Sistema Alto Tietê chega ao pior nível de sua história. Até quando ele vai durar?

Sistema Alto Tietê chega ao pior nível de sua história

Hoje, 27 de Agosto, é um dia negativamente histórico. Pela primeira vez, desde que passou a funcionar a partir da integração de suas 5 represas – Paraitinga, Ponte Nova, Biritiba-Mirim, Jundiaí e Taiaçupeba – o Sistema Alto Tietê baixou do patamar de 16,4%, marca que tinha atingido em 16 de Dezembro de 2003, naquela era havia sido, até então, a pior crise hídrica da história de São Paulo. Naquele momento, por sinal, Paraitinga e Biritiba-Mirim eram obras em processo de finalização, e constituíam reservatórios em processo de enchimento. No contexto daquela crise, eram percebidas como uma solução importante para evitar com que uma parcela relevante da população paulista – quase 5 milhões de habitantes – corresse novamente o risco de pleno desabastecimento. À época, o mesmo governador, Geraldo Alckmin, também apostou nas chuvas, que vieram muito acima da média nos primeiros meses de 2004 e aliviaram os problemas desse sistema e do Cantareira. No final desse ano, contudo, o Alto Tietê voltou a cair para cerca de 25% de sua capacidade, o que acendeu novas luzes amarelas na gestão tucana. Novamente “São Pedro” foi generoso e proporcionou mais uma estação chuvosa considerada excepcional.

Desta vez, no entanto, a crise hídrica parece ser muito mais grave – e não é a circunstância de não termos um veículo sequer da mídia que tenha dado a manchete acima (!) que a tornará menos difícil de ser superada. Isso, é claro, porque estamos ainda em fins de Agosto. Os recordes negativos citados acima ocorreram ambos nos meses de Dezembro – o que significa que houve, naquele momento, um atraso no começo das chuvas, o que agravou a dramaticidade dos problemas. Em nosso caso atual, a possibilidade de que esse fenômeno venha a se repetir é considerável, dadas as estimativas de climatologistas, já replicadas em artigos anteriores.

É interessante recuperar a outra crise hídrica grave ocorrida no Alto Tietê, sucedida em 1994. À época – último ano da gestão Fleury –, optou-se por um racionamento, iniciado em 3 de Novembro daquele ano (um pouco antes do Segundo Turno das eleições, vencidas por Mário Covas (PSDB) contra Francisco Rossi (PDT), sendo que o candidato do governo, Barros Munhoz (PMDB), chegara apenas em quarto lugar, atrás de José Dirceu (PT)). O Sistema estava com 25% da sua capacidade. O corte no abastecimento de água durou exatamente até 31 de Dezembro do mesmo ano, na véspera da assunção do novo governo. Nesse momento, o Alto Tietê – que havia se tornado um sistema produtor de água para consumo há apenas 2 anos e com 3 represas – havia chegado a cerca de 32% da sua capacidade.

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Hoje, nem o “rodízio de água”, nem a redução da produção (como o que ocorre no Sistema Cantareira) são sequer cogitados para o Alto Tietê – o que reputo à existência de uma autonomia gerencial muito maior por parte da SABESP quando comparamos esse sistema com o Cantareira, que conta com um comitê formado especialmente para lidar com a crise e tem a participação da ANA, agência reguladora federal (além de ser mais antigo e de receber muito mais atenção da imprensa, dada a sua abrangência do ponto de vista dos atendidos por ele). Com isso – e a partir das decisões dessa empresa, não contestadas por outros órgãos públicos exatamente em virtude dessas conformações legais, que conferem àquela imenso poder deliberativo – o Alto Tietê se encaminha para o rápido esvaziamento. E isso, repito, em um contexto muito mais adverso do que em qualquer outro momento da história do Alto Tietê do ponto de vista da quantidade de água remanescente no sistema.

Diante desse contexto, conforme avançamos neste fim de inverno, mais parece evidente a impossibilidade de se desarmar a bomba relógio desse sistema – ainda utilizado, aparentemente, para “salvar” o Cantareira. O agravamento do déficit diário entre produção e consumo ocorrido nos últimos dias faz com que, de acordo com nossas estimativas, na hipótese mais otimista o Sistema conte com algo como mais 121 dias de vida. Nesse cenário, pressupomos que a SABESP será capaz de sugar tanto os 10 bilhões de litros que disse ser capaz de retirar do Biritiba-Mirim como os 15 bilhões de litros do Jundiaí. Se há dúvidas teóricas sobre a viabilidade dessas operações (já que esses níveis abaixo do “0” operacional nunca foram medidos com a mesma precisão do observado, p.ex., com relação ao Cantareira), os atrasos correntes da empresa em implementá-las tornam o cenário um tanto improvável.

