Dilma diz que errou, ao não ter se atentado para o centro político

Em entrevista ao The New York Times, ex-presidente diz o que teria feito de diferente, se pudesse voltar no tempo
 
Foto: Lula Marques/Agência PT

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Jornal GGN – Se Dilma pudesse voltar atrás, quando ainda estava na presidência, não teria aplicado o mesmo tamanho de cortes de impostos e incentivos fiscais que concedeu para a indústria e, ainda, teria dado mais atenção ao corpo a corpo político. Foi o que a ex-líder brasileira admitiu em entrevista a um jornalista do The New York Times, concedida durante sua passagem por Boston (EUA), onde recentemente participou de uma conferência realizada pela Harvard e MIT. Veja a íntegra da entrevista. 
 
 
 
 
*Traduzido por Jornal GGN
 
Há quase um ano, os legisladores brasileiros votaram para destituir a presidente Dilma Rousseff do cargo, desencadeando a queda dramática da primeira mulher a liderar o Brasil. Rousseff, ex-guerrilheira que foi torturada durante a ditadura militar dos anos 1960, foi expulsa formalmente em setembro.
 
Sua remoção marcou também o fim de 13 anos de mandato da esquerda com o Partido dos Trabalhadores (PT) e uma mudança em nível sísmico na trajetória política do país. Entrevistei Rousseff no fim de semana passado, durante a conferência sobre o Brasil, organizada pela Harvard e MIT, onde ela deu um discurso desafiador advertindo que a democracia brasileira está em perigo. A seguir, trechos da conversa, com pequenas edições.

 
Como tem sido sua rotina diária desde que foi processada?
 
Eu leio muito. Também me exercito diariamente, pratico ciclismo e levantamento de peso. É bom para o corpo e para a mente. Faço, em média, 50 minutos por dia de ciclismo.
 
Qual foi o melhor livro que leu desde sua destituição?
 
Posso dizer vários? Makers and Takers: The Rise of Finance and the Fall of American Business de Hana Foroohar. Também gosto de Homo Deus: A Brief History of Tomorrow, por Yuval Noah Harari. Leio muitos gêneros literários, de outra forma me canso. Estou em uma idade em que também releio alguns livros. Tenho relido O evangelho segundo Jesus Cristo de José Saramago e Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, que é realmente belo.
 
E o que tem aprendido sobre você mesma durante esse período?
 
O que a vida nos exige é ter coragem. Com coragem você pode enfrentar as adversidades. Obviamente estou lidando com dificuldades. Durante minha vida, tive que enfrentar dois golpes: um militar e outro por parte do Congresso. Ambos foram extremamente difíceis. Em um fui ameaçada fisicamente, de ser presa e torturada; em outro, porém, foi uma ameaça maior para toda a população brasileira, para os direitos dos cidadãos e para a democracia.
 
Se pudesse regressar no tempo, o que teria feito diferente?
 
Essa não é uma pergunta que me faço a mim mesma normalmente. Infelizmente, não podemos regressar os ponteiros do relógio. Mas posso responder de maneira hipotética. Uma coisa que não teria feito são os grandes cortes de impostos. Eu fiz isso acreditando que as empresas investiriam mais e gerariam mais empregos. Mas isso não aconteceu: as companhias aumentaram seus lucros sem investir mais. Também não me dei conta o suficiente de que o “centro” é uma parte crucial do corpo democrático que foi essencial para a luta contra a ditadura militar, e que estava se movimentando para a direita. Ela se converteu em uma oposição ao meu governo. É como a história do cavalo de Troia, usado para fazer entrar o inimigo naquela cidade. Não me dei conta que isso foi um erro.
 
Eduardo Cunha, o legislador que impulsionou o processo contra você, foi condenado recentemente a 15 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro. Isso te provoca um certo sentimento de vingança? 
 
Não acredito que a condenação de Eduardo Cunha deva ser considerado como uma vingança pessoal. Ante de ser sentenciado, havia um movimento de vários setores do governo para salvá-lo. A condenação de Cunha não repara o que essa pessoal corrupta fez, liderando o julgamento político contra mim.  Ele é a pessoa por trás da cena dantesca que aconteceu em 17 de abril do ano passado.
 
Depois de ser destituída, seu sucessor, o presidente Michel Temer, nomeou um gabinete composto exclusivamente de homens brancos. Como você avalia isso?
 
Homens brancos, velhos e ricos. É um governo sumariamente anti-mulheres. Me entristece e desanima. Primeiro de tudo, ocorreu um elemento muito misógino no golpe contra mim. Havia dois pesos e duas medidas para homens e mulheres. Me acusaram de ser dura e severa, enquanto um homem [na mesma posição] seria considerado firme e forte. Ou diziam que eu era muito emocional e frágil, mas a um homem teriam considerado sensível. Fui vista como alguém obcecada com o trabalho, enquanto um homem teria sido visto como muito trabalhador. Também se utilizaram de palavras muito grosseiras. Me chamaram de vaca seiscentas mil vezes.
 
Em poucos meses, quando a presidente chilena Michelle Bachelet deixar seu cargo, todos os chefes de Estado do hemisfério ocidental serão homens. Como avalia isso, em relação ao empoderamento político das mulheres?
 
Isso não é coincidência. Na política, as mulheres não são tratadas do mesmo modo que os homens. As mulheres enfrentam uma descriminação desproporcional. Isso não significa que as mulheres sejam fracas. Pelo contrário, são muito resilientes e capacitadas.
 
Você acredita que o PT pode regressar ao poder nas eleições presidenciais do próximo ano?
 
Temos um encontro com a democracia em 2018. Não importa quem ganhe, com tanto que o jogo seja limpo e que essa pessoa traga estabilidade política e econômica, assim como o retorno do crescimento. Mas tem que ter uma eleição. Não é vergonhoso perder uma eleição, o que é vergonhoso é uma pessoa que não sabe como perder uma eleição e aceitar a perda. Não se pode mudar as regras do jogo enquanto se está jogando.
 
Quando escreverem seu obituário, que aspecto do seu legado gostaria que fosse destacado?
 
Seremos lembrados pelas políticas sociais que criamos. Foi durante o meu governo que vencemos a pobreza. Foi durante meu mandato que consolidamos a rede de proteção social. Todas essas políticas sociais foram estabelecidas para reduzir a desigualdade. Agora, a população sabe que “eles podem”. Comprovamos que uma das maiores fontes de riqueza brasileira é seu povo. 
 
 

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