O fim do anti-petismo e o início do desespero bolsonarista, por Fábio de Oliveira Ribeiro

O desespero de Bolsonaro é um fator importante que não pode ser desprezado. Ninguém sabe se e quando o mito finalmente criará coragem de se autoproclamar ditador, mandando fechar o Congresso Nacional e invadir o STF.

O fim do anti-petismo e o início do desespero bolsonarista

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Duas coisas chamam a atenção nesse fim de semana.

A primeira é o Editorial da Folha de São Paulo admitindo que Lula não teve um julgamento justo. O invólucro de proteção total dada à Lava Jato começou a ser destruído. Como a operação comandada por Sérgio Moro dependia da unanimidade jornalística não me parece que ela consiga ser preservada agora que uma grande empresa de comunicação finalmente reconheceu as nulidades processuais que foram cometidas no caso do Triplex.

Muito embora tenha se associado ao The Intercept para noticiar a Vaza Jato, a Folha demorou para reconhecer o erro que cometeu ao legitimar de maneira acrítica o método processual adotado pela dupla lavajateira. Nunca é demais lembrar que muito antes do hacker ter obtido e vazado as conversas escandalosas e juridicamente comprometedoras entre Deltan Dellagnol e Sérgio Moro vários juristas de renome, dentro e fora do Brasil, já apontavam abusos e nulidades cometidas durante o processo do Triplex.

A Folha poderia ter dado visibilidade aos críticos do processo do Triplex, mas preferiu legitimar uma condenação injusta proferida por um juiz absolutamente parcial. É evidente que a imprensa é e deve ser livre. Mas quando é mal utilizada (como ocorreu no caso da cobertura dada ao caso do Triplex) a liberdade de imprensa pode acabar fortalecendo facções criminosas que se apropriam do Sistema de Justiça e o utilizam para sabotar a democracia.

Esse Editorial da Folha é importante, não apenas porque dá ao STF fôlego para decidir os processos da Lava Jato sem medo de ser hostilizado por toda a grande imprensa. Ela também provocará o colapso da onda de anti-petismo que criou o vácuo político que permitiu a injusta cassação de Dilma Rousseff e a vitória eleitoral de Jair Bolsonaro.

A distância que existia entre a imprensa paulista e o presidente brasileiro tende a aumentar. A percepção desse fato parece ter levado Ciro Gomes a anunciar que a tarefa dele é impedir que o PT chegue ao 2º turno na próxima eleição. Essa é a segunda coisa que chamou minha atenção.

Em razão da desidratação política do bolsonarismo provocada em parte pela incompetência do presidente brasileiro, Ciro Gomes presume que tem chance de ganhar a próxima eleição presidencial se apresentando como um candidato de direita. Ao que parece, ele cometeu o erro de acreditar que poderá surfar na onda de anti-petismo que já começou a desmoronar. Além disso, a direita paulista já tem um candidato paulista e não apoiará um líder nordestino que é muito menor do que imagina ser.

O adversário natural de Ciro Gomes não é o PT e sim o governador de São Paulo. Mas a recíproca não é verdadeira, pois Doria Jr. tem algo que o Barão de Sobral nunca conseguirá ter. Refiro-me obviamente, à fidelidade eleitoral da imprensa paulista em parte sustentada com verbas de publicidade do Estado de São Paulo. No último grande bastião tucano Ciro Gomes será considerado apenas um incômodo, pois o adversário de Doria Jr. é Bolsonaro (o que explica o sucesso da operação midiática em torno da vacina paulista produzida pelo Butantã).

Qualquer que seja o candidato petista ele provavelmente estará no 2º turno na próxima eleição. O problema do PT não é conservar seus eleitores, mas conquistar os eleitores que perdeu em decorrência da onda de anti-petismo que acarretou a condenação de Lula. Todavia, em 2022 as relações entre os partidos não serão iguais às que existiam em 2018, pois a Lava Jato foi extinta e a Vaza Jato já começou a ganhar mais força do que tinha quando de sua divulgação.

O desespero de Bolsonaro é um fator importante que não pode ser desprezado. Ninguém sabe se e quando o mito finalmente criará coragem de se autoproclamar ditador, mandando fechar o Congresso Nacional e invadir o STF. A hesitação do candidato a ditador é evidente e motivada. Tudo indica que Bolsonaro ficará mais isolado do que já está. Além de não poder contar com apoio internacional ele não pode contar com total lealdade das Forças Armadas.

Existe um abismo entre o desejo pessoal de ser ditador e o sucesso de uma ditadura metodicamente construída que consegue se tornar aparentemente legítima aos olhos da imprensa, da população e da comunidade internacional. Todavia, é justamente nesse abismo que algumas tragédias conseguem nascer e provocar instabilidades políticas imprevisíveis.

A previsibilidade sempre foi considerada um fator importante para o desenvolvimento econômico. Os liberais do século XIX e os neoliberais odeiam a imprevisibilidade da democracia. Uma guerra civil, entretanto, provocaria uma catástrofe econômica distribuindo os prejuízos por todas as camadas da sociedade.

Infeliz o general que vai para o campo de batalha com um sistema preestabelecido!” (Manual do Líder, Napoleão Bonaparte, L&PM Pocket, Porto Alegre, 2010, p. 21)

Infeliz o empresário que acredita poder obter apenas lucros durante um conflito militar. A guerra só eleva os homens brutais e economicamente inaptos. Ela quase sempre rebaixa os empresários a seres desprezíveis que podem ser ameaçados, extorquidos, raptados e eventualmente mortos para que a máquina de guerra possa continuar a moer gente. Além disso, os mortos não consomem nada. E até hoje ninguém conseguiu provar que é possível ter economia ou crescimento econômico sem consumo.

A eleição de 2022 ainda não foi decidida. Mas uma coisa é certa: Ciro Gomes não está no páreo, pois ele é um bonapartista que se recusa a seguir o conselho dado por seu mestre francês.

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