De fato, a SABESP havia mencionado um planejamento no qual já haveria condições técnicas para a retirada da água da primeira represa apontada em Agosto, e da segunda, em Novembro. Há, como sempre no caso dessa empresa de abastecimento ao longo da crise, pouquíssima publicidade sobre o status dessas intervenções. O Diário de Mogi aponta para a conclusão de uma obra para a retirada do restante do volume útil de Biritiba no último dia 21, mas não está claro se os dutos terão condições de extrair também o comentado volume morto (não se sabe se as bombas já foram adquiridas, nem o prazo para sua instalação). O jornal ainda noticia (http://www.odiariodemogi.com.br/cidades/destaque/25097-mp-apura-construcao-de-bloqueios-no-rio-tiete.html) a realização de operações de alteração do curso do Rio Tietê (com o propósito de se aumentar a vazão de água até a estação elevatória) as quais estão sendo analisadas pelo Ministério Público por potencialmente significarem prejuízo no abastecimento de outros beneficiários desse curso d’água – o que, é claro, ensejaria responsabilizações e sanções à SABESP.

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Cenários para o desabastecimento completo do sistema – até quando dura o Alto Tietê?

Verificamos, hoje, que o Sistema está com 16,25% de sua capacidade. As 3 represas situadas após a estação elevatória possuem, juntas, apenas 16,99 bilhões de litros de água. Conforme já havia comentado antes, a estação elevatória que transporta a água dos dois reservatórios situados “antes” delas no fluxo hídrico possui um limite de envio de 9 m³/s, sendo que a produção do Alto Tietê é de 15 m³/s. Se aquelas 3 represas precisam mandar 6 m³/s para completar a produção, então só possuem mais 49 dias de vida (considerando-se, para todos os cálculos, ingressos marginais diários – a vazão afluente –  de 2 m³/s para elas e de 4 m³/s para as 2 outras represas, valores próximos às mínimas históricas, que deveriam ser consideradas para um cálculo emergencial como esse). Se, por hipótese, considerarmos que a SABESP conseguirá, a tempo, retirar os 10 bilhões de litros de água do volume morto do Biritiba, então consegue-se mais 29 dias de sobrevida. Ao longo desses 78 dias, então, a represa de Ponte Nova, responsável por todo o envio dos 9 m³/s supracitados, terá perdido 40,44 bilhões de litros, ficando com apenas 13,65 bilhões de litros remanescentes. Caso a SABESP não consiga concluir as obras para a retirada do volume morto da represa Jundiaí antes de 13 de Novembro de 2014, então o Alto Tietê entrará em falência.

Por outro lado, caso as bombas realmente sejam instaladas e a retirada desse volume morto possa efetivamente acontecer, teremos mais um pequeno período de sobrevida. Levando-se em conta que Paraitinga (praticamente fechada para descargas de água, a não ser as estabelecidas na outorga) chegue até a data acima com o armazenamento de hoje (12,95 bilhões de litros), as duas represas “de cima” terão, juntas, 26,57 bilhões de litros, ao passo em que Jundiaí contará com os 15 bilhões de litros do seu volume morto. Mantendo-se os pressupostos acima, teremos o esgotamento da água de Jundiaí em 43 dias, enquanto que o restante de Ponte Nova e Paraitinga se esvairá em 51 dias. Com isso, a inviabilização do Alto Tietê como um sistema ocorreria em 26 de Dezembro de 2014.

Esse prazo, como dizia, expressa o cenário mais positivo dentro do contexto crítico atual, consubstanciado na real existência de um volume morto não desprezível nas represas de Biritiba-Mirim e Jundiaí e no seu tempestivo bombeamento pela SABESP. De outra forma, considerando-se os 49 dias restantes de volume operacional das três represas que recebem água da estação elevatória, então o “deadline” ocorreria já em 15 de Outubro – a partir daí, teríamos um racionamento forçado, já que os 9 m³/s enviados de Ponte Nova seriam absolutamente insuficientes para manter os níveis atuais de abastecimento.

