Peso dos juros paralisa economias, exaure sociedades e amplia riscos de retrocessos

Sugestâo de Vânia

Do Outras Palavras

Dívida, o novo pesadelo

FMI admite não ver saída para a crise global. Michael Hudson explica: peso dos juros paralisa economias, exaure sociedades e amplia riscos de retrocessos. Saberemos enfrentar a aristocracia financeira?

Michael Hudson, entrevistado por Kim Brown, em The Real News Network | Tradução: Cauê Seignemartin Ameni

Como era de esperar, os jornais e TVs da velha mídia nada noticiaram. Em sintonia com o governo Temer, estavam ocupados em demonizar o tímido gasto social do Estado brasileiro. Mas em 5 de outubro, um novo relatório do FMI sobre a estabilidade financeira global lançou o alerta. Apesar de irrigado, desde 2008, por seguidas operações de “salvamento”, sempre com dinheiro público, o sistema financeiro internacional não se recuperou. Embora a grande tempestade tenha passado, “os riscos de médio prazo continuam a crescer”. E — mais intrigante — mesmo no caso de uma recuperação sustentada das economias (algo que não parece próximo), os problemas não estarão sanados.

Dias depois de lançado o relatório, o economista norte-americanoMichael Hudson analisou-o, em entrevista à rede de webTV independente “The Real News“. Dedicado há décadas ao exame do sistema financeiro, colaborador de dezenas de publicações e consultor de governos como os da Grécia, Islândia e China, Hudson tem uma visão particular sobre o papel das dívidas, nas sociedades capitalistas contemporâneas. Segundo ele, o pagamento de juros tornou-se, na época pós-industrial, um fator crucial de extração de mais-valia e, portanto, de ampliação das desigualdades.

 

Hudson vê no relatório do FMI o reconhecimento de um ponto de impasse. O endividamento dos Estados e das famílias tornou-se tão vasto e opressor que passou a comprometer a própria dinâmica de reprodução do capital. Tanto os salários quanto a receita de impostos são permanentemente corroídos pelas transferências aos banqueiros e à aristocracia financeira. Em consequência, a capacidade de compra despenca. Os investimentos estancam. A criação de empregos e ocupações retrocede. Forma-se uma espiral descendente, que bloqueia as economias.

Pior: para sair do impasse, a aristocracia financeira procura, permanentemente, avançar sobre as conquistas cidadãs. Calcula que os Estados devem reduzirem o gasto social — para tornarem-se capazes de pagar mais juros… Aí está a origem das políticas de “austeridade”, da devastação do Estado de Bem-estar social na Europa e, no Brasil, de propostas como a PEC-241, que estabelece o congelamento das despesas não-financeiras do Estado.

Como escapar desta maré anticivilizatória? Em tempos anormais, é preciso propor o incomum. Hudson vê uma alternativa — pouco debatida, mesmo entre a esquerda. Ele defende políticas que promovam uma redução radical das dívidas e dos pagamentos à aristocracia financeira. O relatório do FMI jamais proporá algo com este sentido, zomba o economista. Mas ele mesmo provoca: enquando não houve coragem e força política para tal passo, permaneceremos sujeitos à estagnação, a crises e à ameaça de retrocessos. Fique com a entrevista (Antonio Martins)

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O relatório sobre estabilidade financeira do FMI diz que, apesar de os bancos serem mais fortes agora do que na crise econômica de 2007-2008, cerca de 25% do bancos norte-americanos e 30% dos europeus estão muito fracos até mesmo para se beneficarem de possível aumento nas taxas de juros — ou de qualquer auxílio para recuperação, caso a economia global sofra um novo abalo. Mas antes de entrar em qualquer tema mais específico sobre a saúde dos bancos, pergunto: nestas duas regiões, ainda estamos em recessão ou começamos a nos recuperar?

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Não estamos nem numa recuperação, nem numa recessão tradicional. As pessoas pensam nos ciclos econômicos, nos quais há um boom seguido por uma recessão, para que depois os estabilizadores automáticos reanimem a economia. Mas agora, não há reanimação possível. A razão é que cada recuperação, desde 1945, estabeleceu um alto nível de endividamento. Ele está tão alto agora que estamos vivendo, desde a crise de 2008, o que chamo de deflação por dívida. As pessoas têm de pagar tanto dinheiro aos bancos que não conseguem manter o suficiente para comprar os bens e serviços produzidos. Por isso, não há novos investimentos, nem geração de emprego (exceto empregos com salários-mínimos). Os meracados estão encolhendo e as famílias estão quebrando. Por isso, muitas empresas não podem pagar os bancos.

