Economia, o debate inexistente, por André Araújo

Economia, o debate inexistente

por André Araújo

A definição da política econômica de um grande País, o maior dos emergentes do mundo ocidental, deve ser obtida través de um AMPLO CONSENSO entre as forças políticas e econômicas do País e com o assessoramento das melhores cabeças que seja possível congregar em torno de um Conselho onde se faz a soma de conhecimentos.

Quem é que traçou esse plano espantoso de SÓ ajuste na despesa em plena e profunda recessão sem qualquer medida compensatória para reativar a economia?

Um plano desses não passa pela aprovação política em PAÍS ALGUM, é um plano insano que vai APROFUNDAR A RECESSÃO, como já está se vendo.

Nos Estados Unidos, com sua ampla experiência histórica de crises econômicas, foram ONZE até a de 2008, o Presidente é quem traça a macro política econômica, não é o Banco Central, que tem um papel tático mas não estratégico na macro política econômica.

O Presidente dos Estados Unidos tem um CONSELHO ECONÔMICO na Casa Branca (Council of Economic Advisers), um órgão de cúpula, que o assessora fora e acima do Federal Reserve e da Secretaria do Tesouro. Seu Presidente Jason Furman e a Vice-Presidente Sandra Black são economistas de políticas públicas, não ligados ao sistema financeiro e sua tarefa é apontar caminhos de longo prazo para o conjunto da economia.

Furman tem o titulo de Economista-Chefe do Presidente, seu nome e de sua Vice tem que ser aprovados pelo Senado depois de indicados pelo Presidente. O Conselho funciona como um Estado Maior do Presidente com visão ao mesmo tempo política e econômica.

Não há “panelinha” de economistas de mercado, há uma indicação geral da direção , o Presidente não fica “vendido” a uma só cartilha de um só pequeno grupo.

A direção da política econômica é coisa séria demais para vir da cabeça de um  grupinho que tem sua própria agenda e ninguém nele da economia produtiva.

Na semana passada a dupla de comentaristas de economia do Jornal das Dez da Globonews, Sardenberg e João Borges, dirigidos pelo âncora Donny Di Nuccio, em coro afinado, disseram que já havia claros sinas de recuperação da economia no horizonte. Na ultima terça-feira, dia 18, com cara murcha disseram os mesmos dois com o mesmo âncora que os últimos dados do comércio apontavam para baixo pelo 17º mês consecutivo, nenhuma melhora e só piora do comércio.

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Na mesma matéria quadro sobre 100 mil lojas que fecharam no País em um ano e vídeos de ruas inteiras do Rio com lojas fechadas. Dados anteriores da pesquisa em domicílios, mais precisa do que a pesquisa de desemprego nas 5 metrópoles, indica 16,4 milhões de desempregados (matéria de editorial do ESTADÃO), bem mais que os 12 milhões até então apontados pela pesquisa apenas nas 6 metrópoles.

Do contraste desses dois contextos anunciados pelos mesmos personagens deduz-se que na primeira mensagem “há claros sinais de melhora” havia apenas palpite e não análise. São pagos para dar palpites ou é orientação ideológica da emissora?  Economia não é futebol, não admite palpites, se não podem ou não sabem o que falar melhor não manchar seus curriculos com palpite infeliz, sem relação com a realidade.

Dados fundamentais são escamoteados por toda a mídia tradicional. Notinha inexpressiva no ESTADÃO indica que o BANCO CENTRAL requisita do Tesouro verba para cobrir seu prejuízo de R$ 218 BILHÕES no 1º semestre de 2016, gerado pela venda de proteção cambial, qual seja para segurar a natural valorização do dólar, valorizar artificialmente o Real e com isso “trazer a inflação para o centro da meta”, objetivo contrario à saída da recessão.

Porque esse dado crucial sequer é mencionado? Se o BC gastou R$ 218 bilhões em um semestre, mantida a trajetória seriam R$ 436 bilhões em 2016 mais R$ 600 bilhões de juros da dívida pública, seriam mais de R$1 trilhão de custos financeiros gastos pelo Tesouro em nome de uma política econômica psicodélica, uma conta verdadeira  de gastos em um ano, quantia que deixa pálidas as discussões sobre o corte de gastos das demais despesas.

