O mundo parece estar parindo o novo à fórceps, por Assis Ribeiro

O mundo parece estar parindo o novo à fórceps

por Assis Ribeiro

Depois do estrondoso sucesso do livro “O Capital no Século XXI”, do economista francês Thomas Piketty, que estarreceu os neoliberais e exultou os esquerdistas ao fundamentar com profundidade inquestionável que a crise econômica mundial não seria resolvida sem desconcentrar o capital e promover a sua redistribuição taxando os mais ricos, o jornalista brasileiro Luís Nassif, no artigo https://jornalggn.com.br/noticia/xadrez-da-revisao-do-projeto-dos-campeoes-nacionais , levanta a questão da concentração abordando as causas e consequências da política brasileira na busca de se criar grandes players nacionais, incluindo no seu estudo “as tramoias do capital financeiro e do industrial”.

Tornou – se amplamente perceptível até para os de mente avestruz que a corrupção e a deslealdade dominaram os todos os trâmites dos processos econômicos. Que o financiamento da imprensa e de jornalistas para favorecer os seus interesses, a compra de juízes e procuradores e outras “tramoias” são verdadeiros efeitos colaterais na criação das grades empresas, e não é por outra razão que as nossos grupos de alavancagem econômica como a Petrobras, OAS, Odebrecht, OI, JBS estão citadas na operação Lavo Jato.

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Ficou claro para qualquer observador das cenas mundiais o descontentamento das populações, a dificuldade dos países em impulsionar as suas economias, a submissão dos governos ao chamado “mercado” e o distanciamento da representação pública. Essas situações colocam em risco as democracias e a estabilidade mundial.

A grande crise que abraça o mundo tem seus alicerces, não propriamente na economia mas, na ideologia formadora da cultura INDIVIDUALISTA DE RESULTADOS (ou neoliberalismo), que impulsiona o egoísmo e o segregacionismo e ela é, consequentemente, CONCENTRADORA.

Os próprios formatadores da ideologia liberal se preocuparam com a concentração de poder ao propõem elementos de contenção ao chamado Estado Leviatã.

Esqueceram-se, entretanto, que toda forma de poder é, por si só, concentradora, de tal forma que o poder, com o enfraquecimento do Estado, seria transferido para outros setores.

Se a concentração de forças já não é interessante no próprio Estado, menos ainda, e mais perigoso, a sua transferência para as empresas privadas.

A concentração de poder privado cria empresas mastodontes que engolem as pequenas, corropendo, fraudando, manipulando, trazem desemprego, e manietam os governos.

A apropriação do conceito Estado Liberal pelo neoliberalismo tem provocado –  pela marginalização intencional do poder de representação delegado aos eleitos para o parlamento e para o poder executivo – um distorção dos elementos primordiais da chamada democracia.

Por esses motivos há a transferência do poder do Estado para:
1 – o capital;
2 – a imprensa;
3 – o poder judiciário.

Repetindo, propositalmente, essa transferência de poder do Estado para outros setores é um princípio deturpado e completamente desconhecido dentro do conceito democracia.

Em democracias não pode haver quaisquer tipos de concentração, menos ainda a que foge do Estado como entidade representante dos anseios das populações.

Toda concentração promove desequilíbrios, sejam​ econômicos, sociais, políticos, e, como consequência, traz injustiças, desequilíbrios, insatisfação e insegurança.
Não é isso que o mundo está passando?

Assim, em uma democracia é inaceitável:

1 – que empresas privadas elejam pelo seu capital financiador políticos que terminam por ficar dependentes da busca gananciosa de lucros;

2 – que a imprensa fique concentrada em um pequeno grupo familiar, o que favorece à manipulação de informações e condicionamento psicológico dos seus leitores e telespectadores;

3 – concentração de poder no judiciário, tido nos estudos de Direito e Ciência Política como risco da pior ditadura que pode existir, a do poder judiciário.

O que diz os itens acima, nada mais é do que o conhecido instituto básico das democracias, e expresso nos artigos iniciais de qualquer Constituição democrática:

“Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente,”.

O modelo está saturado, e não há quem consiga fundamentar em contrário.

As políticas apresentadas pelo sistema –  que vão dos governos da direita à esquerda – empurram goela abaixo das populações planos completamente distanciados das suas promessas de campanha que os elegeram.

Por isso, não é de se estranhar que nomes como o de Trump, Marine Le Pen e o de Bolsonaro ganhem destaque nas recentes disputas. O que isso quer dizer? 
– que as populações estão saturadas dos políticos tradicionais;
– que os políticos eleitos não representaram aquilo que prometeram às populações em suas campanhas;
– que o conceito de representatividade está falindo;
– que o próprio modelo de democracia está agonizando.

Portanto, é o próprio modelo filosófico, a ideologia concentradora, que está sendo questionado.

São os próprios conceitos do liberalismo que estão sendo questionados. A livre iniciativa – o “laiser-faire” – e  seu chamado mercado livre nas trocas comerciais internacionais, ao contrário do forte protecionismo baseado em elevadas tarifas alfandegárias. Não foi discurso de proteção da produção nacional que levou os eleitores a concederem a vitória a Trump, o mesmo que levou Marine Le Pen ao segundo turno das eleições francesas?

Dentro do sistema – e o que ele nos ensinou a raciocinar – ficou difícil entender o motivo que levou as consideradas duas principais democracias do mundo a fortalecerem lideres tão distorcidos e distanciados do conceito democracia, chegando a eleger um deles como seu principal líder?
Você e o sistema não acreditaram nas potencialidades deles? – Então, não estamos entendendo bulhufas do que está acontecendo no mundo, desde a crise de 2008, ou das graves manifestações, subsequentes, pelo mundo.

O modelo não trouxe um melhor aproveitamento das vantagens comparativas de cada país e para a economia mundial como prometido. Os efeitos negativos da concentração, como o controle hegemônico do mercado e dos próprios governos pelo grupo concentrador suplantou de forma deletéria o que ele poderia trazer de vantagens. O que vimos foram a pactuação dos preços abusivos e o surgimento do desemprego. O prometido barateamento da produção pela redução dos custo da economia de larga escala não chegou ao consumidor. A eficiência apenas benefiou o aumento do lucro, sem o seu repasse para o barateamento dos preços. Nem mesmo o prometido “equilíbrio de mercado” ocorreu.

Pelo visto, o novo será arrancado a fórceps.

Prenúncio de amplos conflitos, internos e entre nações.

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