O produto dos bancos é dívida. Eles tentam dizer aos clientes que “as dívidas são boas”, mas os clientes não podem endividar-se mais, e não há mais caminhos para que os bancos continuem seu atual plano de negocios. Na verdade, não há como os bancos serem pagos por tudo que possuem. É desse ponto que o FMI não passa. Ele não se atreve a dizer: “Os bancos estão quebrados porque o sistema financeiro também quebrou; e se isso ocorreu é porque, em seu conjunto, a ideia de tentar se enriquecer através das dívidas não funciona”.

Era um modelo falso. Estamos no final do longo ciclo que começou em 1945 e sobrecarregou as economias com dívidas. Não teremos condições de sair do labirinto até que estas seja canceladas. Mas é isso que o FMI acredita ser impensável. Não pode dizer isso, porque espera-se que represente o interesse dos bancos. Tudo que o pode dizer é que os bancos não farão mais dinheiro, mesmo que haja recuperação.

Mas na verdade não há recuperação, e não há sinais disso no horizonte, porque as pessoa têm de pagar aos bancos. É um ciclo vicioso – ou melhor, uma aspiral descendente. Basicamente, os economistas do FMI estão entregando os pontos e admitindo que não sabem o que fazer, dados os limites de seu horizonte.

Você pode nos ajudar a compreender por que o crescimento foi tão fraco nos últimos seis a oito anos?

Vamos analisar um orçamento familiar médio, estudando seus números essenciais. As pessoas pagam entre 40% a 43% de sua renda para habitação. Pagam planos de saúde, as dívidas do cartão de crédito, outros débitos. Sobram, disponíveis, apenas 25% a 35% — digamos, um terço do salário — para adquirir bens e serviços.

O problema é que quem emprega são justamente empresas que vendem bens e serviços. Elas simplesmente não estão contratando, porque os consumidores não tem dinheiro disponível para comprar esses mesmo bens e serviços. Entramos numa deflação crônica por dívida. Não há recuperação possível sem levar isso em conta. É este fato que o FMI compreendeu, mas deixa apenas implícito em seu relatório.

Ao noticiar este relatório, em manchete, o site MarketWatch afirmou: “Esqueça o [conceito de] ‘grandes demais para falir’. Os bancos estão fracos demais para sobreviver”. Na época em que eram gigantes, os bancos quase destruíram o sistema financeiro global. Bancos menores são melhores?

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Pequenos bancos voltados para empréstimos ao público seriam bons. Mas os bancos, em sua maioria – o  Deutsch Bank, em graves dificuldades, é um caso típico – avaliam que não são mais capazes de ganhar dinheiro emprestando aos clientes normais. Partiram para um novo plano de negócios: emprestar dinheiro capitalistas de cassino. Isso é, emprestar para quem quer especular com derivativos.

Um derivativo é simplesmente uma aposta de que uma ação, um título de dívida ou relacionado a um ativo imobiliário irá subir ou cair. Há um vencedor e um perdedor. É como aposta numa corrida de cavalos. O maior banco envolvido nestas apostas — ou seja, não em financiar a produção, ou o investimento — era o Detsche Bank. Grandes aplicadores tomavam emprestado para jogar.

Qual é, hoje a melhor aposta no mundo? É apostar que as ações do Deutsche Bank irão cair. Especuladores tomam dinheiro emprestado do seus bancos para fazer apostas de que as ações do Deutsche Bank despencarão. Agora, ele se contorce e diz: “Oh, os especuladores estão nos matando”. Mas são o próprio Deutsche Bank e outros que fornecem dinheiro para os especuladores fazerem apostas.

O relatório do FMI diz que, na zona do euro, se os governos pudessem ajudar os bancos a se livrar de seus empréstimos ruins, isso teria um efeito positivo sobre o capital destas instituições financeiras. Qual seria o efeito sobre a população e a economia europeia?

A matemática desta proposta muito simples. Para executá-la, você teria de abolir as aposentadorias e os gastos sociais — além de aumentar os impostos. Você tem que obrigar pelo menos 50% da população europeia a emigrar — quem sabe, para a Rússia ou China… Haveria fome em massa. Muito simples: esse é o preço que alguns, na zona do euro, pensam que vale a pena pagar — e que se tentou impor à Grécia Para salvar os bancos, você teria que converter toda a zona do euro numa Grécia

Os governos teriam de vender todo o setor público — inclusive ferrovias e terras públicas. Estaríamos basicamente introduzindo o neo-feudalismo, voltando o relógio da história para trás em mil  anos e reduzindo a população da Europa para dívidas escravocratas. É a solução que a zona do euro impôs a Grécia. E a solução que os líderes e os bancos estão estão peindo para os economistas responsáveis promoverem à população em geral.