Ao mesmo tempo, o BANCO ITAU, comandante virtual da atual orientação econômica do Governo já que dois personagens a ele ligados são os pais da atual política econômica, declara alto e bom som que tem excesso de capital no valor de R$ 60 BILHÕES, excesso em relação aos índices de Basileia que já são ultra conservadores. Como se formou esse excesso de capital? Com os mais altos juros do planeta cobrados dos clientes,  que só tem aumentado nos bancos em plena recessão, quando a reação natural em quadro de recessão é a redução das taxas na ponta do cliente.

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O coro dos comentaristas na grande mídia repete como sapos na beira do lago o mesmo cantar. Não há NENHUM debate, nenhum contraditório, nenhuma observação mais profunda, os comentários são RASOS, TOSCOS, REPETITIVOS.  Os que se apresentam como comentaristas não contestam em momento algum a aberração de se perseguir META DE INFLAÇÃO em plena recessão, modelo aberrante mesmo para economistas ortodoxos de orientação conservadora.

O mal maior é a RECESSÃO e não a inflação. Política econômica é ESCOLHA de prioridades, geralmente não é possivel atirar em dois alvos simultaneamente mesmo porque muitas vezes são alvos conflitantes. A INFLAÇÃO cada vez mais baixa é FUNDAMENTAL para as apostas do mercado financeiro mas não é tão importante para a ECONOMIA PRODUTIVA, a que pode tirar o Pais da recessão. Hoje o mercado financeiro é DESLIGADO da economia produtiva, ao mesmo tempo que a recessão se aprofunda, a bolsa sobe e o dolar cai, apenas dólar,  bolsa e apostas em derivativos (juros e índices)  ocupam o escasso mundo mental dos comentaristas.

Nunca ouvi um comentarista carimbado de rádio, tv e jornal fazer análises a partir da observação in loco de lojas dos bairros de classe média, áreas de comércio popular, salões de cabeleireiros, indústrias de bens de capital, NADA. Só falam com meia dúzia de papagaios do mercado financeiro e daí tiram toda a base de seus comentários.

É impressionante a fragilidade intelectual desses comentaristas, não conhecem economia, não conhecem a história econômica e a história do pensamento econômico, repetem os bordões da “turma” dos economistas de mercado sem notas de rodapé, papagaios de economês tosco, constituído de chavões, platitudes e bordões.

O controle dos gastos não é política de emergência, é sistema permanente, há no Brasil uma cultura de descaso e desperdício que se visualiza na crescente ocupação década vez mais prédios pelos poder executivo e pelo aparelho judiciário, a continua abertura de concursos públicos sem se racionalizar antes o enorme contingente de funcionários na já inchada folha, especialmente nas atividades meio, na pura burocracia dos poderes.

Mas só esse controle não tira o País da recessão. Há que se ter um gatilho que puxe o crescimento por uma nova demanda e esta só pode vir do investimento público, o qual  pode ser financiado pela expansão monetária. Se der alguma inflação este é um custo a ser tolerado para o País sair do mal maior da recessão, é uma questão de prioridades.

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A receita é da economia clássica, que se administra por ciclos de expansão e contração.

A recessão requer expansão monetária, a economia super aquecida requer contração monetária que pode ser feita por vários modos e não só pela alta de juros.

Uma das ferramentas de contração é o aumento dos compulsórios dos bancos, outro é a limitação dos prazos e condições de empréstimos, ambas ferramentas baixam os lucros dos bancos enquanto a alta dos juros é o único instrumento contracionista que aumenta o lucro dos bancos e é o único usado pelo BC desde o Plano de Estabilização Monetaria de 1994. Porque não usam instrumentos administrativos como contenção dos empréstimos ou restrição de prazos? Porque são ruins para os bancos, ora.

Ao contrário das políticas  dos grandes ciclos econômicos do Brasil, a atual política não tem grife, não se sabe de onde veio. O Ministro da Fazenda não é formulador de política econômica, não tem formação para isso, será o presidente do BC? Provavelmente é mas não assume e não assina, a política é então órfã, não tem pai e nem mãe. Tudo faz crer que vem da cabeça do economista Samuel Pessoa com colaboração de Mansueto Almeida, mas onde está a autoria publicamente assumida?

