Bresser Pereira visita o “Distrito 9” brasileiro, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Bresser Pereira visita o “Distrito 9” brasileiro

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Em texto divulgado hoje no Facebook, o professor Bresser Pereira fez uma sofisticada interpretação do que está ocorrendo no Brasil. Disse o professor:

“A ortodoxia quer apenas ajuste fiscal, porque o custo do ajuste cai inteiramente em cima dos assalariados, que, diante da resultante recessão, perdem seus empregos e veem seus salários diminuir em termos reais. Se, além do ajuste fiscal limitado à despesa corrente, o governo reduzisse os juros e depreciasse o câmbio, os rendimentos dos rentistas sob a forma de juros, dividendos e aluguéis perderiam valor, como acontece com os salários. Assim os rentistas partilhariam com os trabalhadores o custo do ajuste, esta é a última coisa que interessa aos rentistas e à ortodoxia liberal que os representa.”

Bresser Pereira evidencia que o usurpador tinha outras opções, mas que ele preferiu sacrificar os interesses dos pobres trabalhadores no altar ungido pelos banqueiros para a adoração do deus juros. O neoliberalismo é na verdade um culto satânico que prega a exclusão social como uma maneira de garantir a multiplicação do dinheiro.

Ao ler o texto de Bresser Pereira lembrei-me do filme Distrito 9 (filme 2009). Sem fazer qualquer tipo de concessão para as regras estabelecidas pelos grandes estúdios de cinema, este filme procura mostrar exatamente como os seres humanos reagem diante dos “outros”: com discriminação, hostilidade, insulamento forçado, agressões verbais e físicas, degradação social fabricada e genocídio “por culpa das vítimas”.

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Os “outros” só começam a ser compreendidos por nós quando nós somos transformados no “outro” (como no caso do protagonista do filme Distrito 9). Mas mesmo quando isto ocorre a lógica da mútua exclusão continua operando em sentido inverso.

Mesmo utilizando a ficção científica para denunciar o racismo, Distrito 9 cometeu um deslize. É impossível deixar de notar a forma extremamente negativa como o filme retrata os nigerianos. Em District 9 os nigerianos são os traficantes de drogas e de armas, ladrões e praticantes de rituais bizarros. Eles são piores do que os alienígenas, não muito diferentes dos brancos que criaram a reserva alienígena.

As favelas filmadas nas tomadas aéreas são reais mas parecem irreais. Esta é uma triste ironia do filme. Os efeitos especiais do filme são magníficos. O espectador não consegue distinguir o que é real do que foi construído por computação gráfica.

Distrito 9 é um excelente material pedagógico. O filme pode ser utilizado nas aulas de História do Brasil para provocar um debate sobre a maneira como nosso país nasceu.

Nos primórdios da colonização (eufemismo para invasão), os índios foram sendo capturados no interior para liberar territórios para os colonos e confinados em aldeamentos inter-tribais. As condições destas reservas eram deploráveis e produziam a degradação moral e física dos índios. Os que conseguiam sobreviver eram catequizados (perdiam sua identidade cultural), muitos acabavam sendo vendidos como escravos.

Como a mortandade dos índios era grande e eles não se adaptaram ao cativeiro, os colonos foram obrigados a importar mão de obra. Os negros foram trazidos da África e confinados nas senzalas. Durante 350 anos os negros foram moídos na lida para enriquecer os colonos, cujos descendentes ainda agem como se fossem donos do Estado e senhores de escravos.

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Durante aquele período algumas rebeliões de índios e de negros colocaram em risco o empreendimento colonial. As duas mais famosas foram a Confederação dos Tamoios no século XVI e o Quilombo dos Palmares no século XVII. A primeira foi liderada por Cunhambebe e quase inviabilizou a capitania de São Paulo. A segunda se tornou tão poderosa que obrigou a capitania de Pernambuco a contratar os serviços da tropa de jagunços comandada pelo paulista Domingos Jorge Velho. As reações ao confinamento e à degradação moral e física em Distrito 9 podem ser considerados ecos cinematográficos distantes das rebeliões de índios e negros no período colonial.