Vamos falar a respeito de outra informação divulgada pelo FMI sobre a dívida. O endividamento global chegou recentemente a cerca de 152 trilhões de dólares. Isso inclui dívidas públicas, familiares e de empresas não financeiras. O que isso significa para o sistema financeiro global e as sociedades?

Significa que a única maneira que as pessoas têm de pagar a dívida é cortando seus padrões de vida drasticamente. Significa concordar em mudar suas aposentadorias atuais — em que você sabe quanto receberá ao deixar de trabalhar — para “planos de contribuição definida”. Nestes, você investe o dinheiro e não sabe o que receberá.

Para salvar os bancos de perdas que ameaçam varrer seu patrimônio líquido, teríamos de nos livrar da Seguridade Social. Isso significa basicamente abolir o governo para entregar o funcionamento do sistema aos bancos, com a ideia de que o papel dos governos é extrair renda da economia para pagar os acionistas e os bancos.

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Quando se diz “pagar os bancos”, o que eles realmente querem dizer é pagar os dententores de títulos bancários. São basicamente o 1% mais rico. O que estamos vendo realmente neste relatório, neste crescimento de dívida, é que o 1% da população detêm aproximadamente 3/4 de todos os créditos. Significa que há uma escolha: ou você salva a economia, ou você salva o 1% de perder um único centavo.

Todos os governos, de Barack Obama até Angela Merkel, da zona do euro ao FMI, comprometem-se a salvar os bancos, não a economia. Nenhum preço é muito alto para tentar fazer o sistema financeiro ir um pouco mais longe. Ao final das contas, ele não poderá ser salvo, por causa da equação em que está envolvido. As dívidas crescem sem parar. E quanto mais crescem, mais encolhem a economia. Quando você encolhe a economia, reduz a capacidade de pagar as dívidas. É uma ilusão pensar que o sistema pode ser salvo. A questão é: por quanto tempo mais as pessoas estarão dispostas a viver nesta ilusão?

E por quanto tempo essa ilusão se sustenta antes de assistirmos a um novo colpaso econômico mundial? É algo inevitável, a que devemos simplesmente esperar? Devemos nos preparar para isso?

Ainda estamos sofrendo os efeitos do colapso que começou em 2008. Não há novo colapso, nem recuperação. Os salários dos 99% caíram, de forma constante, desde 2008. Especialmente para 25% da população que ganham menos — nos Estados Unidos, negros,  latino-americanos e outros trabalhadores. O patrimônio liquido deles ficou negativo, e eles não têm dinheiro suficiente para para pagar as contas.

Uma das maiores consultorias mundiais — a Ernst & Young — acaba de fazer o estudo sobre os muito jovens. Descobriu que 78% das pessoas que nasceram por volta da virada do século [e que têm em torno de 18 anos]  estão preocupados por imaginare que não encontrarão empregos que lhes permitam pagar seus  empréstimos estudantis. Além disso, 74% temem não poder pagar tratamento, se ficarem doentes; 79% temem ficar sem renda suficiente para viver, quando eles se aposentarem. Toda uma geração que emerge — não apenas nos EUA, mas também na Europa — que não será capaz de ter empregos assalariados que paguem bem. O único caminho é ter pais ricos o suficiente para lhes oferecer uma renda.

Seu último livro é Killing the Host: How Financial Parasites and Debt Bondage Destroy the Global Economy [“Matando o hospedeiro: como os parasitas finaneiros e a escravidão por dívidas destroem a Economia Global”]. Você está terminando outro, certo?

Sim, nas próximas semanas. Seu título será J is for Junk Economics. Investiga por que os economistas prometem que em algum momento haverá uma recuperação. Por que isso é basicamente uma promessa impagável [junk] e por que hoje, para ser um economista, você tem que participar desse conto de fadas segundo o qual poderemos nos recuperar e, ao mesmo tempo, conservar a saúde dos bancos. Quero mostrar por que não funciona.

 

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16 comentários

  1. As dívidas são apenas efeito, não causa
    A questão que o entrevistado não colocou, nem lhe foi perguntado é:

    Por que, desde 45, o sistema capitalista precisa se endividar cada vez mais para crescer?

