Adolf Hitler e Anne Frank: metáfora da nova normalidade, por Fábio de Oliveira

Ao Sistema de Justiça foi possível trocar a legalidade pelo seu simulacro, a impessoalidade pela seletividade

Por Fábio de Oliveira Ribeiro 
 
Adolf Hitler e Anne Frank, amigos inseparáveis (uma metáfora da nova normalidade)
 

Há alguns anos estamos passando por um processo evidente de modificação dos padrões de normalidade. 

Comecei a me dar conta disso quando pessoas suspeitas e até inocentes começaram a ser amarradas, linchadas e até mortas nas ruas sob aplausos efusivos de alguns jornalistas. O incentivo ao crime ganhou status de padrão público de funcionamento do Estado durante a operação Lava Jato.

Todas as ilegalidades cometidas por Sérgio Moro foram sendo imediatamente removidas do debate público pela Rede Globo. O clã Marinho ungiu o juiz da 13a Vara Federal de Curitiba de poderes excepcionais e ele não hesitou em utilizá-los para ajudar a derrubar Dilma Rousseff grampeando criminosamente o telefone dela e vazando o conteúdo para os jornalistas da Globo. 

A deposição de Dilma Rousseff, uma farsa evidente e grotesca, foi descrito pela imprensa como sendo juridicamente legítima. A imprensa internacional, contudo, percebeu a anomalia e disse claramente que a presidenta petista sofreu um golpe de estado disfarçado de processo de Impedimento. Consumado o golpe, ficou provado que Dilma Rousseff não cometeu nenhuma ilegalidade. Não só isso, imediatamente o Congresso Nacional autorizou o usurpador Michel Temer a dar pedaladas fiscais e ele tem feito isso despudoradamente para garantir uma maioria parlamentar instável.

Os padrões éticos do jornalismo foram adulterados para legitimar o novo sistema de poder. Mentir, omitir, deformar, inventar, distorcer e adulterar os fatos quando a notícia não se ajusta à “linha da casa” se tornou algo corriqueiro. Sérgio Moro é considerado um juiz isento apesar de viver sendo fotografado em atividades político-partidárias do PSDB. Suspeito de parcialidade é o desembargador que concedeu HC a Lula e que nunca foi visto em congressos do PT.

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A Procuradora Geral do MPF quer aposentar compulsoriamente o desembargador que concedeu HC a Lula porque ele ousou fazer o que lhe competia empregando a liberdade funcional que a Lei lhe confere. Todavia, Raquel Dodge não fez nada contra o juiz da Lava Jato que, estando de férias, impediu os policiais de cumprirem uma ordem judicial válida e eficaz (algo que é descrito como crime pelo art. 330, do Código Penal).

Os padrões jurídicos foram invertidos com ajuda do neojornalismo. A CF/88 prescreve que o Sistema de Justiça deve respeitar os princípios da legalidade e da impessoalidade, mas a imoralidade e a ação criminosa se tornaram a regra de um jogo protagonizado pelos procuradores e juízes federais protegidos pela imprensa. Já é possível criminalizar inocentes considerados indesejados (inferiores na linguagem nazista) e garantir a impunidade de criminosos (membros da raça superior, de acordo com o cânone hitlerista). Quem dita os padrões jurídicos de funcionamento do Estado de exceção são os comentaristas de televisão.

Procuradores e juízes podem transformar em sentença tudo aquilo que os jornalistas dizem. Aquilo que eles desautorizarem é considerado automaticamente ilegal. Nesse contexto, ao Sistema de Justiça foi possível trocar a legalidade pelo seu simulacro, a impessoalidade pela seletividade. Há aqueles que devem ficar presos por causa de crimes que nem mesmo poderiam ter sido cometidos (caso de Lula). E há aqueles que não devem nem mesmo ser processados apesar de existirem provas de autoria e materialidade de crimes financeiros (todos processos contra José Serra, Aloysio Nunes e Aécio Neves, por exemplo, estão sendo acintosamente arquivados).

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Nesse contexto novo, tudo é possível. Jornalista divulga telefone de desembargador para que ele seja ameaçado de morte. Alimentos saudáveis não podem ser vendidos nos supermercados, a agricultura tóxica é oficialmente incentivada. Ministro do STF diz que Lula só será solto se desistir de disputar a eleição. Comentarista de economia leva bronca na TV porque não sabe fazer operações matemáticas elementares. Trair o país apoiando a venda da Embraer à Boeing se tornou demonstração de patriotismo. Não foi por acaso que o Ministro da Justiça mandou a PF descumprir o HC concedido a Lula. Ele sabia que essa anomalia também seria aceita como algo normal.

Assassinar reputações se tornou algo tão normal quanto não encontrar os assassinos de pessoas consideradas indesejadas. Marielle Franco e Marcos Vinícius da Silva são símbolos da nova realidade. O direito à vida vai deixando de existir à medida que alguns homicídios não podem mais resultar em condenações.

Marcola e Eduardo Cunha, dois criminosos que cumprem sentenças condenatórias transitadas em julgado, foram entrevistados pela TV na prisão. Lula, cuja condenação não transitou em julgado, não pode mais falar à população brasileira. O Sistema de Justiça outorgou a si mesmo o direito de calar o candidato que lidera a corrida presidencial. Os nazistas também silenciavam suas vítimas, mas nem por isso eles ganharam a guerra.

