podia ser considerado positivo, para calcular qual era a velocidade da perda de anticorpos e dessa forma realizar a estimativa novamente”, acrescenta o professor Nascimento. Dessa forma, a estimativa foi para mais de 66% da população do município contaminada: 1,4 milhão de pessoas.

Em Manaus, doença se alastrou muito rapidamente, tendo como consequências mortes e sequelas dos que sobreviveram, “num cenário que pode ser considerado uma catástrofe”, comenta o epidemiologista Otávio Ranzani – Foto: Mário Oliveira / SEMCOM via Fotos Públicas
Taxa de infecção

Após as correções nos cálculos, a taxa de infecção da covid-19 foi estimada em 64,8% no mês de junho e 66,1% em julho e agosto. De acordo com a estimativa do IBGE para 2020, a cidade de Manaus possui 2.219.580 habitantes. “O número de infectados em Manaus caiu bastante depois de junho, e isso também poderia influir nos resultados. Também foram feitas análises com outro tipo de teste de anticorpos, para comparar os dados obtidos”, relata Nascimento. “A mesma fórmula foi aplicada em São Paulo, e em agosto estimou-se uma taxa de 22,4%, já ajustada pelo valor da velocidade da perda de anticorpos”. O IBGE estima a população da cidade em 12.325.232 pessoas.

O infectologista André Siqueira, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), comenta que a diferença entre os números estimados para São Paulo e Manaus pode ter relação com a intensidade da transmissão em cada cidade. “Manaus teve um aumento muito rápido e explosivo, inclusive no número de mortes, e depois houve uma queda, o que indica uma mudança na suscetibilidade da população, que já não praticava o distanciamento social”, diz. “Em São Paulo houve, de certa forma, uma postura mais responsável, mais atuante até do poder público, ao instituir medidas de controle da transmissão, o que levou a um achatamento da curva que resulta em uma prevalência menor.”

De acordo com o epidemiologista Otávio Ranzani, pesquisador da FMUSP e do Barcelona Institute for Global Health (ISGlobal), na Espanha, a alta taxa de infecção estimada pela pesquisa em Manaus pode ser explicada pela grande capacidade de transmissão do vírus, a elevada densidade demográfica em algumas regiões de Manaus, onde são comuns residências com muitos moradores, e as medidas de saúde pública insuficientes, que não atingiram toda a população. “Assim, a doença se alastrou muito rapidamente, tendo como consequências as mortes e as sequelas dos que sobreviveram, num cenário que pode ser considerado uma catástrofe”, salienta. “Embora tenha havido uma queda no número de infecções a partir de junho, não se pode afirmar com certeza que há imunidade coletiva, pois essa redução pode ser decorrente de outros fatores, como adoção de medidas de prevenção do contágio.”

Pandemia atingiu proporções alarmantes em Manaus, com quase 4 mil mortes oficialmente atribuídas ao coronavírus. Lotação de hospitais e até enterros coletivos marcaram os piores momentos e nos lembram que a imunidade coletiva antes de haver vacina só pode ser obtida a um alto custo em vidas – e mesmo assim não é garantia de que novos surtos não possam ocorrer, alertam especialistas  – Foto: Divulgação Secom/Manaus

Cautela

Segundo os autores, mesmo levando em conta que novas intervenções e a mudança no comportamento da população possam ter ajudado a limitar a transmissão em Manaus, a taxa de infecção em nível tão alto sugere que a chamada imunidade coletiva teve papel importante para limitar a progressão da epidemia.

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Mas os especialistas também pedem cautela nas conclusões a que o resultado da pesquisa pode levar. Para André Siqueira, como os mecanismos de infecção pela covid-19 ainda não são conhecidos totalmente, não é possível associar os níveis de imunidade coletiva ao controle da doença. “As pessoas que não foram infectadas ou não têm imunidade continuam sendo suscetíveis à covid-19”, afirma. “E se essas pessoas fizerem parte dos grupos de risco, isto é, portadores de outras doenças, idosos e crianças, podem ter maior chance de contaminação, e elas normalmente não são doadoras de sangue. Isso precisa ser levado em conta na análise dos resultados, principalmente porque o relaxamento das medidas de isolamento em algumas cidades pode levar a um aumento do número de casos e da pressão sobre os serviços de saúde.”

