Cenário espinhoso e escolhas difíceis, por Roberto Bitencourt da Silva

Por Roberto Bitencourt da Silva

Estão em jogo na cena política nacional interesses poderosíssimos de setores empresariais internacionais e do país. São alvo, das aves de rapina, importantes garantias constitucionais, como os mínimos orçamentários destinados para a saúde e a educação; a privatização eventual da Petrobras e a entrega do pré-sal ao capital estrangeiro; a intensificação do controle policialesco sobre os movimentos sociais, as classes populares; assim como direitos trabalhistas no regime celetista e estatutário.

Poderosas frações empresariais almejam retirar o que resta de direitos sociais e privatizar o parco patrimônio público de interesse nacional, ainda sob o controle do Estado. A agitação judicial, política e midiática possui esse pano de fundo, precisamente em um contexto em que as exportações caíram bastante e não há como compatibilizar interesses, mesmo que muito desiguais, entre empresários e trabalhadores. O empresariado – a Fiesp, não gratuitamente, é o símbolo do movimento de sabor fascistóide e contra a legalidade – quer o controle absoluto do Estado. Pretende abocanhar todos os recursos orçamentários. Está sedento por isso.

O PT e a presidente Dilma não são “confiáveis”, sob a ótica dos capitalistas, seja para acelerar o processo, seja para adotar determinadas medidas. Contudo, o governo petista tem posto em prática inúmeras reivindicações e ideias empresariais, como a lei antiterrorismo – cujo alvo são os movimentos sociais – e um ajuste fiscal que retira direitos dos trabalhadores e dos servidores públicos, inclusive estaduais. Outro dia mesmo, fez acordo com o tucano José Serra, para aprovar seu projeto de entrega do pré-sal ao capital estrangeiro.

Os servidores do Estado do Rio de Janeiro estão envolvidos em contínuos protestos desde o final do ano passado. Encontram-se em greve professores de escolas e universidades há quase um mês. Por conta das medidas anunciadas pelo Ministério da Fazenda, de renegociação das dívidas estaduais, professores e servidores estaduais tornaram-se um alvo óbvio: desinvestimentos nos órgãos e serviços públicos; congelamento salarial ad eternum; aumento da contribuição previdenciária etc.

Os servidores no Rio de Janeiro ficaram cercados, agora, com a decisão federal, que vai impulsionar o projeto draconiano do governador Pezão (PMDB) na Alerj, que suprime investimentos nos serviços públicos. As expectativas dos servidores, em meio aos protestos e à greve, se já não eram boas, agora, então…

O cenário é complicadíssimo e espinhoso para quem é de esquerda. De um lado, uma ameaça real de ascensão de movimentos e iniciativas de caráter fascista e ultraprivatizante, que querem ilegalmente a destituição de uma presidente cuja probidade pessoal, até o momento, é inatacável. De outro, a Presidência intensifica suas tentativas de manter-se, acolhendo valores e medidas antipopulares e antinacionais. Medidas abertamente nocivas aos interesses dos trabalhadores e do país. O mui tímido programa favorável ao povo, que havia sido defendido na eleição, a presidente Dilma colocou para escanteio há bastante tempo.

Trata-se, pois, de um cenário espinhoso e delicado, que demanda a formação de algum tipo de frente social e política. Uma frente antifascista demandaria a integração de muitos setores, tendo que se subordinar a uma pauta econômica ultraconservadora, implementada pelo governo e defendida, de maneira mais radicalizada, pelos próprios golpistas.

Seria uma frente com alguma viabilidade de conter os personagens fascistóides. Mas, sem qualquer expectativa de assegurar direitos trabalhistas e garantias constitucionais, que efetivamente dão uma certa, mesmo que pálida, tonalidade democrática ao Brasil.

Uma frente de esquerda, tão necessária há tempos, seria uma possibilidade de posicionar-se contra o golpismo, mas com autonomia em relação à agenda defendida pelo governo federal. Guardaria capacidade, no entanto, de envolver número inferior de adeptos e setores da sociedade. Contudo, poderia ser uma oportunidade para elaborar uma plataforma programática comum e posicionar-se efetivamente na cena pública nacional, para além da estreiteza corporativa de movimentos sindicais e estudantis.

Organismos populares, como o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), e partidários, como o Partido Comunista Brasileiro (PCB), oportunamente, têm buscado a articulação de uma frente de esquerda, chamada Povo Sem Medo – Frente Nacional de Mobilização. Na quinta-feira (24/03) serão realizados protestos em diferentes cidades (1).

Poucas possibilidades em aberto e muitas dúvidas. Tudo muito nebuloso e espinhoso. Certeza mesmo só o perigo ultraprivatista e fascistóide. Outra certeza é que nas duas eventualidades de frente antigolpista a maior parte do povo estaria de fora, contando, principalmente, com camadas médias e altas das classes trabalhadoras e frações das classes médias. Essa é a pior faceta do problema todo, com o “povão”, em elevada medida, lançado ao limbo. Exatamente isso precisa ser revertido. Com urgência. Entretanto, a mais segura certeza é que “é preciso estar atento e forte”. É preciso lutar.