    Dívida é antecipação de capital que irá ser criado no futuro. Se as dívidas aumentam sem parar, é porque o lucro do sistema produtivo não foi suficiente para pagar o capital antecipado.

    Por outras palavras, a produção de bens e serviços não dá lucro suficiente para pagar o capital antecipado (dívidas). De forma mais simples, a produção capitalista não dá lucro suficiente, não se sustenta mais.

    A causa da crise não é o inchaço do sistema financeiro, mas sim a falta de lucratividade global do sistema, causada, principalmente, pelo aumento do capital fixo (máquinas). Este processo se acelerou a partir de 1970, quando a microeletrônica foi introduzida na produção de mercadorias.

    Marx estava certo, o capitalismo têm limites internos de valorização do capital. Chegou-se a este limite na década de 70 e 80, quando a produção de mercadorias já não se sustentava (do ponto de vista do capital, pois não gerava mais valia).

    A financeirização que se seguiu salvou o sistema com injeção cada vez maior de crédito em suas veias, como um dependente químico que só sobrevive com doses diárias cada vez maiores de droga.

    Agora o endividamento também chegou ao limitte. Não adianta cancelar as dívidas. Se isto acontecer, a falta de lucratividade da produção de mercadorias ficará explícita.

    A solução sensata, que preserva a ecologia e o tecido social, é a que ninguém quer pensar: acabar com o capitalismo e seus elementos, dinheiro, estado, direito, mercado etc.

    Quem propõe isto é chamado de louco. Mas estamos num momento em que a classe média é capaz de delírios facistas para não perder seus confortos e poder de consumo e os loucos, com suas alucinações de sociedade solidárias (alternativas) é que estão lúcidos.

      • De ponta cabeça
        a classe média
        clara esclarecida
        delira com curitiba
        uma obscura pátria
        facista

        os doutos
        enfeitados com a missão
        de defender os direitos
        civis se calam
        ou facistam

        os loucos
        com suas alucinações
        de gentios gentis
        e sociedades solidárias
        estão lúcidos

    • A questão é q o capital fixo não leva à redução da jornadas mas
      O problema é que a elevação do capital fixo, ou seja, a elevação da composição orgânica do capital (ou seria elevação da composição técnica do capital?) não é utilizada para reduzir a jornada de trabalho, mas para reduzir o número de trabalhadores empregados. O problema é que é lucro, a mais-valia, não é extraída do capital morto, mas do trabalhador. Por isso a queda da taxa de lucro e crise de acumulação do capital, que tem que se socorrer dos recursos públicos, inclusive através da corrupção, a fim de que sejam mantidos os interesses burgueses em detrimento do trabalhador.
      O capitalismo poderia superar essa crise, criando emprego e renda, e elevando a sua taxa de lucro se reduzisse não só a jornada de trabalho mas também a idade mínima de aposentadoria, de forma que os velhinhos não tivessem que trabalhar até a hora da morte e que a juventude não ficasse desempregada, sem perspectiva, entregando-se ao crime.
      Sobre a elevação da composição orgânica do capital, ou seja, sobre o aumento do capital fixo em detrimento do emprego, que é o mesmo que desemprego estrutural, o Bertrand Russel falou o seguinte:

      “A técnica moderna tornou possível diminuir enormemente a quantidade de trabalho necessário para assegurar as necessidades vitais para todos. Isto se tornou óbvio durante a Primeira Guerra Mundial. Naquele tempo todos os homens nas forças armadas, e todos os homens e mulheres envolvidos na produção de [armas] e munição, e todos os homens e mulheres envolvidos com espionagem, propaganda de guerra ou escritórios governamentais relacionados com a guerra foram tirados de ocupações produtivas. Apesar disto, o nível geral de bem-estar entre os assalariados não-qualificados do lado dos aliados era mais alto do que antes ou mesmo depois da Guerra. O significado deste fato era escondido pelas finanças: empréstimos fizeram parecer que o futuro estava nutrindo o presente. Mas isto, é claro, seria impossível; um homem não pode comer um pão que não existe. A guerra mostrou conclusivamente que, através da organização científica da produção, é possível manter as populações modernas em razoável conforto com uma pequena parte da capacidade de trabalho do mundo moderno. Se, ao final da guerra, a organização científica que foi criada para liberar homens para as guerras e produção de munição fosse preservada, e as jornada de trabalho fosse reduzida para quatro horas, tudo teria ficado bem. Aos invés disto, o antigo caos foi restaurado, aqueles cujo trabalho era necessário voltaram às longas horas de trabalho, e o restante foi deixado à mingua no desemprego. Por quê? Porque o trabalho é um dever, e um homem não deveria receber salários proporcionalmente ao que produz, mas proporcionalmente à virtude demonstrada em seu esforço.”

