A esquerda entre o pessimismo e o autoritarismo, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

A utopia morreu, vida longa à distopia generalizada

Após o golpe de 2016 a esquerda brasileira oscila entre o pessimismo e o autoritarismo. Transcrevo abaixo dois exemplos desta tendência. Em texto publicado no Facebook, Afrânio Jardim lamenta a desmobilização dos jovens produzida pelo acesso às novas tecnologias da informação.

“A falta de uma consciência crítica torna os jovens ‘massa de manobras’ de grandes projetos econômicos, lastreados em um “marketing” massivo e castrador.”

“Nossos jovens estão sendo transformados em “zumbis”, que realimentam este perverso modelo de sociedade. Estamos a um passo do fascismo.”

 

Num textão cheio de referência eruditas publicado na Revista Cult, Márcia Tiburi critica o uso abusivo da linguagem na internet:

“O preconceito tem a estrutura de nossa relação com a substância, dependemos dele, ficamos como que viciados em ideias e discursos prontos que não passam pelo crivo da reflexão. Repetimos compulsivamente ideias prontas como quem busca o incomparável prazer da primeira vez. O prazer da linguagem que, desacompanhado de pensamento, não existe. Caímos no uso abusivo da linguagem como se ela não gerasse comprometimentos e responsabilidades. Ela serve a muitos como uma droga qualquer que promete recuperar o sentido perdido.”

Tanto Afrânio Jardim quanto Márcia Tiburi parecem pressupor duas coisas. A primeira é que as pessoas perderam algo, a segunda é que o que foi perdido não poderá ser recuperado a não ser mediante a submissão à autoridade de uma determinada modalidade de discurso.

Na Antiguidade clássica o escravo acreditava na virtude da escravidão que lhe havia sido imposta pela derrota militar. Na Idade Média a fidelidade do servo da gleba era a regra, ele aceitava voluntariamente os abusos cometidos pelo senhor feudal e trabalhava de graça nas terras dele. A ética do trabalho que sustenta o capitalismo desde que a Revolução Francesa supostamente libertou os cidadãos da servidão feudal.

Nos séculos XIX e XX, centenas de milhões de homens livres foram doutrinados, treinados, mobilizados e morreram nas guerras mecanizadas entre Estados modernos por razões econômicas que raramente os soldados compreendiam. É esse o passado que Afrânio Jardim e Márcia Tiburi presumem ser uma Idade de Ouro?

A desmobilização das novas gerações e o tribalismo consumista fomentado pelas novas tecnologias da informação (que possibilitam e se nutrem dos abusos da linguagem) têm ao menos uma virtude. Assim como mantém o status quo eles o torna mais frágil, pois nenhum Estado conseguirá mais recrutar e colocar num campo de batalha exércitos com milhões de soldados.

A fragilidade do real é evidente. Isso explica tanto o desespero dos generais quanto o desejo que os capitalistas nutrem de criar exércitos de robôs, muito embora esses sejam vulneráveis a ação dos hackers. Se olharem para o futuro, tanto Afrânio Jardim quanto Márcia Tiburi conseguiram ver que os novos revolucionários não precisarão escrever teses e jornais como Lênin e Trotsky, nem serão guerrilheiros como Mao Tsé-tung e Fidel Castro. Eles serão programadores de computador que abusam da linguagem como Assange e Snowden.

A linguagem é um fenômeno histórico. Ela está sempre sujeita a sofrer as consequências das novas formas pelas quais é transmitida. Da oralidade para a escrita ocorreu o primeiro salto. Todos os demais se tornaram realidade em virtude dos suportes que foram sendo criados e substituídos (tabletes de barro, estelas de pedra, couro, tabletes de madeira recobertos com cera, papiro e papel). Pacientemente manuscrita ou freneticamente impressa, a linguagem chegou ao universo digital em que a modalidade oral recuperou parte de sua força original por causa do vídeo.

Ao ver os primeiros tabletes de madeira recobertos com cera para escrita os romanos mais velhos e conservadores provavelmente tiveram a mesma reação que Márcia Tiburi. Que absurdo… agora os textos das fórmulas jurídicas e sagradas gravadas em pedra podem ser copiadas e apagadas, podem ser até alteradas durante o aprendizado. Quando manusearam os primeiros livros impressos os copistas devem ter ficado tão deprimidos quanto Afrânio Jardim. Sacrilégio… o que havia de especificamente humano na transmissão do conhecimento, o lento trabalho de copiar e decorar textos, deixou de ser uma realidade.

Em constante mutação ao sabor das novas tecnologias de registro e transmissão, a linguagem aboliu qualquer ponto de referência estável. Quem não for capaz de conviver com isso está fadado ao pessimismo e ao neoludismo.

Afrânio Jardim teme o fascismo, mas se esquece quanto o realização do ideal fascista dependia de uma mobilização ideológica que se tornou impossível no contexto atual.  Márcia Tiburi sonha com uma linguagem imune aos abusos como se não fosse um fenômeno sujeito à constante evolução.

Preocupados com o presente os ideologos da esquerda escorregam e caem na superfície lisa de uma realidade escorregadia que não pode mais ser domesticada por ninguém. Todavia, o tombo será ainda maior para aqueles cujo capital foi transformado em fluxos de dinheiro virtual que podem ser embaralhados, em arquivos criptografados secretos que já são furtados e divulgados, em programas de computador que podem ser hackeados e corrompidos para fazer as máquinas automatizadas de matar atacarem seus próprios comandantes.

No admirável mundo novo não haverá utopia para ninguém, lamentam Afrânio Jardim e Márcia Tiburi. É verdade, mas eu não sou pessimista. Prefiro acreditar que a distopia em que fomos condenados a viver tem um grande potencial libertador, pois ela irá democratizar o sofrimento rompendo todas as barreiras que separam os capitalistas das suas vítimas.

A imagem no principio é um fotograma do filme Amadeus (1984). Na respectiva cena o rei benevolente diz a Mozart que a música dele é excelente, mas tem muitas notas. Quem está numa posição de poder nem sempre é capaz e apreciar a música tal como ela foi composta. Isso também é válido para os ideólogos de esquerda que querem ouvir apenas as partituras que eles mesmos estão compondo.

 

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