Brasil: nação ou pátria sobre rodas?, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Brasil: nação ou pátria sobre rodas?, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Desde que conseguiu derrubar Dilma Rousseff o golpe “com o STF com tudo” se esforçou muito para agradar o mercado financeiro. Mas nada do que foi feito resultou em crescimento econômico, redução da taxa de desemprego e aumento da arrecadação fiscal. A receita neoliberal, rejeitada em vários países (a partir de hoje inclusive na Espanha) só foi capaz de transformar o Estado brasileiro num apêndice supurado das principais Bolsas de Valores na Europa, nos EUA e na Ásia.

A queda de Pedro Parente, uma evidente derrota do mercado financeiro, deve ser comemorada. Mas a mim parece evidente que ela não basta. Como Laura Carvalho deixou claro no seu livro:

“…sem uma revisão da PEC do teto de gastos, é seguro afirmar que os investimentos públicos em infraestrutura não atuarão como motor de crescimento na próxima década. A progressiva extinção dos mecanismos de financiamento de longo prazo a juros subsidiados também deve dificultar que o setor privado assuma esse papel. Para evitar outra década perdida, não basta parar de cavar o fundo do poço. É preciso parar de destruir as cordas que nos permitem sair dele.” (Valsa brasileira – do boom ao caos econômico, Laura Carvalho, editora Todavia, São Paulo, 2018, p. 147)

Mas para recolocar o futuro do Brasil e o povo brasileiro no Orçamento da União será preciso restaurar o conceito de nação. Não é preciso purificar a nação (como querem os extremistas de direita), nem tampouco humilhar os derrotados (como tem feito o usurpador Michel Temer) ou criar uma república operária (como desejam alguns sindicalistas). A fragilidade do país não é sua diversidade. Muito pelo contrário, ela pode ser nossa força desde que seja possível “…convencer boa parte da elite econômica do país de que a democracia e a inclusão social rendem bons frutos.” (Valsa brasileira – do boom ao caos econômico, Laura Carvalho, editora Todavia, São Paulo, 2018, p. 150).

Não é possível existir uma nação em que existam duas populações, a maior das quais excluída totalmente dos benefícios da economia e da civilização. A existência de serviços públicos é essencial, mas que para isso ocorra todos devem pagar impostos (cada qual segundo sua capacidade). É preciso definir quais são os interesses de longo prazo da nação e defendê-los das agressões externas e internas.

A riqueza do petróleo, que vem sendo transferida para o estrangeiro, deve voltar a irrigar e a fortalecer a economia brasileira. Considerada amarga pelo mercado financeiro, esta estratégia não pode ser substituída por outra. Nos últimos dois anos o mercado financeiro sugou tudo o que pode do Brasil e não deu em troca nada além de mais desemprego, desespero, desilusão e fome.

O nacionalismo não precisa ser extremado. Mas também não pode ser reduzido à pátria de chuteiras. Nesse sentido, devemos considerar um avanço o pouco interesse que a Copa da Rússia está despertando na população. A crise dos caminhoneiros também demonstrou que uma nação não pode ser construída apenas sobre rodas.

A nação brasileira precisa voltar a planejar seu futuro. Investimentos estatais de longo prazo devem ser feitos para reduzir a importância do transporte rodoviário. Só assim as greves dos caminhoneiros e dos petroleiros não irão imediatamente se transformar em crises políticas e até institucionais.

Há pouco mais de dois anos os caminhoneiros ajudaram a derrubar Dilma Rousseff. Esta semana eles derrubaram Pedro Parente. É bem provável que eles consigam derrubar o usurpador Michel Temer. Destruir um governo e até um Estado é algo relativamente fácil desde que as condições sejam favoráveis e os meios estejam à disposição dos interessados. Construir uma nação é algo muito mais difícil.

O que ocorrerá se os caminhoneiros derrubarem Michel Temer. É óbvio que, como muitos, também vou comemorar. Mesmo assim, é preciso pensar no futuro. O programa econômico dos caminhoneiros não é nacional, no máximo eles têm reivindicações específicas (algumas das quais não poderão ser atendidas porque acarretarão prejuízos a outros segmentos econômicos ou à economia como um todo).