      • Não há como frear o capitalismo
        Do ponto de vista da racionalidade capitalista não há sentido em reduzir a jornada de trabalho. O resultado dessa redução é mais custo com a mão de obra e menos mais valia, exatamente o que se quer evitar substituindo homens por máquinas.
        Esta proposta é a da social-democracia, de frear as tendências imanentes do capital, redistribuindo a riqueza. Isto só funciona pontualmente, pois logo a lógica de acumulação do capital se impõe novamente.
        O capital é uma espécie de segunda natureza, com leis próprias incontornáveis, ele não permite que haja uma corporação ou um país “mais humano” e menos capitalista. Se houver, esta corporação ou país será triturado pela concorrência, que eleva a produtividade em detrimento dos trabalhadores.
        A saída sensata é mesmo abandonar o capitalismo. Temos condições técnicas de satisfazer a necessidade materiais e simbólicas de todos. A lógica seria “a cada um de acordo com suas necessidades”. Mas ninguém cogita tal saída: quem a propõe é taxado de irrealista.

        • Eu tenho consciência disso mas…
          Eu tenho consciência disso e não sou social-democrata. Me reivindico comunistas. Sei que a crise capitalista só é superada da forma descrita no Manifesto Comunista, que transcrevo a seguir:
          “As relações burguesas de produção e de intercâmbio, as relações de propriedade burguesas, a sociedade burguesa moderna que desencadeou meios tão poderosos de produção e de intercâmbio, assemelha-se ao feiticeiro que já não consegue dominar as forças subterrâneas que invocara. De há decênios para cá, a história da indústria e do comércio é apenas a história da revolta das modernas forças produtivas contra as modernas relações de produção, contra as relações de propriedade que são as condições de vida da burguesia e da sua dominação. Basta mencionar as crises comerciais que, na sua recorrência periódica, põem em questão, cada vez mais ameaçadoramente, a existência de toda a sociedade burguesa. Nas crises comerciais é regularmente aniquilada uma grande parte não só dos produtos fabricados como das forças produtivas já criadas. Nas crises irrompe uma epidemia social que teria parecido um contra-senso a todas as épocas anteriores – a epidemia da super-produção. A sociedade vê-se de repente retransportada a um estado de momentânea barbárie; parece-lhe que uma fome, uma guerra de aniquilação universal lhe cortaram todos os meios de subsistência; a indústria, o comércio, parecem aniquilados. E porquê? Porque ela possui demasiada civilização, demasiados meios de vida, demasiada indústria, demasiado comércio. As forças produtivas que estão à sua disposição já não servem para promoção das relações de propriedade burguesas; pelo contrário, tornaram-se demasiado poderosas para estas relações, e são por elas tolhidas; e logo que triunfam deste tolhimento lançam na desordem toda a sociedade burguesa, põem em perigo a existência da propriedade burguesa. As relações burguesas tornaram-se demasiado estreitas para conterem a riqueza por elas gerada. – E como triunfa a burguesia das crises? Por um lado, pela aniquilação forçada de uma massa de forças produtivas; por outro lado, pela conquista de novos mercados e pela exploração mais profunda de antigos mercados. De que modo, então? Preparando crises mais extensas e mais destruidoras, e diminuindo os meios de evitá-las.”

          Eu sei que não há mais mercados na superfície do planeta a ser conquistados e que uma guerra de destruição de parte das forças produtivas, de forma a fazê-las recuar, compatibilizando-as com as relações de produção burguesas seria o holocausto da vida. Também não ignoro que a intensificação do grau de exploração dos velhos mercados está quase no seu limite. Mas li esse abaixo transcrito:

          “Esse Desemprego!
          (Bertolt Brecht)

          Meus Senhores, é mesmo um problema
          Esse desemprego!
          Com satisfação acolhemos
          Toda oportunidade
          De discutir a questão.
          Quando queiram os Senhores! A todo momento!
          Pois o desemprego é para a população
          Um enfraquecimento.
          Para nós é inexplicável
          Tanto desemprego.
          Algo realmente lamentável
          Que só traz desassossego.
          Mas não se deve na verdade
          Dizer que é inexplicável
          Pois pode ser fatal
          Dificilmente nos pode trazer
          A confiança das massas
          Para nós imprescindível.
          É preciso que nos deixem valer
          Pois seria mais que temível
          Permitir ao caos vencer
          Num tempo tão pouco esclarecido!
          Algo assim não se pode conceber
          Com esse desemprego!
          Ou qual a sua opinião?
          Só nos pode convir
          Esta opinião: o problema
          Assim como veio, deve sumir.
          Mas a questão é: nosso desemprego
          Não será solucionado
          Enquanto os Senhores não
          Ficarem desempregados!”

