Enfrentar o impeachment não é mais só papel do PT, mas da sociedade, diz Chinaglia

Jornal GGN – Candidato do PT derrotado por Eduardo Cunha (PMDB) na disputa pela presidência da Câmara, o deputado federal Arlindo Chinaglia disse ao GGN, em dezembro de 2014, que o impeachment de Dilma Rousseff não estava na sua “contabilidade”. À época, ele sustentou que não se tira um presidente da República do poder sem “fato determinante”. Nesse sentido, a opinião do petista continua a mesma. Mas, em entrevista cedida no último dia 14, Chinaglia não descartou que a oposição, liderada pelo PSDB, realmente tentará encurtar o mandato de Dilma via Congresso.

Em meio a essa conjuntura política atual, conturbada, Chinaglia avaliou que não cabe mais ao PT achar que pode conduzir sozinho a defesa do governo Dilma. Na visão dele, a existência de documentos pedindo o impeachment da presidente a Eduardo Cunha é motivo para que setores da sociedade passem a defender com vigor a democracia, a Constituição e as conquistas sociais. Não é mais questão de simpatizar com o PT ou com a gestão federal, apontou.

Leia os principais trechos da entrevista:

GGN: Como o PT tem visto a frente pró-impeachment lançada na semana passada?

Arlindo Chinaglia: Esse movimento suprapartidário é o de sempre, mas agora com a cara à luz do dia. Nós já percebíamos movimentações na Câmara pelo impeachment há bastante tempo. Aqueles que hoje têm a iniciativa de tornar público esse desejo são os mesmos de antes. Nada mudou. O que mudou é que eles assumem uma visão perigosa, porque não há nenhuma acusação contra a presidente da República. O próprio Fernando Henrique disse que ela é uma pessoa honrada. Aécio também disse algo parecido. Portanto, seria bom que refletissem melhor. Tirar a presidente da República assim compromete os pilares da legalidade. Um julgamento essencialmente político, com maioria de circunstância, é um movimento arriscado até para quem tem um passado respeitável. É o suficiente para ser lembrado na história.

GGN: Mas agora eles fazem pressão real e pública para tirar o impeachment do papel.

Chinaglia: Eu avalio – mas, claro, nunca se tem certeza dessas coisas – que o PSDB, pelas contradições ou por qualquer outro motivo, não tem unanimidade para levar esse processo a cabo. Os que estão mais interessados tentam criar uma situação, colocando o debate público e levando outros para essa armadilha.

Há, ainda, outros processos que correm paralelos, que ninguém sabe qual será o desfecho, quem será investigado, quem vão pegar, que é a Lava Jato. Aí, do ponto de vista de história, o que dá para dizer é que a de Dilma é muito superior a de outros e reais pretendentes a ocupar seu lugar dela.

GGN: O senhor fala em falta de motivos legais para Dilma sofrer o impeachment. Mas a oposição parece apostar, também, nas pedaladas fiscais analisadas pelo Tribunal de Contas da União. Como o PT vê essa jogada?

Chinaglia: Para quem precisa de um pretexto, tudo será pretexto. Vamos fazer a seguinte reflexão: vamos admitir que o TCU aprove as contas da Dilma referentes ao ano passado. A Câmara pode simplesmente desaprová-las. Ou o contrário. O TCU, muita gente esquece, é um órgão auxiliar. Há aqueles que querem colocar o Tribunal como condutor da grande política nacional e há aqueles que, assim como Joaquim Barbosa, têm outra opinião. O que posso dizer é que se alguém quer um discurso para fragilizar Dilma, qualquer coisa será usada.

GGN: Essa leitura de que a frente suprapartidária pró-impeachment não representa novidade justifica o fato de o PT e aliados só terem feito um contraponto ao grupo quase uma semana depois de seu lançamento?

Chinaglia: Não, até porque vamos admitir – mas não é o fato – que fôssemos pegos despreparados sobre essa frente e seus interesses em relação ao impeachment. A verdade é que, a essa altura, esse debate não é mais só do PT. Que o PT vai defender o governo já é algo esperado. Mas acho que seria erro do PT querer monopolizar uma luta que envolve vários setores da sociedade. Os intelectuais, a academia, os artistas, a OAB, a CNBB, os empresários, os trabalhadores, o que eles pensam? Porque, a partir de agora, eles também precisam se manifestar. Muita gente ainda não falou porque não se sentiu suficientemente motivado. Agora, com pedidos de impeachment reais, acho que teremos posicionamentos. Até esse momento, só há manifestações a favor do impeachment, mas daqui a pouco terão as contrárias. Não significa mais apoiar o PT ou o governo. É questão de apoiar a legalidade, a Constituição. É a luta democrática em jogo. A legalidade e tudo que ela representa do ponto de vista de conquistas sociais.

GGN: Como o senhor acha que o deputado Eduardo Cunha vai proceder em relação aos pedidos do impeachment?

Chinaglia: Eu prefiro acreditar no que ele diz. Até porque qualquer coisa que ele fizer será pública. O que a imprensa já noticiou sobre isso? Que haveria suposto acordo onde ele negaria os pedidos e a oposição entraria com recurso em plenário. Bem, só sabe desse acordo quem participou de qualquer tipo de conversa assim.

GGN: Se a oposição conseguir criar clima favorável ao impeachment com apoio de outros setores da sociedade, haveria alguma chance de Dilma renunciar?

Chinaglia: Primeiro, não vão conseguir e, segundo, não vejo a menor possibilidade dela renunciar. Veja bem: uma coisa é maioria simples [para contornar uma eventual rejeição de Cunha ao pedido de impeachment]. Outra coisa é dois terços dos parlamentares [para estabelecer que Dilma será julgada pelo Senado]. Volto a dizer: até agora só têm falado os que são a favor do impeachment. Aqui, na Avenida Paulista, durante os últimos protestos, mais de 40% das pessoas disseram que acham os governadores do PSDB corruptos (LEIA MAIS AQUI). Ou seja, não sei quem está com tanta moral assim para defender impunemente a quebra da legalidade. Ainda acho que essa vontade de alguns não corresponde à opinião do conjunto dos parlamentares. Um parlamentar de qualquer partido pode falar o que quiser. Daí à representar algo relevante, tem distância.

Outra coisa a se observar é que o governo não está parado. Há o esforço contínuo para melhorar a relação com Congresso. Algo que, de fato, preocupa mais o governo é a situação econômica. São dois desafios que correm paralelos, e a gente não vê uma proposta vinda da oposição no sentido de melhorar. Mas por parte do governo, falta clareza no diálogo sobre suas intenções não só com o Legislativo, mas com a sociedade.

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