A hora do pesadelo das bibliotecas, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

“Estou vagando pelos corredores de uma imensa biblioteca. Num momento ela se parece com a biblioteca da universidade que cursei, no outro é o labirinto cheio de livros do romance ambientado na Idade Média de Umberto Eco que foi transformado em filme.

Algumas prateleiras estão abarrotadas, outras meio vazias. Os livros não estão organizados por assunto. Muitos deles apresentam sinais de que foram abandonados ou maltratados.

Tenho a sensação de que os livros estão em perigo. Em razão disso a biblioteca toda é transportada para o altar de uma catedral. Um pouco depois a própria catedral se transforma num imenso teatro. As prateleiras e os livros estão no palco que fica há vários metros de altura em relação ao público.

Para chegar à biblioteca é preciso subir por uma escada muito frágil e estreita. A escada não é fixa. Quando chego no palco recolho a escada para que os livros fiquem em segurança. Finalmente consigo ficar tranquilo. Os livros estão protegidos, mas em compensação eles perderam sua utilidade em razão de terem sido separados do público. O teatro, entretanto, está vazio.

Ao lado de uma prateleira observo um saco cheio de livros. Quando esvazio o saco e começo a manusear os livros para guardá-los uma moça jovem aparece ao meu lado. Ela diz que aqueles volumes foram separados para serem descartados.

Suponho que ela seja a bibliotecária, mas a juventude dela não me parece compatível com a função que ela desempenha. Então simplesmente ignoro o que ela disse e começo a organizar os livros descartados numa prateleira. Quando consigo terminar minha tarefa noto que os livros se transformam em pó. Todo o conhecimento que eles continham está perdido. A moça ri e diz ‘Não confio em você!’ Aplausos da plateia. Desperto.”

Esse pesadelo estranho, parece estranho, parece estar relacionado a um hábito que eu desenvolvi. Sempre que tenho a oportunidade de ler uma obra antiga presto atenção a autores que são citados e cujas obras desapareceram e não podem mais ser consultadas.

Tito Lívio cita várias vezes Fábio Pictor https://pt.wikipedia.org/wiki/Quinto_Fábio_Pictor. Flávio Josefo se esforça para dar à história dos judeus o mesmo status que a história dos caldeus escrita por Beroso https://pt.wikipedia.org/wiki/Beroso. Aristóteles comenta a obra de Faleas da Calcedônia https://es.wikipedia.org/wiki/Faleas_de_Calcedonia. Plutarco menciona Ctesíbio ao narrar a vida de Demóstenes https://pt.wikipedia.org/wiki/Ctesíbio.

A veracidade dessas citações e comentários não pode ser verificada. Essa ruptura na trama do conhecimento me causa grande desconforto. Sou advogado e, por força do art. 6º do Código de Ética da OAB, não posso fazer citações de doutrina e/ou de jurisprudência sem indicar a fonte para eventual conferência.

Além de apreciar o rigor e cobrá-lo das pessoas que costumam fazer citações de maneira inadequada ou imprecisa, aprendi a amar os livros. Em razão desse amor desenvolvi o inevitável desejo de manusear obras que se perderam no oceano do tempo (como o livro perdido de Aristóteles em torno do qual Umberto Eco estruturou seu romance O Nome da Rosa). Por outro lado, é muito desagradável a sensação de que muitas outras obras irão se perder nos próximos anos em razão da onda de irracionalismo que chegará ao poder com o novo presidente brasileiro.

O anti-intelectualismo de Bolsonaro e dos eleitores dele é um fato deprimente. Quando um Ministro da Educação fala em censurar autores que considera inadequados os rolos de fumaça das fogueiras de livros já podem ser vistos no horizonte. Suponho que a partir de janeiro de 2019 meus livros não estarão mais em segurança. Mon Dieu, mon Dieu, mon Dieu…

 

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