          Li também:
          “Quase toda a gente neste país considera o regime e o modo de vida fascistas um mal contra o qual nos devemos defender por todos os meios disponíveis. É reconfortante ver os espíritos concordarem nesse ponto. Mas uma tal unanimidade não existe nem acerca da natureza desse perigo nem sobre os meios a mobilizar para o afastar. Exprimirei o meu ponto de vista sobre este.

          Eu tive oportunidade de observar a propagação da epidemia na Alemanha. Não é sem dificuldades nem reticências que o homem renuncia às suas liberdades e aos seus direitos. Mas basta que um povo se veja, em grande parte, confrontado com uma situação insuportável para que se torne incapaz de um julgamento são e se deixe abusar voluntariamente por falsos profetas. “Desemprego” é a palavra terrível que designa essa situação. Também o medo do desemprego é igualmente lancinante.

          A ausência constante de segurança económica engendra uma tensão que as pessoas são incapazes de suportar a longo termo. Essa situação será ali pior do que aqui porque, num país fortemente povoado e dispondo de recursos naturais extremamente limitados, as flutuações económicas fazem-se sentir com maior dureza.

          Existe também aqui uma situação semelhante; o progresso tecnológico e a centralização da produção provocaram um desemprego crônico e uma parte muito considerável da população em idade de trabalhar luta em vão para se integrar no processo econômico. Sobreveio desde então que tanto aqui como lá os demagogos encontraram algum sucesso provisório mas, graças à existência neste país de uma mais forte e mais avançada tradição política, eles não duraram muito tempo.

          Estou convencido de que só medidas eficazes contra o desemprego e a insegurança econômica do indivíduo poderão realmente afastar o perigo fascista. Por certo é necessário contrariar a propaganda fascista levada a cabo do exterior. Mas é preciso abandonar a ideia errônea e perigosa de que alcançaremos o fim do perigo fascista através de medidas puramente políticas. Tudo se passa, pelo contrário, como quando existe uma ameaça de contágio pela tuberculose. É certamente bom que existam medidas de higiene impeditivas logo que entremos em contacto com os germes da doença, mas uma boa alimentação é ainda mais importante, dado que ela reforça as defesas naturais do indivíduo contra a infecção…”

          https://www.marxists.org/portugues/einstein/1939/04/30.htm
          Pus o site para que, caso você tenha interesse, leia completamente o texto do Einstein.
          Por isso, sei que a solução é pontual mas luto por ela sem achar que ela é um fim em si mesmo mas apenas um meio para uma nova forma de organização social baseada na igualdade, na liberdade e na solidariedade.
          Valeu, Wilton

        • A queda da taxa de lucro é compensada pelo aumento da +-valia

          Você tem razão, Wilton. A queda da taxa de lucro é compensada pela elevação da taxa de mais-valia. Em sendo assim, a taxa de lucro cai mas, em compensação, a taxa de mais-valia relativa aumenta, atraves da redução do tempo de trabalho necessário para manter o trabalhador produzindo. Dessa forma, a redução da jornada de trabalho vai reduzir a mais-valia absoluta em vez de elevar a mais-valia relativa.

          Em resumo, a queda (tendencial) da taxa de lucro pressupõe o aumento da mais-valia relativa. Sem em vez de se aumentar a taxa de mais-valia relativa se reduz a taxa de mais-valia absoluta, através da redução da jornada de trabalho, os capitalistas vão pro vinagre.

  2. Dias sombrios
    Continuando nessa tocada financeira/financista, a humanidade irá mergulhar em um grande período de escuridão e dias sombrios. Essa situação, a permanecer, levará a guerras incontroláveis

    • Estamos na bifurcação: a luz do socialismo ou a barbárie
      Chegamos na bifurcação que a Rosa Luxemburgo previu: agora é a barbárie individualista-capitalista ou o socialismo.