O filme Distrito 9 também pode ser considerado uma metáfora do próprio sistema educacional. Tratado como se fosse enclave da esquerda dentro de um Estado que foi projetado para ser programaticamente de direita, racista e excludente, o sistema educacional tem sido atacado de diversas maneiras: depreciação jornalística, congelamento e redução de salários, deterioração dos prédios e materiais pedagógicos por falta de investimentos, etc…

Desprezados, dezenas de milhares de professores são obrigados a conspirar contra o sistema como alguns personagens do filme. Todavia, há professores que assumem os valores distorcidos do Estado excludente e preferem hostilizar os alunos. Não por acaso, milhões de alunos também  se sentem hostilizados em virtude das péssimas condições das escolas onde eles são temporariamente confinados como se fossem lixo do país.

Após o golpe de 2016, o usurpador Michel Temer congelou os investimentos em educação por 20 anos. Isto certamente irá piorar muito a situação das escolas públicas. Mais e mais elas serão transformadas em minúsculos Distritos 9 nas periferias das grandes cidades brasileiras.

Os hospitais públicos tambeḿ foram transformados em enclaves alienígenas dentro do Brasil, pois os investimentos em saúde também foram congelados por 20 anos. De fato, em apenas alguns meses o usurpador transformou 190 milhões de brasileiros em alienígenas sem direitos políticos, sociais, trabalhistas, petrolíferos e previdenciários. O Brasil inteiro foi transformado num Distrito 9 para que, como disse Bresser Pereira, os rentistas possam continuar a receber juros elevados.

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No filme, a resistência alienígena se esforça para conseguir combustível para abastecer a nave espacial e fugir da terra. Para recuperar a posse de seu país 190 milhões de brasileiros abandonados à própria sorte por Michel Temer terão que invadi-lo. Fugir não é uma opção para as vítimas do neoliberalismo brasileiro.

 

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8 comentários

  1. Artigo muito interessante,

    Artigo muito interessante, mas o autor ficou demasiadamente empolgado. É fato que, sobretudo no sul e particularmente em São Paulo e também no Pará, que os colonizadores formavam expedições armadas para entrar pelo interior à procura de índios para escravizar, nos primórdios da colonização.

    Mas não aconteceu no Brasil a instituição de reservas indígenas inter-tribais onde “as condições destas reservas eram deploráveis e produziam a degradação moral e física dos índios.Os que conseguiam sobreviver eram catequizados (perdiam sua identidade cultural), muitos acabavam sendo vendidos como escravos”. Nada disso. Desde que os índios se afastavam dos brancos cada vez mais procurando se internar pela floresta longínqua, o objetivo central ds expedições não era “liberar terras para os colonos”, e sim a própria escravidão. E esta contingência logo foi abandonada, em razão do início da escravidão negra, ainda em meados do sécculo XVI. Com a gestão do Marquês de Pombal, os índios foram declarados homens livres.

    A liberação paulatina de terras indígenas, feita por uma implacável guerra de conquista, e a criação de reservas inter-raciais insalubres para confinar os prisioneiros indígenas e condená-los à morte lenta e ao desaparecimento, é a característica primordial da colonização estadunidense. O autor rebateu para o Brasil a saga dos indígenas norte-americanos. No Brasil não aconteceu nada daquilo, embora até o início do século XX ainda matassem no Sul, como animais, os índios que surgissem nas terras recentemente colonizadas por europeus.