Comentando o estudo em seu perfil no Twitter, o professor Paulo Lotufo, da FMUSP, ressaltou o enorme número de vítimas da pandemia na região, uma das mais atingidas, proporcionalmente, pela doença. “Lembrar, antes de mais nada, que o morticínio ocorrido em Manaus atingiu os mais pobres e as populações indígenas em proporção cinco vez maior do que em São Paulo.”

O pesquisador da Fiocruz Julio Croda pontuou também que não se pode considerar uma possível “imunidade de rebanho” obtida dessa forma como política pública, mas sim “a mera constatação de uma tragédia”.

A epidemiologista Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine Institute, alertou para o fato de mesmo essa imunidade alcançada não ser permanente:

Depois de um morticínio desses, com o alto número de suscetíveis ainda existente e uma imunidade natural de apenas alguns meses, uma segunda onda é só questão de tempo. Imunidade de rebanho para covid-19 sem vacina é uma falácia.”

Hospital de campanha de Manaus encerrou atividades por redução de novos casos de covid-19 – Foto: Mário Oliveira / SEMCOM

Situação atual no Amazonas

Em balanço apresentado em audiência pública virtual da Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM), na segunda-feira (21/9), a Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM) aponta que na semana epidemiológica 38 (de 13 a 19 de setembro) houve redução de 29,4% de internações por covid-19 no Amazonas. O estudo também apontou, no mesmo período, redução de 63,1% no interior do Estado e de 1,3% em Manaus.

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O balanço aponta que a média móvel de casos, que mostra a variação dos últimos 14 dias, teve variação de -11,4% no interior, entre os dias 5 e 19 de setembro. No mesmo período foi registrado um aumento de 33,2% na capital.

Os  óbitos tendo o novo coronavírus como causa confirmada registraram estabilidade, com variação de 7,5% no Amazonas na semana epidemiológica 38 (de 13 a 19/9). Em Manaus a variação foi de -8%, enquanto no interior foi registrada variação de 33,3% (de 15 óbitos na semana 37 para 20 óbitos na semana 38).

Os municípios de Manaus, Parintins e Carauari concentram 57% dos óbitos ocorridos na semana 38.

Próximos passos

De acordo com o professor Vitor Nascimento, a pesquisa irá prosseguir com a produção de estimativas de imunidade coletiva em mais seis capitais brasileiras. O estudo é descrito no artigo COVID-19 herd immunity in the Brazilian Amazon, publicado no site Medrxiv em 21 de setembro como preprint. A pesquisa foi realizada com apoio do programa Retrovirus Epidemiology Donor Study (REDS), um projeto de pesquisa financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), nos Estados Unidos, que reúne bancos de sangue de todo o mundo, acompanhando os números de exames positivos para vírus em candidatos à doação. No Brasil a coordenação do REDS é feita pela professora Ester Sabino.

Além da FMUSP e da Poli, o trabalho teve a participação do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP, da Universidade Federal do ABC (UFABC), Universidade de Harvard (Estados Unidos), Imperial College (Reino Unido), Universidade de Oxford (Reino Unido), Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas, Fundação Pró-Sangue – Hemocentro de São Paulo, Fundação Hemominas – Fundação Centro de Hematologia e Hemoterapia de Minas Gerais, Instituto Aggeu Magalhães, em Recife, Instituto Gonçalo Muniz, em Salvador, da Fiocruz, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Vitalant Research Institute (Estados Unidos). A pesquisa contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do programa Todos pela Saúde, mantido pelo banco Itaú Unibanco.

Mais informações: e-mails [email protected], com a professora Ester Sabino, e [email protected], com o professor Vitor Nascimento.

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