      Sabóia, se a gente ler o poema da Cora Coralina até a palavra ‘plantas’, fica parecendo que ela é objeto direto. É como se Coralina mandasse a gente remover pedras e plantas. Mas ela não nos sugere remover plantas, mas plantar roseiras.
      Se repetires, o poema da Cora, escreve:
      “Remove pedras e planta (sem ‘s’) roseiras.
      A propósito de guerras incontroláveis, li há pouco que:

      “Muito além de Freixo e do Brasil, o que agora nos preocupa terrivelmente é isto:
      Grandes armas russas a caminho da guerra

      Os dois maiores navios de guerra da Marinha Russa, o cruzador de combate movido a energia nuclear Pyotr Velikiy (099) e o porta-aviões Almirante Kuznetsov (063) cruzam nesse momento o Canal da Mancha (para os franceses; para os ingleses, “English Channel”) navegando rumo ao Mediterrâneo oriental. A missão deles é estabelecer uma zona naval de exclusão de 1.500km ao largo da costa síria, e repelir decisivamente qualquer grupo naval de ataque dos EUA que se oponha a essa medida.”

      Eu não tô nem aí. Antes um fim com terror do que um terror sem fim. Aliás, ontem um menino que brincava me falou que hoje é semente do amanhã, para não ter medo que esse tempo vai passar. Não se desespere, não, nem páre de sonhar. Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs…

      • “agora é a barbárie
        “agora é a barbárie individualista-capitalista ou o socialismo.”

        Se o Brasileiro é uma boa amostra da humanidade, a Barbárie vai nadar de braçada !!!

        “Os dois maiores navios de guerra da Marinha Russa, o cruzador de combate movido a energia nuclear Pyotr Velikiy (099) e o porta-aviões Almirante Kuznetsov (063) cruzam nesse momento o Canal da Mancha (para os franceses; para os ingleses, “English Channel”) navegando rumo ao Mediterrâneo oriental.”

        Na verdade, ontem a frota passava pela cidade do Porto. Imagino que já esteja se aproximando de Gibraltar À essa hora

  3. O dinheiro, melhor dizendo, o
    O dinheiro, melhor dizendo, o papel-moeda, é o maior sistema de Fé que a humanidade já experimentou.
    De simples recibo, no tempo dos ourives, até os dias de hoje, em que assumiu um perfil quase que totalmente virtual. Alguns números digitados no teclado seguidos de um enter.
    Também é a mercadoria mais abundante que já circulou no planeta.
    E seu comerciante é o banqueiro.
    Que não a compra, vende-a mesmo assim, e a cada mercadoria que vende, ganha o direito de vender mais uma.
    Quando a mercadoria fica escassa, os governos se encarregam de trocar papéis com bancos centrais, e os banqueiros ganham mais mercadorias para vender.
    O preço da mercadoria? Os juros.
    O que pode ser melhor que isso?
    Os bancos e as grandes corporações controlam o mundo.
    O mundo é a empresa deles. Tem um departamento jurídico, e moleques de recados, os políticos. Organograma perfeito.

  4. DESIGUALDADE
    O grande empresariado brasileiro é 2º lugar mundial em sonegação de impostos, e também 4º lugar mundial em depósitos de dinheiro em paraísos fiscais.
    Quem carrega nas costas a arrecadação tributária neste país são os assalariados e os autônomos, os primeiros com desconto na fonte e ambos ao consumirem, deixando o valor dos impostos nos caixas de supermercados, lojas, farmácias, postos de gasolina, etc.
    Quando um empresário precifica um produto ou serviço, embute no preço o valor dos impostos. Quem paga tudo somos nós, consumidores.
    Esse mesmo empresariado sonegador, além de deprimir a arrecadação de impostos pela via da sonegação, também vilipendia os cofres públicos através da rede de corrupção montada e administrada por ele mesmo, e que conta com a decisiva participação de seus prepostos (os políticos) “comissionados” (comissão = propina), que viabilizam os achaques aos cofres públicos através de contratos superfaturados de obras, serviços e compras, como vimos no caso da Petrobras.
    Portanto, se o Estado brasileiro arrecadasse o que deveria arrecadar, o funcionário da FIESP, o senhor Temer, não poderia falar sequer em déficit das contas públicas.
    Curiosamente (desculpem a ironia no uso desse termo) o senhor Temer não propôs (e nem cogita propor) qualquer medida contra a sonegação de impostos ou contra a corrupção. Claro que, se o fizer, será “demitido” pela FIESP, que o colocou no cargo de Presidente da República.
    Vivemos um ambiente de injustiça tributária tão severo, que o pobre assalariado que compra um automóvel popular 1.0 paga imposto sobre a propriedade desse veículo anualmente (IPVA), mas o milionário que compra um iate, um jatinho ou um helicóptero simplesmente não paga imposto sobre propriedade desses bens.
    O empresariado nacional sonega mais de 600 bilhões por ano, e enquanto o povo não perceber que são eles os responsáveis pelo abismo que há entre o fato de sermos uma potência econômica (9ª economia mundial) e termos uma realidade social de 100ª economia mundial, nada mudará.
    Somos um país rico de povo pobre, povo este que produz a riqueza da 9ª economia mundial e dela não pode usufruir.