    A maior guerra entre colonizadores “brancos” e uma confederação intertribal, no Brasil, foi a Guerra dos Bárbaros, que aconteceu no Ceará, e que contou com selvageria dos dois lados, e com infames estratagemas de guerra por parte dos “brancos”, que não raro eram excomungados pela Igreja por sua selvageria. Esta guerra terminou com um empate, sem vencedor. Os índios não saíram de suas terras, e suas aldeias foram aos poucos sendo assimiladas pelas cidades, que impuseram sua cultura e conservaram sempre os indígenas em condição de inferioridade social, como trabalhadores pagos a preço vil, não raro apenas com cachaça. Estes desconfiados indigenas proliferaram e hoje perfazem a base da pirâmide social da população cearense. Eles, graças à guerra, aprenderam a não confiiar em palavra de homem branco, e conservam essa desconfiança até hoje. Milhões deles constituem a população mais pobre do Ceará, onde os escravos negros eram quase inexistentes, já que naquele estado não havia nem ouro nem terras boas para a cana de açúcar.   

    • de onde vem esta história toda aí?!

      “A maior guerra entre colonizadores “brancos” e uma confederação intertribal, no Brasil, foi a Guerra dos Bárbaros, que aconteceu no Ceará, e que contou com selvageria dos dois lados, e com infames estratagemas de guerra por parte dos “brancos”, que não raro eram excomungados pela Igreja por sua selvageria. Esta guerra terminou com um empate, sem vencedor. Os índios não saíram de suas terras, e suas aldeias foram aos poucos sendo assimiladas pelas cidades, que impuseram sua cultura e conservaram sempre os indígenas em condição de inferioridade social, como trabalhadores pagos a preço vil, não raro apenas com cachaça. Estes desconfiados indigenas proliferaram e hoje perfazem a base da pirâmide social da população cearense. Eles, graças à guerra, aprenderam a não confiiar em palavra de homem branco, e conservam essa desconfiança até hoje. Milhões deles constituem a população mais pobre do Ceará, onde os escravos negros eram quase inexistentes, já que naquele estado não havia nem ouro nem terras boas para a cana de açúcar.”

      Qual a fonte disso ^ ?

  2. Também podemos afirmar que as

    Também podemos afirmar que as “elites” são contituídas por alienígenas, na medida em que veem o povo como algo estranho e que deve ser explorado até a extinção. 

  3. Muito bom. Mas nada adianta sem boicote ao Itau,

    Bradesco e Santander. Não adianta nada lutar contra Temer porque ele é substituível, assim como todos os 3 poderes. Só “muda” para continuar a mesma coisa. Aliás os 3 poderes de fato são um só: a troika Itaú-Bradesco-Unibanco.

    Enquanto a população dos distritos 9 tiver conta nestes bancos, financiará sua própria opressão, sua desgraça. Trabalhadores e aposentados só se libertarão do golpe neoliberal se derem o troco, encerrando todas as contas nestes bancos privados e passando para bancos públicos (enquanto ainda existem).  

  4. Distrito 9 é provavelmente

    Distrito 9 é provavelmente opior filme que consegui assistir até o fim na minha vida. Ele é tão ruim, mas tão ruim, que decidi resistir até o fim para ver se era capaz de piorar. conseguiu!

    Aqui vai um spoiler:

    O protagonista vira et e termina num lixão brincando de bem-me-quer/mal-me-quer com uma flor pensando na esposa que já não pode mais ficar com ele, aifnal, ele virou um ET. 

    Muito ruim. muito mesmo.

     

    O autor do texto aqui faz boas reflexões,mas metáfora com o Distrito 9 NÃO DÁ!!!!!!

  5. Naõ concordo

    “Mesmo utilizando a ficção científica para denunciar o racismo, Distrito 9 cometeu um deslize. É impossível deixar de notar a forma extremamente negativa como o filme retrata os nigerianos. Em District 9 os nigerianos são os traficantes de drogas e de armas, ladrões e praticantes de rituais bizarros. Eles são piores do que os alienígenas, não muito diferentes dos brancos que criaram a reserva alienígena.”

    Numa África do Sul, você esperava quem nos guetos? Ponha gerações vivendo em guetos, espera o que ao final, civilidade? Por que não pensar que foi por estarem segregados e confinados se reduziram ao que o filme mostra. Até porque já se sabe que ali estava um ponta do tráfico, e rituais bizarros, quiçá barbaros, nem precisamos do filme, ou você acha que o “forno de microondas” é o quê?

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