Na tentativa de se blindar sobre casos de corrupção, Bolsonaro radicaliza discurso contra imprensa

Governo teme perder apoio da base eleitoral; Nos últimos meses, Bolsonaro intensificou ataques contra a imprensa e deixou de realizar os cafés diários com jornalistas

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Jornal GGN – Desde de julho o presidente Jair Bolsonaro não realiza mais os cafés que promovia com veículos de comunicação. No último encontro, uma conversa particular entre ele e o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, onde se referiu a nordestinos como “paraíbas”, acabou sendo vazada por um microfone da TV Brasil. Naquele dia ele também afirmou para jornalistas que não havia fome no Brasil.

Bolsonaro também deixou de conceder entrevistas diárias aos jornalistas que o esperam na frente do Alvorada, ato que ele vinha realizando desde junho. Foi em uma dessas ocasiões, ao ser questionado sobre as críticas à OAB no caso Adélio, que o presidente disse que sabia o que tinha acontecido com o pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, desaparecido desde 1973, após ter sido levado por agentes do estado, durante a Ditadura Militar.

A estratégia de evitar contato com a imprensa também está sendo acompanhada por ataques diretos aos meios de comunicação. Neste final de semana, Bolsonaro disse que a Folha de S.Paulo foi “às profundezas do esgoto”. O jornal divulgou no domingo uma reportagem mostrando indícios da investigação da Polícia Federal que os recursos desviados no esquema de candidaturas laranjas do PSL em Minas Gerais foram usados para abastecer a campanha de próprio Bolsonaro por meio de caixa dois.

O presidente também fez críticas públicas aos jornais O Globo e Correio Braziliense, os acusando de mentirem em reportagens sobre medidas administrativas estudadas pelo seu governo. Recentemente, Bolsonaro encerrou uma coletiva de imprensa logo após ser perguntado sobre levantamentos do Ministério Público do Pará de que houve a tortura de presos durante a intervenção do governo federal. “Parem de perguntar besteira”, disse o presidente antes de deixar o local.

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Segundo informações da Folha de S.Paulo, a partir de auxiliares do governo ouvidos pelo jornal, a radicalização de Bolsonaro contra a imprensa se deve a receio de perder apoio na base de eleitores, uma vez que ele foi eleito com o discurso da tolerância zero contra corrupção e irregularidades.

“A última pesquisa Datafolha, divulgada em setembro, mostrou que a reprovação ao governo aumentou nos últimos meses até mesmo em grupos que antes eram simpáticos à sua gestão, como eleitores mais ricos e moradores da região Sul do país”, escrevem Gustavo Uribe e Talita Fernandes, jornalistas que assinam a matéria de análise.

“A mesma estratégia de radicalização já havia sido adotada em julho, quando o presidente intensificou a agressividade de declarações após ser criticado pela indicação de um de seus filhos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), para o posto de embaixador nos Estados Unidos”, completam.

Nesta terça-feira (8), na saída do Palácio da Alvorada, Bolsonaro fez outra movimentação estranha. Em uma conversa informal, feita na saída do Palácio da Alvorada, o mandatário pediu para um apoiador esquecer o PSL e ainda, que o presidente nacional do partido, o deputado federal Luciano Bivar (PE), está queimado.

Bivar é um dos nomes do PSL citado nas investigações sobre as candidatas laranjas do partido nas eleições de 2018. A denúncia do esquema, iniciada a partir de reportagens da Folha de S.Paulo, gerou dois inquéritos. Um deles está na Justiça Eleitoral de Pernambuco, reduto de Bivar, e levou à demissão do Gustavo Bebianno da Secretaria-Geral da Presidência, em fevereiro.

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O outro inquérito tramita na justiça de Minas Gerais. Nele a Polícia Federal e o Ministério Público acusam o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, e outras 10 pessoas pela prática dos crimes de falsidade ideológica eleitoral, apropriação indébita de recurso eleitoral e associação criminosa.

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