Investimento em museus cresce 900% e as elites continuam a desprezar a memória nacional, por Josias Pires

Foto El Pais

Investimento em museus cresce 900% em uma década, mas as elites continuam a desprezar a memória nacional

por Josias Pires

Desde domingo a noite a tristeza abateu-se sobre milhões de brasileiros. Atônitos em meio ao vazio, todos os brasileiros interessados em um Brasil melhor, com justiça, liberdade, igualdade, que defendem o Brasil para os brasileiros sabem do valor, dos sentidos, da importância da memória para a afirmação da história profunda da nação. 

Me diz um amigo: “É um dos cinco maiores museus de História Natural do mundo. Havia objetos não encontrados em lugar algum. Esqueletos inteiros de dinossauros, esqueletos humanos de 10 mil anos, arquivos preciosíssimos, tudo às cinzas.  A maior biblioteca de antropologia da América Latina queimada!”.  

Quem sabe avaliar o significado de pegar fogo e destruir o Museu Nacional, tornar cinza e pó acervos fundamentais para o desenvolvimento dos estudos atuais e futuros sabe também o tamanho do abismo em que caímos. Muitos choraram. Alguns convulsivamente, outros calados, tristes, todos lerdos e perplexos neste dia clamorosamente fúnebre. É como se na queima do museu estivesse a mensagem: é a morte da falta de projeto de nação; as elites bloqueiam a constituição da nação inclusiva, a nação para todos. 

“Você vê – meu amigo continua – “independência sem abolição nem República; República sem povo, positivista, militar. Direitos trabalhistas de inspiração fascista. Modernização com benesses às empresas estrangeiras em prejuízo do patrimônio nacional e dos pobres em primeiro lugar. Como disse o Gregório de Matos Guerra… Triste Bahia. Triste Brasil””.

“O brasileiro não tem memória”, diz o bordão incessantemente repetido.  A verdade é bem outra. O nosso problema é que a memória dos brasileiros sempre foi desprezada pelas elites. Humilhada. As memórias dos escravizados e dos seus descendentes, dos indígenas, e mesmo a memória dos brancos, pobres, e ricos inclusive, sempre foram desprezadas. Quando o Serviço do Patrimônio (SPHAN) foi criado, na década de 1930 o governo vetou a parte do projeto, feito por Mario de Andrade, que incorporava o patrimônio popular, negro, indígena. O SPHAN foi criado para cuidar de patrimônio arquitetônico colonial, de pedra e cal, de igrejas e grandes casarões de Ouro Preto, na época em ruína.

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Apesar das elites, contra elas ou parte delas, haveremos de defender um projeto de nação inclusiva, nação de todos, nação de tantos quantos queiram a riqueza do Brasil repartida para o crescimento dos brasileiros. 

Assim como os franceses do final do século XVIII fizeram a Revolução Francesa para acabar com o absolutismo feudal, estamos os brasileiros diante da necessidade de lutar para acabar com a predação dos bens comuns. Estamos diante da necessidade de recriar a nação.  Neste momento em que a memória museológica da nação é incinerada devido a inépcia da quadrilha que assalta o Estado brasileiro; neste momento de falência do projeto das elites, devemos – trabalhadores, artistas, profissionais de todas as artes e serviços, enfim, todos os interessados – a darmos o passo adiante. 

Os teóricos do direito, sociólogos, politicólogos, filósofos referem-se ao “poder constituinte” do povo, o detentor da soberania da nação. Sementes plantadas e adubadas nos últimos 15 anos são fundamentais para fazer germinar novas possibilidades de desenvolvimento de comunidades urbanas e rurais, de uma miríade de grupos construindo um país melhor em todo o território nacional. A conjuntura está a exigir reconfiguração do jogo e da atuação dos atores políticos.  No pavoroso incêndio do Museu Nacional deve queimar também o embuste dessas elites travestidas de salvadoras. As máscaras estão caindo.

http://www.museus.gov.br/investimento-em-museus-cresce-em-uma-decada/

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6 comentários

  1. Hoje eu li algo que,

    Hoje eu li algo que, infelizmente, não posso “desler”: Um indivíduo dizendo que o incêndio no Museu Nacional foi bom porque nossos 500 anos de história repletos de “podridão” deveriam mesmo ser esquecidos.

    Então, a história só vale se ela for “fofinha”? Devemos esquecer os episódios sombrios, como guerras, escravidão e injustiças, em vez de lembrá-los para que não tornemos a repeti-los?

    Detalhe: Eleitor do Bolsonaro.

  2. Elite É Elite

    Nasasif: tenho que concordar com a elite. O Pais não é dele. Não passa de um quintal dos norteamericanos. Então, por quê cuidar de subcultura se pode (e vão, trimestralmente) ir diretamente à fonte? De quebra, faz compras em New York. Quando não estica e vai a Londres, Paris e Roma. Acham (e se dizem com razão) que tratava-se de uma velharia, um prédio ligado a realeza protuguesa e brasileira. Com um montão de cacarecos. O dinheiro economizado, se devidamente desviado de sonegação de impostos e outros, dá prá viajar por uns dois anos nas estranjas. E se quiserem ver múmia vão ao Louvre ou ao Cairo. Agora mesmo, você duvida que parte da grana não vá pro caixa 3 (as quadrilhas usam esse novo caixa. A PGR só investiga se não do bando)? O ano é de eleição. Sei não se não foram os próprios que botaram fogo no casarão. Prá eles, dindim. Pra grande mídia, manchetes. Quer coisa melhor?

  3. Posso estar errado, mas creio

    Posso estar errado, mas creio que essa aniquilação da memória, da história só tem parelelo em países que estavam em guerra ou coisa parecida. Tipo os Talibãs destruindo relíquias, Iraque sendo bombardeado e por aí vai. 

    E é bom lembrar que França e Inglaterra passaram pela segunda guerra e o Louvre e o British Museum foram preservados. Acho que estamos no caso do “coisa parecida”

  4. A Globo, ontem à noite, tinha

    A Globo, ontem à noite, tinha repórter entrevistando uma senhora lá no prédio da Reitoria da Universidade de São Paulo, por voltas das sete da noite.

    “Na reitoria”, leia-se, do lado de fora do prédio, mas dentro das grades (quem não sabe, a reitoria da USP é cercada de grades). 

    Às sete da noite, meus amigos.

    Fico pensando nas boas opiniões que na USP podem sair, de verdade.

    Apesar de lá ter uma brasiliana que não é uma autêntica brasiliana e terem gastado mundos e fundos com prédios que são esqueletos mal assombrados. Herança maldita do Rodas, Zago et caterva. 

    Esses mundos e fundos que fizeram falta ao Museu Nacional. 

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