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Evidentemente, portanto, a SABESP precisaria reduzir consideravelmente a produção atual, da ordem de 15 m³/s, para que haja alguma chance, mesmo que ínfima, de recuperação do Sistema no começo do ano que vem. É o que o Prof. Kachel sugere, p.ex., na entrevista concedida ao GGN na semana passada com relação ao que deveria ter ocorrido, em termos de gestão, com o Cantareira (http://www.jornalggn.com.br/noticia/sabesp-retirou-mais-agua-do-cantareira-do-que-deveria-aponta-especialista). Se fizéssemos uma conta grosseira e estimássemos, p.ex., a redução da produção de água para 12 m³/s (um decréscimo de 20% diante dos níveis atuais), então o Sistema ganharia pelo menos mais 23 dias de abastecimento (mantendo-se os mesmos padrões de déficit), ou até mais 80 dias (expandindo a vida útil do Alto Tietê sem volume morto por 129 dias) caso Ponte Nova e Paraitinga compensassem as demais represas por meio do aumento da sua participação no total da produção nesse contexto de redução global da quantidade de água a ser distribuída. Em outras palavras, o Alto Tietê duraria até 03 de Janeiro de 2015 sem a necessidade de captação de volume morto – quando, quem sabe, chegariam as tão aguardadas chuvas.

São ações de gestão que poderiam ser tomadas hoje pela SABESP, em parceria com a população, com transparência, visão republicana, a partir de marcos de planejamento de curto e médio prazo capazes de preparar e orientar a cidadania a respeito do que fazer nessas épocas turbulentas. É um momento essencial para a emergência do estadismo e de uma postura dialógica em meio a um misto de desinformação, desconhecimento e crescente desespero. A empresa, no entanto, prefere o silêncio e a opacidade, em geral comunicando-se apenas com seus investidores, os verdadeiros “parceiros estratégicos”. Em vez de promover esforços de mudança de cultura sobre a questão da água, volta-se apenas a acalmar a Bolsa de Valores e os formadores de opinião –  que divulgam, acriticamente, os discursos vazios de seus porta vozes e que, dessa forma, fazem a adequada mediação de expectativas para com os institutos de pesquisa eleitoral. Esse esgotado modelo de gestão poderá até mesmo vir a se sagrar vencedor, de uma forma ou de outra, neste pleito de outubro, dando eficácia a um projeto de poder intensamente interessado em mais quatro anos de hegemonia. Os danos à cidadania, contudo, já estão sendo profundamente assinalados e, possivelmente, terão repercussão intergeracional.

12 comentários

  1. Erros de “J”estão a parte,

    Erros de “J”estão a parte, aqui na capital paulistana eu particularmente estou já a alguns meses estou sofrendo bastante com essa falta de humidade. É garganta seca, nariz seco, tem dias que até os olhos ficam ardendo. Uma dica para quem ainda nao usa: a noite estou colocando um humidificador de ar no quarto, melhorou bem as noites de sono e não é muito caro; um dinheiro bem gasto. E, claro, beber muita agua durante o dia.

  2. Geraldo Aidemim

    Geraldo Aidemim

    Com seu terno bem cortado, cabelo bem penteado
    Perfume amadeirado, num rosto emperobado
    Sem com ele se misturar, sem sair do seu conforto
    Lá vai o candidato, pedir o voto do povo
    Prometendo a todo Estado levar o Volume Morto

    A maioria dos paulistas parece muito ansiosa
    Em provar o novo produto, criado pelo candidato
    Pagando com seu voto, o preço alto cobrado
    Em troca de água barrenta, pesada e fedorenta
    Reelege o benfeitor, dá-lhe um novo mandato

    O Marketing foi todo montado, em cima do novo produto
    Nada de estradas, casas, túneis ou viadutos
    É preciso fazer chegar, nas casas de todo Estado
    Pelas bicas, torneiras, mangueiras, chuveiros e canos
    O precioso liquido paulista, o novo elixir tucano

    Até mesmo o slogan, de Geraldo Aidimim
    Com essa água apanhada, do fundo da desolação
    Prá saudar a descoberta, sofreu grande transformação 
    Conclama todo o povo a gritar, distraído, absorto.
    “Viva, Viva, Viva…Viva o Volume Morto”.

    A propaganda política, tem seus mestres geniais
    Transformam lodo em água e vende que nem biscoito
    Pois no Staff de Aidemim, tem sim alguém assim
    Pegando carona na onda, da água que vem do lodo
    Achou por bem chamá-lo, simplesmente “Volume Morto”

  3. Em Minas, tá brabo!

    Dizem que o São Francisco nunca esteve tão sem água como agora. E olha que aquela transposição ainda não está tirando água dele.

    Dizem que há cidades mineiras penando com falta d’água.

  4. a grande culpa crime e castigo é dos comunistas!

    Sistema Alto Tietê chega ao pior nível de sua história. Até quando ele vai durar?

    uai! vai durar, creio eu, o tanto quanto ou mais que já dura sua natureza e vida em movimentos cíclicos estacionais de milhões e milhões de anos antes do homem existir… não importa com que nome ou bicho geográfico.

    a constatação perguntativa que se deve fazer é:

    A espécie humana de doutores teológico-políticos iletrados chega ao pior nível de sua história. Até quando ela vai durar?