Entre os caminhoneiros existem aqueles que defendem a democracia e alguns que querem uma intervenção militar. Eles estão unidos por razões econômicas, mas no plano político a unidade deles é insustentável. Eles não constituem um partido e não tem um único programa político. As diferenças entre eles não podem ser harmonizadas. Os caminhoneiros podem até apoiar um novo governo, mas qualquer partido que se apoiar neles estará fadado cair assim que fizer algo que afete os interesses de uma única categoria econômica/profissional.

Numa sociedade complexa como a Brasileira, a diversidade de interesses e de crenças deve ser reconhecida e harmonizada. Arestas devem ser aparadas com argumentos e convencimento. Regras gerais e abstratas devem ser discutidas aprovadas e aplicadas a todos sem distinção. O uso da força bruta parece uma solução, mas apenas reforça ódios e alimenta a discórdia.  

O pacto político estruturado através da Constituição de 1988 foi abalado pelo golpe de 2016. Ele não será restaurado mediante a adoção de medidas paliativas. Esquerda e direita tem que se comprometer com as eleições e com o resultado das urnas. Ataques à democracia como aqueles que foram promovidos pelos derrotados em 2014 (refiro-me aqui especificamente a Aécio Neves e a imprensa) não devem ser apenas rechaçados. Eles devem ser punidos.

A democracia não pode ser considerada um valor transitório condicionado à vitória ou derrota nas eleições. As instituições democráticas devem ser defendidas com vigor pelo Judiciário e pelo MPF, mas para que isso ocorra o princípio da igualdade deve ser respeitado. Enquanto estes dois órgãos estatais perseguirem petistas e protegerem tucanos não haverá paz, pois a desigualdade de tratamento é o fermento das revoluções e da terra devastada.

O controle ou censura da imprensa é repugnante. Não menos repulsivo é o abuso cotidiano que os veículos de comunicação tem praticado ao defender o indefensável, distorcer informações, inventar notícias, omitir verdades e atacar sistematicamente um partido porque o partido dos jornalistas foi incapaz de ganhar as eleições. Pouco antes do golpe de 1964, Adalgisa Nery publicou uma obra que merece ser relida com atenção. Disse ela:

“Não é necessário possuir sensibilidade incomum, nem mesmo boa cultura política, para constatar que no momento o rôlo compressor dos grupos econômicos internacionais movimenta-se contra o Brasil. Eisenhower, quando já no fim do seu govêrno, fez ao seu povo declarações da maior gravidade para os destinos da América Latina destacando principalmente o Brasil. A ‘Hansons’s Letter’ publicou trecho do seu discurso referente ao nosso País, mais ou menos nestes têrmos: ‘O Brasil está crescendo em força, está tomando atitudes de independência que precisam ser contidas com uma lição drástica,’ A lição, caros leitores, está funcionando. Articulados e dinâmicos estão os elementos golpistas e entreguistas. O que sentimos no momento no Brasil é o engrandecimento da ação imperialista adotando meios sutis ou não, manobrando a chamada grande imprensa, o rádio, a televisão, alguns comandos militares, setores eclesiásticos e industriais. Não utiliza apenas os inocentes úteis. Serve-se da intriga em todos os tons, lança a desconfiança entre indivíduos do mesmo grupo, pulveriza a unidade brasileira quando essa unidade representa valiosa trincheira de uma causa nacional.” (Retrato sem retoque, Adalgisa Nery, editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1963, p. 69/70)

Na sua carta de renúncia, Pedro Parente disse que entregou o que prometeu. Não sabemos exatamente quais promessas o ex-presidente da Petrobras fez e a quem elas foram feitas. Mas sabemos exatamente quais são os resultados da gestão dele à frente da petrolífera brasileira: o Brasil ficou mais pobre e perdeu sua autoconfiança, a nação está dividida e politicamente instável. Não foi por acaso que chamei Parente de “o destruidor do Dharma” https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/pedro-parente-o-destruidor-do-dharma-por-fabio-de-oliveira-ribeiro.

A criminalização da política e a politização da religião pelos evangélicos agravam a crise deliberadamente amplificada por Pedro Parente. A descrença no regime democrático aumentou e algumas autoridades (inclusive no Judiciário e no MPF) parecem querer enterrar de vez a Constituição de 1988. Mesmo preso Lula foi lançado à presidência da república. Espero que o PT se mantenha coeso em torno do seu líder, mesmo que ele seja impedido de disputar as eleições. Nesse momento, mais do que ser um ex-presidente popular que conduziu o país durante o Milagrinho, Lula é um símbolo do regime político que queremos e que merece ser defendido contra os seus inimigos dentro e fora do Brasil.