Roberto Bitencourt da Silva, historiador e cientista político.

(1) Ver: https://www.facebook.com/povosemmedonacional/?fref=ts

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14 comentários

  1. Excelente. Simples e
    Excelente.

    Simples e didático.

    Bê -a-bá do que está ocorrendo no Brasil.

    E a mídia lhe enganando que a disputa é pela moralidade do país.

    Ô classe média que em se achando, se deixa enganar facilmente.

    Tal como os feitores da “casa grande”.

  2. Uma coisa que não consigo entender é como os golpistas vão conse

    Uma coisa que não consigo entender é como os golpistas vão conseguir conter os ânimos, tanto do campo progressista golpeado, quanto da horda fascista anárquica. A dupla Michel Temer e Eduardo Cunha serão alvos das duas frentes da população. Dificilmente políticos tão corruptos quanto eles conseguirão aplacar a ira da população. As consequências serão imprevisíveis.

    • A base da população que apoia

      A base da população que apoia o golpe são as hordas fascistas anárquicas que se manifestaram em 13 de março último.

      Parte dessa base se acomodará à nova situação. Mas a parcela maior exigirá não só participar no governo golpista, como um ajuste de contas com o campo progressista no campo político, assim como um avanço (retrocesso) nas políticas de desmonte do incipiente estado de bem-estar social que os governos do PT vinham progressivamente montando

      Essas hordas fascistas anárquicas, assim como aconteceu na Ucrânia, pretendem realizar uma revolução fascista de tomada de poder e, para tanto, reivindicarão do governo golpista o comando do Ministério da Justiça e da PF para aprofundar a instalação do Estado Policial.

      Para tanto, vão exigir a continuidade da Operação Lava Jato, pretendendo que ela se estenda por todo o território nacional a partir das delações de executivos da Odebretch e do filho (Marcelo Odebretch) de seu principal acionista (Emílio Odebretch) e de outras delações, como as reveladas hoje, de Pedro Correa, que envolve o Banco Itaú e FHC na compra de votos para a emenda da reeleição.

      O PMDB e o PSDB não estão percebendo que eles são os próximos alvos dos grupos fascistas liderados pelo injuiz de Curitiba e pelos procuradores fundamentalistas.

      No pós-golpe, o campo progressista, se tentar reagir (não há alternativa), sofrerá brutal repressão com a aprovação da nova lei antiterrorismo (ainda não sancionada) e que será sancionada pelo governo golpista, exatamente, para aniquilar os movimentos sociais, sindicatos, entidades estudantis e Partidos Progressistas.

      A bandeira anticorrupção (correta em si, desde que dentro da lei, o que não está acontecendo) foi sequestrada do campo progressista pelas hordas fascistas, habilmente comandadas pelo consórcio jurídico midiático.

      Acontece que os corruptos do PMDB e do PSDB vão servir de boi de piranha para saciar a sede de sangue dos vampiros fascistas, depois que eles usarem como aperitivo o sangue do campo progressita.

      Será ? 

      • Essa facção criminosa que estão orquestrando o golpe e tem o…

        Essa facção criminosa que está orquestrando o golpe e tem o Michel Temer como testa de ferro, eles são péssimos de análise de conjuntura. Se levarem a diante o impeachment não terão mais como se esconder atrás da presidenta Dilma. Além disso, não contarão com parcela da população que apoia o governo petista.

        Ou seja, estarão expostos como nunca e se converterão em alvos fáceis. Se a aliança PMDB-PSDB não calcular muito bem o golpe, sofrerão um revés que irá inviabilizá-los, como aconteceu com a tentativa de golpe na Venezuela com Hugo Chávez em 2002. 

  3. O ambiente democrático é o

    O ambiente democrático é o único que garante que movimentos sociais, como o MTST, e partidos,  como o PCB, tenham liberdade de organização, manifestação e reivindicação.

    Se querem articular uma frente de esquerda, ótimo, o que não podem é perder de vista que o foco principal da luta de classes, no momento, é a manutenção da democracia que passa, inevitavelmente, pela permanência de Dilma Roussef à frente da Presidência da República.

    Qualquer outra alternativa leva-nos ao fascismo e ao cenário que o autor coloca com propriedade em seu texto.

    Dilma governa em um campo minado, cercado de inimigos da classe trabalhadora por todos os lados.

    A ideia de que “é melhor que ela sofra um golpe'” pois isto impulsonaria a luta de classes é um erro monumental.

    Isto vai  levar os movimentos populares a um atraso de décadas, além de propiciar às aves de rapina do imperialismo enfiar suas garras em definitivo em nosso território e, literalmente, aniquilar as lideranças populares que surgiram nos últimos 30 anos.

    Vamos unir as forças democráticas da centro-direita à extrema-esquerda, tendo como objetivo prinicipal a manutenção da democracia.