Derrotado na II Guerra Mundial o nazismo quer ressurgir das cinzas no Brasil. As suásticas se multiplicam à exaustão na internet onde grupos nazistas crescem como cogumelos apoiados por um candidato presidencial de extrema direita. A Polícia Federal, sempre tão diligente em perseguir os inimigos do novo sistema de poder (ou seja, os petistas e os simpatizantes de Lula) faz de conta que o nazismo não é uma ideologia racista (criminosa de acordo com a legislação penal brasileira) e genocida (incompatível com o sistema constitucional brasileiro).

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A foto que ilustra esse texto é um poderoso símbolo da nova normalidade. Ela foi tirada por mim na data de hoje num corredor do piso térreo do Super Shopping em Osasco SP (ao lado do Walmart). Lado a lado na banca de livros são exibidas pilhas de exemplares de Mein Kampf e do Diário de Anne Frank. Na realidade alternativa em que fomos condenados a viver o algoz e sua vítima inocente podem coexistir como produtos expostos ao consumo de adultos e adolescentes sem qualquer mediação crítica.

Ao comentar a condenação do Brasil na OEA em razão do assassinato de Herzog ter ficado impune, Jair Bolsonaro disse que “Suicídio acontece, pessoal comete suicídio.” A foto prova que, num certo sentido, o candidato da extrema direita está certo, muito embora tenha sido incapaz de construir corretamente a frase. A sociedade brasileira está realmente se suicidando. Há menos de 80 anos milhares de pracinhas deram suas vidas e foram mutilados nos campos de batalha da Itália para derrotar os nazistas, mas agora o nazismo está sendo espalhado pelo Brasil como se isso fosse normal.

 

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12 comentários

  1. Fizeram um escraceu sobre os

    Fizeram um escraceu sobre os diários de Anne Frank. Deve ter sido porque foi  um dos poucos que foram encontrados.

      Houve centenas de outros que a história não registra.

          Por exemplo, no livro Trebinka  ( campo de concentração nazista)

    ,um sobrevivente diz:

    ”Meu medo era morrer e não ter ninguém pra contar a história”.

        Dos milhares que passaram e foram mortos por  lá, só 6 sobreviveram.

    Nem quero buscar detalhes de quem escreveu, sobreviveu ou comeu o pão que o diabo amassou.

              Meu foco é outro:

       Anne Frank NÃO sofreu nem um tiquinho do que 6 milhões de judeus sofreram.

                    E se tornou hit.

                Não entendo.

    • Eu entendi. Você escreve como

      Eu entendi. Você escreve como um excelente discípulo de Adolf Hitler. Sua argumentação aparentemente lógica é semelhante a dele, seu estilo violento e irracional também. Não ficarei surpreso quando você acabar como seu mestre: cometendo suicídio num bunker.

    • Desculpe, mas você escreveu

      Desculpe, mas você escreveu bobagem em cima de bobagem. 

      E como você consegue medir que ela sofreu quase nada que os outros milhões de judeus mortos durante a guerra? 

       

  2. A pobreza do sectarismo ideológico
    Tenho comentado com amigos como o debate ideológico maniqueísta dos últimos anos no País tem empobrecido a compreensão política e impedido a sociedade de amadurecer. O Sr. Fábio é apenas mais um nessa construção da irracionalidade, do emburrecimento, da canastrice sectária. É a anti-formação de uma consciência política que ajude a pensar melhor o País. Lamentável.

  3. Tá tudo muito misturado e

    Tá tudo muito misturado e confuso.

    Divulgaram há poucos dias uma palestra de Bolsonaro num recinto de judeus. O que isso significa? 

    Eu sempre questiono e questionarei as posições de Israel contra Palestinos, e de judeus com suas propagandas muito convenientes sobre Holocauto e Anne Franck. Primeiro porque, de tanto se convencer o povo da desgraça cometida por Hitler contra os judeus – o que ninguém pode duvidar -, nunca, jamais, vi nos diversos documentários que abundam na Internet, citação a outros seres humanos, tão humilhados e selvagemente torturados e mortos igualmente. Fica uma história mal-contada. Como se os judeus, considerados por Hitler uma raça de imundos, depois da guerra passassem a ser uma raça superior àquela que também foi para os campos de concentração. Por quê isso? Porque eram prostituta, gays, ciganos, etc.?

    E qual a razão de um Bolsobosta ser aceito na casa de representantes de Israel com destaque e aplausos?

    A matéria poderia ter dispensado Anne Franck e Hitler.

     

    • Quando a matéria for sua você

      Quando a matéria for sua você fara as escolhas que considerar adequadas.

      As minhas escolhas faço eu mesmo. 

      Não preciso nem da sua autorização, nem da sua aprovação. 

      Se você ficou incomodado meu texto cumpriu sua finalidade.

    • censuraram teu comentário

      isto só reforça o diversionismo dos blogs de esquerda quando o assunto é a gritante possibilidade da participação de Israel através de menbros da comunidade judaica local no golpe de 2016. DIVERSIONISMO.

  4. Aplaudindo de pé.
    Essa coisa
    Aplaudindo de pé.

    Essa coisa do assassinato de reputação e de humilhação pública é esgarçamento decorrente da “licença” concedida aos poucos em detrimento dos muitos. E perpassa nesse momento todas as instâncias e camadas da convivência. Não é nada novo. Vem de tempos. Mas cresce e se aprofunda velozmente diante da permissividade geral. Gritar e humilhar vai muito além de falta de noção e não mais dá pena: é intenção das mais perigosas.

    Excelente!

  5. + comentários

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