Apesar das evidentes demonstrações de submissão que foram dadas por Michel Temer (destruição da indústria naval, redução da exportação de carnes, transferência para os EUA dos frutos econômicos das nossas jazidas petrolíferas, etc…) a Casa Branca sobretaxou as exportações de aço do Brasil para os EUA agravando a situação econômica do país. O que o governo brasileiro fez? Nada. Absolutamente nada. Nem mesmo protestou na OMC.

Nietzsche questiona qual seria nossa reação se soubéssemos que fomos eternamente condenados a repetir os mesmos erros e acertos do passado. Os historiadores dizem que os fatos não se repetem e que o eterno retorno é uma ilusão criada pelos ideólogos que se apropriam da história para usá-la politicamente. Os marxistas dizem que a tragédia se repete como farsa. E há até quem diga que no Brasil tudo se repete como farsa da farsa da farsa http://midianinja.org/news/tudo-se-repete-como-farsa-da-farsa-da-farsa/.

Nós não estamos em 1963. A Guerra Fria, um fenômeno mundial que alimentou a paranóia política que ajudou a desencadear o golpe de 1964, já acabou. Tudo indica que o século XXI será chinês assim como o século XX foi norte-americano e soviético. Mesmo assim é preciso refletir com carinho sobre as palavras de Eisenhower reproduzidas por Adalgisa Nery. Se não fizermos isso não conseguiremos reerguer a nação brasileira.

‘O Brasil está crescendo em força, está tomando atitudes de independência que precisam ser contidas com uma lição drástica’

Essas são palavras que poderiam perfeitamente ter sido ditas por Donald Trump quando ele chamou os brasileiros de porcos. Do ponto de vista dos norte-americanos o Brasil é um concorrente. Uma potência regional que se tornou incômoda ao construir seu próprio espaço internacional durante os governos Lula e Dilma. A participação ativa da Embaixada dos EUA no golpe de 2016 é um fato, o desprezo que Donald Trump devota ao nosso país mais do que evidente.

A covardia do governo Michel Temer não trouxe os resultados que a imprensa imaginava. Os últimos dois anos provaram satisfatoriamente que o mercado financeiro não premia os países subservientes, ele sabe apenas pilhar os países fracos. A unidade de propósitos em torno da defesa do petróleo pode vir a ser uma fonte tanto de recursos quanto de força. O povo forte mencionado por Dilma Rousseff precisa se levantar novamente. Não para agredir as outras nações, mas para afirmar diante delas seus direitos nacionais.

 

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3 comentários

  1. desde que seja

    desde que seja possível “…convencer boa parte da elite econômica do país de que a democracia e a inclusão social rendem bons frutos.”

    Esse evidentemente é o problema. Não é possível convecer parte significativa da burguesia brasileira de que democracia e inclusão social rendem bons frutos. Até por que não rendem. O investimento em educação, ciência e tecnologia, saneamento básico, infra-estrutura de comunicações e transportes, é proibitivo.

    Então não vamos tentar convencer a elite econômica de algo que não interessa a ela, e não é sequer verdade. Vamos ter de impor à elite econômica o desenvolvimento do país, por que ela lucra com o subdesenvolvimento.

    De outra forma, preparemo-nos para a próxima facada nas costas, por que ela virá, tão certo quanto o próximo pôr-do-sol.

  2. A “elite” brasileira odeia o

    A “elite” brasileira odeia o Brasil e os brasileiros. Entendo o senso de realismo do Fábio, mas nada de bom virá das castas privilegiadas. Caso voltemos a ter um governo com algum grau de nacionalismo, a única saída para o desenvolvimento social e econômico é um capitalismo de Estado, modelo chinês.

  3. Conversa pra boi dormir

    Golpe de Estado foi para agradar o sistema financeiro. Até as baratas do Planalto sabem disso.
    Ora bolas, se foi para agradar o sistema financeiro como poderia resultar em crescimento econômico, redução da taxa de desemprego e aumento da arrecadação fiscal?

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