É fundamental para sua imposição, operação e sucesso que a política econômica tenha responsável, isso em qualquer País, não pode ser anônima.

Todos conheciam a política econômica de Roberto Campos, a de Delfim Neto e a de Mario Henrique Simonsen, eram políticas com paternidades e responsabilidades claras, refletiam um conjunto de ideias desses grandes personagens, Campos mais ortodoxo, Delfim mais heterodoxo, Simonsen um expoente da escola clássica.

Mas de quem é a atual política econômica?

Ninguém sabe e ninguém assume, essa é uma de suas muitas fraquezas.

 

 

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22 comentários

  1. Debate econômico? Pergunto

    Debate econômico? Pergunto pra quê. Está mais do que claro que quem manda no Brasil é Wall Street. Ou estou louco? De que forma seria explicado a loucura que é a PEC 241 senão como um tremendo esquema para favorecer o sistema financeiro, cujo comando todos sabem de quem é. Com um bônus: inviabiliza o Brasil como Estado-Nação, que no fundo é tão importante quanto drenar toda a renda produzida pelo país. É Marx funcionando a todo vapor.

  2. André, é claro que eles não

    André, é claro que eles não vão agora assumir e nunca o farão, pois essa linha econômica levará o Brasil a ser uma grécia tamanho família – e quando o país quebrar de vez, não haverá pai nem mãe dessa maluquice.  É inacreditável adotar uma política dessa num momento em que os estados estão literalmente falindo – vide o caso mais dramático que é o Rio de Janeiro. Aliás, o Rio é uma amostra perfeita do que é um estado ficar nas mãos do PMBD. 

    Quanto aso mortais do andar de baixo, a coisa está dramática. Tenho um amgio que teve que fechar uma loja, está se endividando no banco e ainda ajuda os país a pagar o planod e saúde que recém aumentou de forma absurda. E está angustiado tentando vender uma casinha pra abater as dívidas com o banco antes que elas fiquem impagáveis. 

  3. Só discordo de uma coisa
    Só discordo de uma coisa nesse texto irretocável.
    Os “comentaristas” de economia do PIG podem não ser sumidades, mas tem um conhecimento mínimo, ou pelo menos razoável de economia.
    O problema deles não é desconhecimento.
    O problema deles é de consciência, de honestidade.
    A primeira, eles venderam.
    A segunda, consequentemente, foi perdida.

  4. economia….

    Economia. Debate inexistente? Brasil. Debate inexistente. Qual é o projeto de país? Quais as perspectivas para cresciemtno, industrialização, formação de profissionais e geração de empregos para estas pessoas? Doar nossas fantásticas reservas naturais, que alavancariam nossa indústria? Combater violentamente nossa agropecuária, fonte de recursos, desenvolvimento, prosperidade ao interior do país por conta de ideologia ultrapassada, que não produz resultados? Destruir nossas empresas e empresários, como se criminosos fossem, ao invés de vitimas de um Poder corrupto? Peguem os discursos de Janio Quadros, nos anos de 1950, fazendo campanha contra a corrupção. País de discussões rasas e limitadas, que não saem do lugar. 70 anos depois. A mesma ladainha e o mesmo país atolado na mediocridade e no atraso.     

  5. Os banqueiros estão rindo à
    Os banqueiros estão rindo à toa,1 trilhão de custos financeiros
    pagos pelo Brasil estimado para 2016,estou muito indignado!
    Sabe André os empresários produtivos são culpados também
    por essa situação,não se articulam,não questionam,parece q
    não estão nem aí,me animei um pouco com o projeto de governo
    do “não candidato” Ciro q enfatiza a ECONOMIA PRODUTIVA, é
    uma luz no fim do túnel para o País assim como estes seus
    artigos sobre a economia,não entendo pq não repercute mais!!

  6. Decentralização de poder

    Sim, Sr. Araújo, seu artigo está corretíssimo. Faço aqui um comentário adicional de que as verdadeiras causas da crise, são a decentralização do poder. Exatamente o oposto do que acontece nos EUA, onde o Presidente manda no Ministério Público, e também define a política econômica quase que sozinho, sem dar muitas explicações a ninguém.