  5. A minha preocupação é ao
    A minha preocupação é ao olhar para a Grécia, ver que a população não se revoltou ao ponto de derrubar o sistema.

    A PEC 241 transforma o Brasil numa Grécia. E até pelo nosso nível de endividamento e pela nossa taxa de juros, tínhamos uma excelente margem para prorrogar o capitalismo, já que na Zona do Euro os juros já beiram a 0.

    Parece que o capitalismo mundial quer prorrogar sua existência essencialmente sugando dos Brasileiros. E se na Grécia, o povo não se revolta o suficiente, tampouco aqui conseguiremos fazer isso.

  6. Não é só capitalista que se endivida
    No seu comentário, o Wilton afirmou:
    “Se as dívidas aumentam sem parar, é porque o lucro do sistema produtivo não foi suficiente para pagar o capital antecipado.”
    Esse trecho do comentário do Wilton dá a entender que são só os capitalistas que se endividam. Mas os trabalhadores estão muito mais endividados do que os capitalistas.
    Se os trabalhadores se endividam sem parar, é porque o salário não é suficiente para eles sobreviverem.
    A riqueza produzida pelos trabalhadores e apropriada pelos capitalistas que investem na produção está cada vez mais sendo canalizada para o pagamento de juros e da renda da terra. Cada vez mais o capital improdutivo aumenta seus ganhos em detrimento do trabalhador e do capitalista que investe na produção.

  7. Há, digamos assim, uma inversão causa-efeito
    O encalhe dos bens e o arrefecimento do mercado de serviços, que levam os empresários do setores a despedir trabalhadores, o que aumenta a concorrência entre os trabalhadores, achatando seus salário, bem como o endividamento de empresas e famílias, que tem como efeito a elevação da taxa de juros devido à demanda por crédito, aliadas a essa taxa de juros estratosférica não são a causa da recessão mas seu efeito. A causa do encalhe dos bens e do arrefecimento do mercado de serviços, que, como antedito, conduzem ao desemprego e à desvalorização dos salários em razão do aumento da concorrência entre os operários, bem como a causa do endividamento generalizado e da alta taxa de juros é a superprodução, a qual, por sua vez, é efeito do sobretrabalho.

    De acordo com o matemático e filósofo inglês Bertrand Russel, o sobretrabalho é desastroso para a humanidade:

    “Não é surpresa que o resultado (do sobretrabalho) tenha sido desastroso. Façamos uma ilustração. Suponha-se que em um dado momento um certo número de pessoas esteja envolvido na produção de alfinetes. Elas fazem tantos alfinetes quanto o mundo precisa, trabalhando (digamos) oito horas por dia. Alguém faz uma invenção através da qual o mesmo número de pessoas pode fazer duas vezes o número original de alfinetes. Mas o mundo não precisa de mais alfinetes, dificilmente seriam comprados mais por um preço menor. Em um mundo sensato, todos os envolvidos na fabricação de alfinetes passariam a trabalhar quatro horas ao invés de oito, e tudo continuaria como antes. Mas no mundo real, isto seria considerado desmoralizante. Os homens ainda trabalham oito horas, há excesso de alfinetes, alguns empregadores quebram, e metade dos homens previamente ocupados em fabricar alfinetes são despedidos. Há, ao final, exatamente a mesma quantidade de lazer do outro plano, mas a metade dos homens fica totalmente ociosa enquanto a outra metade ainda está sobrecarregada. Deste modo, é assegurado que o ócio inevitável deva causar miséria no mundo inteiro ao invés de ser uma fonte universal de felicidade. Pode ser imaginado algo mais insano?” – Bertrand Russel, Elogio ao Ócio

    As altas taxas de juros, que é apontada como causa da recessão bem como esta são, ambas, efeitos da superprodução.

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