    Se o golpe for vitorioso aí é outra história.

  4. mas, por que só artigos preto-e-branco, tao dualistas ? ?

    A realidade não é simples ( ou o mantra “simples, assim” ). O discurso de ontem de Lula foi uma tragédia.  [ Não à-toa foi reprisado infinitas vezes pelo sistema Globo ].  É golpe, sim.

    Mas acho que, desde o 1º instante, a população admiraria (esvaziaria um pouco as manifestações anti ) se  Lula dissese que, foi, sim, um deslize, uma tentação a que quaisquer seres humanos somos passíveis. No popular: seria coisa de homem e de mulher com H e M. [ Ou vamos tapar sol com peneira,num outro também equivocado mantra”pra não fazer o jogo da direita”??

  5. Uma agenda de resistencia ao totalitarismo

    O golpe é a ponta do iceberg. O que está em gestação é nada menos do que o controle total das instituições, da vida econômica e politica pela lógica e interesses do rentismo e das megas corporações.

    Essa plataforma programatica comum como muito bem coloca o autor, é nossa única esperança de que esse processo não caia como uma avalanche sobre nós, e que se não formos capazes d edetê-lo, pelo menos possamos negociar e resistir nas questões mais fundamentais, como a dos direitos individuais e da democracia.

    É preciso transformar essa plataforma comum numa AGENDA de cinco pontos, como fez o Sanders nos EUA.

    Contra os tratados comerciais, contra corporações excessivamente poderosas, contra todas as politicas economicas que gerem e ampliem desigualdade social, pela ampliação da participação  da sociedade nas decisões políticas, pelo amplo acesso a um sistema de educação e de saude de qualidade, contra toda forma de preconceito, contra o dominio do rentismo, pelo controle social do Estado, por exemplo.

    Uma agenda dessa se bem defendida e explicada à população pode mobilizar setores muito mais amplos da sociedade, que hoje, pela ausencia de alternativas claras e bem colocadas estão sendo cooptadas pelo falso moralismo midiático e formando fileiras em torno dos golpistas. 

    Ótimo texto, precisamos avançar mais nesse tipo de debate que o autor coloca.

  6. Vamos só imaginar

    Imaginemos que, caso o impeachment seja efetivado e Dilma deposta, as ruas poderiam rejeitar, ou seja, não deixar assumir, os 3 seguintes na linha sucessória, Temer, Cunha e Renan. Nesse caso, o que aconteceria já que o impedimento dos 3 não teria base em lei, sendo só uma imposição da população? Isso poderia ser caracterizado como uma convulsão social? O Ministro Lewandowski assumiria a presidência para convocar eleições? Qual seria o posicionamento dos militares em uma situação dessa? Tenho feito essa perguntas a mim mesmo e não acho respostas satisfatórias. Alguém pode me ajudar a responde-las? 

  7. Resumindo nossas

    Resumindo nossas “instituições sólidas!?”

    Cunha réu e cheio de denúncias comanda o Impeachment da Presidenta sem denúncia nenhuma! ( HÃÃÃÃ??)

    Ministra do STF recebe prêmio de empresa golpista,manipuladora e difamadora (ela vive em que País??Aqui??)

    Polícia grampeia a todos ONDE E COMO QUEREM,prendem e soltam tb a quem acham melhor( Sééério!!??)

    E AINDA;

    O povo (fascista) ameaça e ofende um MINISTRO DO STF PQ ELE SEGUIU A LEI (devia não vir ao caso né!)

    PGR  do Brasil dá documentos contra seu próprio país a outro País ( Traiçãão!!??)

    Grande acusado de crimes(Aécio) SEQUER É DENUNCIADO PELO PROCURADOR GERAL e emissoras de tv

    o colocam ainda se justificando E SE POSANDO DE SANTINHO,CONTRA A CORRUPÇÃO(aí já é de mais!!!)

    AMO O BRASIL E GOSTARIA DE TERMINAR ESTE POST COM A MÚSICA, QUE PAÍS É ESSE?(Legião)

     

     

  8. os golpístas tem um projeto


    os golpístas tem um projeto que arrasa com as conquistas populares dos últimos anos…

    resistir a esse golpé é fundamental para manter essas conquistas…

  9. Banco do Brasil e Caixa Econômica serão privatizados

    Querem o sistema financeiro 100% nas mãos privadas. Se bobear, ainda no Governo Dilma isto pode acontecer, notadamente com a Caixa. A Presidenta da Caixa não se esforça por manter a instituição como pública, em minha opinião.

  10. Se a Dilma sair

    Se a Dilma sair não deixaremos o Temer governar, ele tem que sentir na  pele o mesmo o  que está fazendo com Dilma e novas eleições em marcha e votaçao em peso no Lula, sem o PMDB como aliado. Tem partidos e politícos bons para fazer aliança, sem PMDB,PSDB, DEM e outros partidos achacadores e oportunistas.

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