    Aqui no Brasil,o Presidente da República é quase que uma figura decorativa. além dele dividir o poder com o Legislativoe Judiciáio, tem de temer a mídia, que é o quarto poder, maior do que todos os outros reunidos; o presidente tem de temer o Ministério Público, o PGR, a Polícia Federal, e ainda por cima morre de medo de contrariar o Mercado, e tentar definir a Política do Banco Central.

    Ou seja, o Presidente da República no Brasil está aqui só para levar a culpa pelos erros dos outros poderes e instituições. Não pode quase nada, e não manda em quase nada. As chances de se sair de uma recessão com este quadro são próximas de zero.

    Cachorro que tem muitos donos geralmente morre de fome.

    Como um barco a remo, com vários remadores, navegando em alto mar numa tempestade extrema, se todos não remarem em sincronia, o risco de não sairem do lugar e de afundarem é imenso. Mesmo remando em sincronia, dando todas as forças para chegarem a terra firme, o risco de afundar ainda seria grande, o que dizer numa anarquia completa onde cada remador rema da forma que achar melhor.

    E ainda por cima, ainda temos a política dos EUA, contra o nosso país, pois tem feito de tudo para incentivar o desmonte industrial, petrolífero e logistico do Brasil em tudo o que podem. Talvez o objetivo do Império seja mesmo nos reduzir a pó e salgarem nosso solo até que nada mais cresça aqui.

     

  7. economista, profissão extinta

    Outro exemplo do domínio do financismo sobre a economia vem do próprio mercado de trabalho para economistas. Hoje só são conhecidos os economistas empregados de bancos e assemelhados. O cargo de economista chefe hoje deve ser mais ambicionado do que o de ministro da Fazenda.

    Um dos serviços oferecidos, pretensamente de graça, pelos departamentos econômicos do bancos, são palestras e seminários dados por seus profissionais de economia. Tudo que fazem é colocar os mesmos sofismas em ordem e enfeitar com muitos gráficos suas falas decoradas. Não resistem a qualquer questionamento que lhes tire do script.

    Cansei de provocar colegas da empresa de consumo em que trabalhava: como é que vocês podem seguir orientação econômica de gente de um setor que concorre com nossa empresa? Somos produtores de bens de consumo, queremos que a renda seja direcionada para o consumo, de preferência dos nossos produtos. Os bancos competem pela mesma renda, não para ser consumida mas para ser poupada e render comissões e spreads para eles.”

    A profissão de economista logo logo vai ser assumida pelos psicólogos, afinal os economistas atuais só sabem analisar indicadores de confiança.

  8. Quebra por quebra

    Não existe qualquer dúvida que as políticas irresponsáveis do PT quebraram o país. Eu vejo esse governo ilegítimo se aproveitando da situação para revolver a terra arrasada para tentar tirar algo em seu benefício, pois agora detém a caneta e a chave do cofre.

    • Se os muquiranas, antes de
      Se os muquiranas, antes de ficarem repetindo os comentários dos portais e redes sociais, procurassem fontes internacionais em que o mercado financeiro normalmente confia para tomar suas decisões, como o FMI – Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, veriam que a história é bem diferente, e que se o PIB e a renda per capita caíram, e a dívida pública líquida praticamente dobrou, foi no governo Fernando Henrique Cardoso.

      Segundo o Banco Mundial, o PIB do Brasil, que era de 534 bilhões de dólares, em 1994, caiu para 504 bilhões de dólares, quando Fernando Henrique Cardoso deixou o governo, oito anos depois. Para subir, extraordinariamente, destes 504 bilhões de dólares, em 2002, para 2 trilhões, 346 bilhões de dólares, em 2014, último dado oficial levantado pelo Banco Mundial, crescendo mais de 400% em dólares, em apenas 11 anos, depois que o PT chegou ao poder. E isso, apesar do FHC ter vendido mais de 100 bilhões de dólares em empresas brasileiras, muitas delas estratégicas, como a Telebras, a Vale do Rio Doce e parte da Petrobras, com financiamento do BNDES e uso de “moedas podres”, com o pretexto de sanear as finanças e aumentar o crescimento do país.

