Crises sociais e urbanas aceleram os processos que radicalizam a democracia, aponta trabalho

Movimentos sociais da juventude urbana respondem mais rápido aos retrocessos políticos e, agora, devem ser fundamentais na possível derrocada de Bolsonaro

Foto: Agência Brasil

Jornal GGN – Historicamente os grandes centros urbanos não se constituíram apenas como locais concentradores de infraestrutura, sujeitos sociais, recursos e oportunidades. O encontro destes atores sociais resultou em metrópoles condensadoras de inteligência coletiva e, por isso mesmo, passaram a contribuir na radicalização da democracia.

Esse é um dos pontos abordados na tese de doutorado do arquiteto Paolo Colosso, defendida no Departamento de Filosofia, do Programa de pós-graduação em Filosofia da USP. Ele compõe o Comitê Nacional do BR Cidades, coletivo criado para repensar e encontrar saídas para os problemas sociais urbanos brasileiros. A entrevista que Colosso concedeu ao GGN faz parte de uma parceria entre as duas plataformas.

Em seu trabalho ele avaliou a atuação dos movimentos sociais pelo direito ao espaço urbano na cidade de São Paulo – a principal metrópole da América Latina – e que sintetiza as desigualdades da economia brasileira.

Para o arquiteto, os protestos de Junho de 2013 contribuíram para a estruturação e fortalecimento de novos movimentos sociais, protagonizados pela juventude urbana.

Um olhar rápido pela história recente faz pensar que as marchas de Junho de 2013 apenas terminaram em manobradas orquestradas por grupos econômicos e políticos para afastar uma presidente democraticamente eleita do poder. Mas, esse não é o foco do trabalho de Colosso. Ele procura mostrar que o surgimento de movimentos sociais urbanos parte da desigualdade resultante do uso comercial intenso do solo urbano, disputando o direito à cidade. Além disso, o arquiteto percebe que, apesar dos retrocessos recentes, os movimentos sociais foram fortalecidos com as manifestações de Junho de 2013.

Leia também:  Greenwald: "A cada mentira, nós publicaremos prova de que Moro está mentindo"

O pesquisador aponta também que a principal característica dos novos movimentos sociais urbanos em São Paulo é a conexão geracional entre os jovens em idade universitária.

“Especialmente no início dos anos 2000, mais ou menos 3,4 milhões de jovens entraram na Universidade. Em 2015, foram 8 milhões de jovens que ingressaram nessas instituições. Então, você teve um aumento expressivo dos jovens de camadas populares nas Universidades públicas e nas novas Universidades privadas”, explica Colosso, lembrando que programas de governo ajudaram a ampliação de vagas no ensino superior, especialmente ProUni e o Fies.

O aumento da oferta no ensino superior público ou privado também gerou a criação de cursinhos populares nas periferias. Colosso destaca, por exemplo, que a pauta pelo direito ao ensino foi encampada até mesmo nos movimentos por moradia popular, onde foram montados cursinhos populares para ajudar os jovens a ingressarem nas universidades.

“A meu ver, a chave que a gente vai ter que operar é, pelo visto, a Educação que, realmente, foi algo que mobilizou muitos estudantes e também toca a sociedade de maneira mais geral. Então, se a gente lembrar das ocupações dos secundaristas em 2015 e 2016, vimos que a pauta também teve esse amplo apoio da sociedade civil, quando mães e famílias atuaram levando alimentos para os estudantes nas ocupações. Novamente, vêmos agora esse amplo apoio à pauta da Educação”, fundamenta Colosso.

“[Além de viabilizar a pressão nas ruas], a Educação também propicia a transformação mais silenciosa e mais cotidiana em direção aos direitos sociais dos sujeitos ligados à ela, que passam a entrar em cena construindo um ciclo político [próprio]”, reflete o pesquisador.

Leia também:  O mundo desconfia de Moro: as manchetes dos grandes jornais

Portanto, se antes a pauta por mobilidade urbana, encampada pelos jovens universitários, contribuiu para as marchas de Junho de 2013, agora é a pauta da Educação, nesse mesmo grupo geracional, que movimenta as cidades contra os cortes promovidos pelo governo Bolsonaro nas universidades públicas.

“Estou bastante convicto de que a greve geral do dia 14 junho [sexta-feira] vai ser muito maior do que o 15M (15 de maio), que apresentou uma ampla heterogeneidade dos atores que foram às ruas”, avalia.

Colosso não deixa de destacar também o fortalecimento dos movimentos populares por moradia, também em resposta à exploração do capital no ramo imobiliário.

“Para se ter uma noção, em São Paulo, entre 2008 e 2018 o preço dos imóveis aumentou 236%, muito acima da inflação no mesmo período, quando o IGP-M cresceu 74,93% e o IPCA, 85,72%”, destaca. O custo dos aluguéis aumentou 93%, no mesmo período.

“O interessante é que você teve esse boom da valorização imobiliária tanto em um período que teve crescimento econômico quanto em um período de recessão e estagnação. Ou seja, os valores que subiram não voltaram a cair no período posterior, de crise econômica”, completa Colosso. O valor mais caro nos aluguéis, especialmente no comércio, é repassado para os produtos e serviços, aumentando mais ainda o custo de vida em São Paulo e a insatisfação popular.

“Essa disputa pelo espaço urbano explica por que o déficit habitacional não diminuiu, mesmo após o Minha Casa, Minha Vida. Antes do programa habitacional, o déficit era de cerca de 7 milhões de unidades habitacionais, número que se mantém igual em 2019”, destaca.

Leia também:  O dossiê Intercept é um passo para conter o processo destrutivo da Lava Jato

A seguir, escute a entrevista completa:

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

2 comentários

  1. A tese apresentada me parece equivocada. O que pode salvar a tese é considerar que seguem “ciclo político próprio” (muito obscuro) e que, apesar dos retrocessos, houve fortalecimento dos movimentos populares (como encaixar isto na “apropriação pela mídia” das manifestações é um mistério a ser resolvido).
    Enfim, me parece que é um trabalho que celebra as exéquias daquilo que não foi…

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome