O que o fracasso da guerra contra as drogas pode nos ensinar, por Johann Hari

Foto: Danilo Verpa/Folhapress

Sugestão de Alfeu

do The Intercept_Brasil

O que o fracasso da guerra contra as drogas pode nos ensinar

por Johann Hari

No Brasil atual, as pessoas estão ou inspiradas ou apavoradas com a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência – e, para entender o que pode acontecer em seu governo, eu acredito haver uma história que deve ser explorada antes, porque essa é a única forma de enxergar um futuro.

Nos últimos oito anos, viajei pelo mundo inteiro me informando sobre a guerra às drogas (e as alternativas à guerra às drogas) para o meu livro “Na fissura: uma história do fracasso no combate às drogas”, recém-publicado pela Companhia das Letras. Estive em lugares com as políticas mais brutais em relação a usuários, dependentes e traficantes de drogas (como o Vietnã, o norte do México e os Estados Unidos); e fui a lugares que descriminalizaram todas as drogas (Portugal) ou as legalizaram (o estado do Colorado, Uruguai e Suíça). Há seis lições desta guerra global que explicam a ascensão de Bolsonaro – e o que acontecerá se ele fizer tudo o que prometeu durante sua campanha eleitoral.

Lição um: A guerra às drogas cria uma guerra pelas drogas.

O Brasil tem mais de 60 mil assassinatos violentos todos os anos, e a população está certa em se enfurecer e exigir mudanças radicais que resolvam essa catástrofe. Esta foi uma das principais razões pela qual tantas pessoas apoiaram Bolsonaro: elas acreditavam que ele, pelo menos, falava sobre o problema da violência massiva, e que tinha um plano para resolvê-la.

Mas, para entender por que o plano dele não funcionará, nós precisamos, em primeiro lugar, entender o que está causando metade dessa violência.

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Para começar, faça um pequeno experimento mental. Imagine que você está em Chicago e decidiu roubar uma garrafa de vodca. Se você for até uma loja de bebidas, colocar a garrafa embaixo do casaco e os donos da loja te pegarem, eles vão chamar a polícia e a polícia virá e te levará. Assim, a loja em si não precisa usar violência; ela não precisa ser intimidadora; eles têm o poder da lei sustentando seus direitos de propriedade.

Agora, imagine que você está em Chicago e quer roubar um pacote de maconha, ou cocaína, ou metanfetamina. Se a pessoa que te vende a droga te pegar roubando, ela não vai chamar a polícia – ela iria presa. Ela vai lutar com você. Agora, se você é um traficante (e eu passei um tempo com vários deles durante o tempo de minha pesquisa), não precisa ficar comprando brigas todos os dias. Você precisa estabelecer uma reputação por ser tão assustador que ninguém ousaria te desafiar. Na verdade, você precisa estabelecer o seu lugar enquanto vendedor e resistir a seus rivais através da violência. Como o escritor Charles Bowden disse, a guerra às drogas cria uma guerra pelas drogas.

Maria Lucia Karam, importante juíza brasileira, calcula que 30 mil dos assassinatos no Brasil todos os anos são um resultado direto desta guerra pelas drogas criada pela proibição.

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https://www.youtube.com/watch?v=ViLFfQuuD7I align:center

 

 

1 comentário

  1. Ta bom, entao devemos liberar

    Ta bom, entao devemos liberar geral, maconha, cocaína, crack… e o que vamos fazer quando nossas cidades se transformarem em um imenso cenario de Walking Dead, como a Cracolandia? Convenhamos, o programa do Haddad que vc defende foi extinto porque nao tirava as pessoas do vicio e funcionava como um incentivo para que outros enveredassem por esse caminho. Sem falar que vc se contradiz quando diz que “vida boa” e conexão social diminui o problema. Se assim fosse, nao teriamos consumidores nas classes mais abastadas, nao é mesmo? Por fim, o problema das drogas é que enquanto existir um mercado consumidor, haverá uma “industria” disposta a suprir estes clientes. Legalizar nao acabará com o problema, pois o mercado clandestino sempre vai oferecer o produto mais barato, vide o mercado de cigarros e uísques contrabandeados.

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