      Com a renda per capita ocorreu a mesma coisa. No lugar de crescer em oito anos, a renda per capita da população brasileira, também segundo o Banco Mundial — caiu de 3.426 dólares, em 1994, no início do governo, para 2.810 dólares, no último ano do governo Fernando Henrique Cardoso, em 2002. E aumentou, também, em mais de 400%, de 2.810 dólares, para 11.208 dólares, também segundo o World Bank, depois que o PT chegou ao poder. O salário mínimo, que em 1994, no final do governo Itamar Franco, valia 108 dólares, caiu 23%, para 81 dólares, no final do governo FHC e aumentou em três vezes, para mais de 250 dólares, agora.

       As reservas monetárias internacionais — o dinheiro que o país possui em moeda forte — que eram de 31,746 bilhões de dólares, no final do governo Itamar Franco, cresceram em apenas algumas centenas de milhões de dólares por ano, para37.832 bilhões de dólares — nos oito anos do governo FHC. Nessa época, elas eram de fato, negativas, já que o Brasil, para chegar a esse montante, teve que fazer uma dívida de 40 bilhões de dólares com o FMI. Depois, elas se multiplicaram para 358,816 bilhões de dólares em 2013, e para 370,803 bilhões de dólares, em dados de ontem (Bacen), transformando o Brasil de devedor em credor do FMI, depois do pagamento total da dívida com essa instituição em 2005, e de emprestarmos dinheiro para o Fundo Monetário Internacional, quando do pacote de ajuda à Grécia em 2008. E, também, no terceiro maior credor individual externo dos EUA, segundo consta, para quem quiser conferir, do próprio site oficial do tesouro norte-americano — (usa treasury).

      O IED – Investimento Estrangeiro Direto, que foi de 16,590 bilhões de dólares, em 2002, no último ano do Governo Fernando Henrique Cardoso, também subiu mais de quase 400%, para 80,842 bilhões de dólares, em 2013, depois que o PT chegou ao poder, ainda segundo dados do Banco Mundial: passando de aproximadamente 175 bilhões de dólares nos anos FHC (mais ou menos 100 bilhões em venda de empresas nacionais) para 440 bilhões de dólares entre 2002 e 2014. A dívida pública líquida (o que o país deve, fora o que tem guardado no banco), que, apesar das privatizações, dobrou no Governo Fernando Henrique, para quase 60%, caiu para 35%, agora, 11 anos depois do PT chegar ao poder.

      Quanto à questão fiscal, não custa nada lembrar que a média de déficit público, sem desvalorização cambial, dos anos FHC, foi de 5,53%, e com desvalorização cambial, de 6,59%, bem maior que os 3,13% da média dos anos que se seguiram à sua saída do poder; e que o superavit primário entre 1995 e 2002 foi de 1,5%, muito menor que os 2,98% da média de 2003 e 2013 — segundo Ipeadata e o Banco Central. E, ao contrário do que muita gente pensa, o Brasil ocupa, hoje, apenas o quinquagésimo lugar do mundo, em dívida pública, em situação muito melhor do que os EUA, o Japão, a Zona do Euro, ou países como a Alemanha, a França, a Grã Bretanha — cujos jornais adoram ficar nos ditando regras e “conselhos” — ou o Canadá (economichelp).

      Também ao contrário do que muita gente pensa, a carga tributária no Brasil caiu ligeiramente, segundo Banco Mundial, de 2002, no final do governo FHC, para o último dado disponível, de dez anos depois, e não está entre a primeiras do mundo, assim como a dívida externa, que caiu mais de 10 pontos percentuais nos últimos dez anos, e é a segunda mais baixa, depois da China, entre os países do G20 (quandl).

      Não dá, para, em perfeito juízo, acreditar que os advogados, economistas, empresários, jornalistas, empreendedores, funcionários públicos, majoritariamente formados na universidade, que bateram panelas contra Dilma em suas varandas, no início do ano, acreditem mais nos boatos dos comentaristas bundões, do que no FMI e no Banco Mundial, organizações que podem ser taxadas de tudo, menos de terem sido “aparelhadas” pelo governo brasileiro e seus seguidores.

      Considerando-se estas informações, que estão, há muito tempo, publicamente disponíveis na internet, o grande mistério da economia brasileira, nos últimos 12 anos, é saber em que dados tantos jornalistas, economistas, e “analistas”, ouvidos a todo momento, por jornais, emissoras de rádio e televisão, se basearam, no absurdo paradigma de que o Governo Fernando Henrique foi um tremendo sucesso econômico, e de que deixou “de presente” para a administração seguinte, um país econômica e financeiramente bem sucedido.

      Muitos brasileiros sairam às ruas por acreditar que o PT quebrou o país…
       
      Foi o governo do PT que criou o Construcard, que já emprestou mais de 20 bilhões de reais em financiamento, para compra de material de construção, beneficiando milhares de famílias e trabalhadores como pedreiros, pintores, construtores; que criou o Cartão BNDES, que atende, com juros subsidiados, milhares de pequenas e médias empresas e quase um milhão de empreendedores; que aumentou, por mais de quatro, a disponibilidade de financiamento para crédito imobiliário — no governo FHC foram financiados 1,5 milhão de unidades, nos do PT mais de 7 milhões — e o crédito para o agronegócio (no último Plano Safra de Fernando Henrique, em 2002, foram aplicados 21 bilhões de reais, em 2014/2015, 180 bilhões de reais, 700% a mais) e a agricultura familiar (só o governo Dilma financiou mais de 50 bilhões de reais contra 12 bilhões dos oito anos de FHC).
       
      Aumentando a relação crédito-PIB, que era de 23%, em dezembro de 2002, para 55%, em dezembro de 2014, gerando renda e empregos e fazendo o dinheiro circular. As pessoas reclamam, na internet, porque o governo federal financiou, por meio do BNDES, empresas brasileiras como a Braskem, a Vale e a JBS. Mas, estranhamente, não fazem a mesma coisa para protestar pelo fato do governo do PT, altamente “comunista”, ter emprestado — equivocadamente a nosso ver — bilhões de reais para multinacionais estrangeiras, como a Fiat e a Telefónica (Vivo), ao mesmo tempo em que centenas de milhões de euros, seguem para a Europa, como andorinhas, todos os anos, em remessa de lucro, para nunca mais voltar.

      Fonte: Mauro Santayana
      02/08/2015 – http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/A-nova-marcha-dos-insensatos-e-a-sua-primeira-vitima/4/34143

  9. Eu acho que o idealizador

    Eu acho que o idealizador desta política é o Delfim Netto. Não foi ele o idealizador da “Ponte para o Futuro”?  Não é ele que, faz anos, diz que os gastos sociais incluídos na Constituição de 88 não cabem no orçamento?

    De fato, o discurso de que chegamos ao fim do poço e agora começa a recuperação não bate com os mais recentes índices econômicos publicados. Como a economia pode melhorar se a expectativa dos próprios otimistas é de que o desemprego vai aumentar em 2017?

    Analistas econômicos comemoraram, em artigo no Valor,  a reversão das expectativas  e citaram como prova a valorização na bolsa de 64% neste ano  e 21% do real, como consequência das medidas sendo tomadas após o impeachment e, especialmente a  PEC 241.

    Realmente, o impeachment, a queda do PT e a PEC 241, não só melhoraram as expectativas, mas também os lucros reais dos rentistas e especuladores da bolsa. O especulador que aplicou  U$$ 1.000.000,00 na bolsa no início do ano, vai receber, após um ano, US$ 2.085.875,00 – sem imposto de renda. (US$ 1.000.000,00 @ 4,07 = R$ 4.070.000,00 x 1.64 = R$ 6.674.800,00 @ 3,20 = US$ 2.085.875,00). Mesmo considerando o custo do seguro, é um bom rendimento!  Sem dúvida, as expectativas do mercado financeiro melhoraram. Mas, e as expectativas do empresário da economia real?  Aumento da bolsa não significa necessariamente aumento de investimentos, e redução da taxa do dólar significa, para a indústria brasileira, mais concorrência do produto importado e menos exportações.

    A indústria automobilística está operando abaixo de 50% de sua capacidade instalada. O setor industrial  em geral opera com cerca de 70% da capacidade instalada.  Isso significa que uma enorme quantidade de recursos disponíveis esta sendo desperdiçada.

    Quando a produção e venda ficam abaixo de certo nível da capacidade instalada (abaixo do “break even pont “– ponto de equilíbrio), a empresa não fatura o suficiente para pagar todos os seus custos, e começa a se endividar.  Muitas empresas estão altamente endividadas. A despesa com juros passou a representar um custo alto para as empresas.  Antes de pensar em mais investimentos, elas precisam se livras das dívidas e começar a ter lucros. Para isso precisam de pedidos. Em sentido macro, a demanda agregada precisa aumentar.

    A política atual de redução do gasto público e juros altos reduz a demanda agregada.

    Para a empresa privada, o índice que realmente importa é a utilização da capacidade instalada.

    Para o país, é a utilização de seus recursos produtivos, essencialmente seu capital humano, o emprego.

    • Excelente analise, apenas

      Excelente analise, apenas discordo que Delfim tenha algo a ver , Delfim é flexivel e opera por combinações de medidas, esse plano é monotrilho, só vê uma dimensão, a do corte de gastos e nada mais, Delfim nunca foi cozinheiro de um prato só e nem fanatico por meta de inflação. Eu acho que o plano é do Goldfajn, obcecado com meta de inflação, unico tema de seu discurso de posse no BC, nem tocou em emprego e crescimento. Ele é do monetarismo mais primitivo que vê a moeda como um totem a ser adorado e não como instrumento de prosperidade, nem Friedman era tão vidrado por estabilidade monetaria como é Goldfajn, nos bastidores tem tambem ideias do Sumuel Pessoa, economista de planilhas que cal cula até pingo d´agua  caindo da torneira, só enxerga trilho de bitola estreira, é incapaz de ver mais de um lado em qualquer questão economica. Meirelles tem exclusivamente a visão do sistema financeiro, não tem qualquer interesse na economia produtiva. É um grupo de cadaveres economicos que querem a estabilidade dos cemiterios, não veem a economia como algo dinamico, meio caotico, vibrante, com mais de uma solução por problema, não me recordo na historia economica brasileira um time tão ruim dirigindo a politica economica.

    • È a politica dos

      È a politica dos especuladores de Wall Street, o que não quer dizer que em Washington exista uma politica especifica de direção economica para a America Latina, o que eixte hoje em Washington é uma completa indiferença para o que acontece no Brasil, na Argentina, no Chile ou no Peru, a Colombia é um caso especial porque são um aliado estrategico dos EUA.

      Na realidade a recessão no Brasil causa prejuizo aos EUA porque diminui a capacidade de importação do Brasil e tambem reduz o fluxo de turistas brasileiros que são bons compradores do comercio americano.

      Esta politica é tão proveitosa para o jogo financeiro de Wall Street que parece feita sob encomenda para eles.

      • Oi AA, quando eu disse

        Oi AA, quando eu disse politica de Washington, a ideia era me referir tanto a politica do consenso de Washington quanto dos interesses estrategicos dos EUA. Nao me parece prudente supor que os EUA nao se interessam pelo que acontece no Brasil, quando os exemplos da influencia dos EUA no mundo nos ultimos tempos apontam na direçao contraria… se ate pelo Marcelo Tas a Hillary se interessa, nao vamos nem falar de quem realmente interessa…

        • Meu caro, os EUA cometem um

          Meu caro, os EUA cometem um grave erro ao se desinteressar pela America Latina. O Governo Obama centrou todo seu foco geoestrategico sobre a Asia, no Departamento de Estado o time que cuida da America Latina NUNCA foi tão fraco

          como nesse Governo. Personalidades apagadas chefiaram e chefiam o Bureau of Western Hemisphere Affairs (antiga Subsecretaria de Assuntos Latino Americanos), Roberta Joacobson e agora Mari Carmen Aponte. No passado o Subsecretaria para a região, Otto Reich, vinha ao Brasil cada dois meses,  era uma figura constante aqui, o que demonstrava o interesse de Washington, hoje ninguem sabe quem é a chefe dessa diplomacia para a região, nem aparecem por aqui. Da mesma forma Embaixadores americanos em Brasilia são de 2º ou 3º time, o que dá a

          dimensão dessa desimportancia. Nosso time economico que circulava por Washington era de grande peso, Roberto Campos, Otavio Bulhões, Mario Simonsen, Bresser Pereira, FHC, os nomes atuais não tem qualquer expressão maior,

          o Brasil caiu em prestigio, posição e importancia nos EUA, infelizmente, a ponto de aceitar jurisdição do Departamento de Justiça sobre a PETROBRAS, uma aberração juridica, politica e economica.

      • E’ a politica da “plausible deniability”

        A América Latina é ponto focal na avançada para estender a hegemonia de EUA-Wall Street-Londres, no campo econômico e no campo político. 

As peças centrais dessa avançada são os ‘tratados comerciais’ pensados para  subordinar as nações signatárias ao comando hegemônico de grandes empresas e do capital.

        Chile, Peru e México – já assinaram o Tratado da Parceria Trans-Pacífico. O sucesso desses movimentos continentais agora depende de um único fator (eram dois, mas um já foi resolvido: deram um pé na bunda da Dilma que insistia em não mais subordinar os interesses do Brasil aos interesses do capital de Washington e Londres, subordinação que existe desde 1952, com o general Golbery, teórico do golpe de 1964).



        FATOR UNICO: que Hillary Clinton seja eleita.  Os laços que ligam a candidata a Goldman-Sachs e outros bancos poderosos são bem documentados; mas noticia-se menos que Clinton defende a guerra comercial como arma a serviço da política dos EUA. Ela fará o que diz que fará para assegurar controle, exploração econômica e levar a cabo todas as mudanças de regime em curso no continente.  Desde a ascensão de Hugo Chávez, a América Latina anda pelas próprias pernas, democratizando as relações sociais e afastando-se cada vez mais do velho status de “quintal dos EUA”.  Com Hillary Clinton e Wall Street trabalhando mãos nas mãos com os seus prestimosos lambe-pé latinoamericanos, Washington tenta reassumir o controle.

        Fonte: Eric Dreitser,
        http://www.telesurtv.net/english/opinion/Hillary-Clinton-and-Wall-Streets-Neoliberal-War-on-Latin-America-20160429-0034.html

  10. Tirando uma posição Nassif

    Oi Nassif e André,

    Olhando para a frente, precisamos de propostas para o país.

    Desta série do André sobre o CMN/política econômica e do seu Xadrez já temos uma:

    Reformar o CMN para incorporar visões do lado real da economia.

    Algo que o PT deixou de lado por 13 anos.

    M.

    • O PT foi visionário, sim

      ”O Brasil reserva aos estrangeiros o tratamento mais liberal do mundo […] não existem quaisquer restrições em relação à nacionalidade dos acionistas […] não existem limites à exportação do capital lá investido e o reinvestimento dos lucros será considerado incremento do capital original” […]  — Suplemento especial do New York Times

      Foi visão incorporada pelo Merdelles, no governo Lula?
      Não. Foi incorporada no governo Castello Branco.

      Foi uma das primeiras medidas daquele governo e foi publicada no Suplemento especial do New York Times do dia 19 de janeiro de 1969.   O governo Castello assinara acordo que garantia aos investidores estrangeiros o reconhecimento de um status de extraterritorialidade. Reduziam-se impostos sobre os lucros; criavam-se enormes facilidades creditícias para os estrangeiros e contemporâneamente, anulavam-se todas as medidas tomadas pelo governo Goulart, que dificultavam a exportação dos lucros. Esse acordo fora uma das razões para o golpe de 1964.

      Depois disso era pro Castello ter comprado um sitio lá pelas bandas do Prepúcio do Rocha e escrever suas memórias, como fez Amauri Kruel que vendeu a sua dignidade, entregou Jango por duas malas de dólares e foi ser fazendeiro na Bahia (ele soube incorporar uma visão do lado real da propria economia). Robert Bentley, assistente do Lincoln Gordon, reconheceu cinicamente que o marechal entrou ”por uma razão” e ficou ”por outra”. Nessa ”outra” sodomizaram o Brazil. Pois é.

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