    “A Natureza é objetiva e não projetiva; porém, a ação humana é muito mais

    uma atividade projetiva consciente que objetiva”.

     Jacques Monod, biólogo molecular e pensador francês, Nobel de 1965. 

     Quem será que está no controle:

    a Natureza objetiva de 20 bilhões de anos… na existência de rios, vales, florestas, montanhas, continentes, ilhas, nuvens, oceanos e mares, rochedos e geleiras, planícies, planaltos, ventos, chuvas, climas, desertos, pedras, estrelas e galáxias, energias e luzes, seres vivos, sociedades, inteligências, consciências e que pelo livre jogo de forças físicas e químicas universais a que não podemos atribuir, com certeza, nenhum projeto ou lei geral que seja, divino ou cósmico…

    ou

    os PACs e os projetos de uma vida… os projetos de mercado&consumo&ganância; os projetos de governança dos impérios globais de nosso efêmero momentum de ilusão antropocêntrica  frente à Natureza objetiva “sem causas finais, nem causas eficientes, senão, o jogo do acaso e da necessidade?” 

     Pela chave científico-conceitual do bioquímico e pensador francês, Prêmio Nobel de 1965, Jacques Monod, a enrascada toda em que se encontra o planeta, a biodiversidade, a espécie humana e a real condição de um cataclisma terrestre de consequências potencialmente incontroláveis, irreversíveis, imprevisíveis… tudo, começou pra valer! com os comunistas, o pensamento e o método comunista. Impressionante os tentáculos políticos-ideológicos presentes desde nosso Código Florestal, mensalão, petróleo e energias fósseis do carbono, Funai, Incra e todo ativismo e revolução de que se tem notícia, estão lá em meio à confusão e vontade de potência… mas esta em que nos meteram, apesar das boas intenções e utopias, é, sem dúvida, a mais crucial enrascada que mexe com todos os seres vivos e o universo tal qual conhecemos; malgrado, todo edifício intelectual construído a partir do século XVIII para um mundo melhor, mais justo, mais igualitário, mais idealizado para todos…

    “A ideia de reencontrar a antiga aliança animista com a natureza ou de fundar uma nova graças a uma teoria universal, segundo a qual a evolução da biosfera até o homem seria contínua, sem ruptura da própria evolução cósmica, não foi descoberta por Teilhard de Chardin. De fato, é a ideia central do progressismo cientista do século XIX. Encontramo-la no cerne do positivismo de Spencer, como no do materialismo dialético de Marx e Engels. A força desconhecida e incognoscível que, segundo Spencer, opera em todo o universo para nele criar variedade, coerência, especialização e ordem, desempenha exatamente o mesmo papel, em definitivo, que a energia “ascendente” de Teilhard: a história humana prolonga a evolução biológica que, por sua vez, faz parte da evolução cósmica. Graças a esse princípio único o homem, enfim, encontra no universo seu lugar eminente e necessário, com a certeza do progresso a que sempre esteve destinado. A força diferenciante de Spencer (como a energia ascendente de Teilhard) representa evidentemente a projeção animista. (são a escola mãe de toda ideologia projetiva antropocêntrica, enquanto a mãe natureza é objetiva e não projetiva). Para dar um sentido à natureza, para que o homem dela não fosse separado por um abismo insondável, para torná-la enfim decifrável e intelegível, era preciso proporcionar-lhe um projeto. Na falta de uma alma que nutrisse tal projeto, inseriu-se então na natureza uma “força” evolutiva, ascendente, o que de fato vem a dar no abandono do postulado de objetividade.

    Entre as ideologias cientistas do século XIX, a mais poderosa, a que em nossos dias ainda exerce uma profunda influência para além do círculo, contudo vasto, de seus adeptos, é evidentemente o marxismo. Por isso, é particularmente revelador constatar que, desejando fundar nas leis da própria natureza o edifício de suas doutrinas sociais, Marx e Engels também recorreram – muito mais clara e deliberadamente que Spencer – à projeção animista.”

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    Se todos os acontecimentos, todos os fenômenos, são apenas manifestações parciais de uma ideia que se pensa a si mesma, é legítimo procurar na experiência subjetiva do movimento do pensamento a mais imediata expressão das leis universais. E se o pensamento procede dialeticamente é que, portanto, as leis da dialética governam a natureza toda. Mas conservar essas leis subjetivas tais quais são, para torná-las as de um universo puramente material, é efetuar a projeção animista em toda sua clareza, com todas as suas consequências, a começar pelo abandono do postulado de objetividade.

    Nem Marx, nem Engels analisaram em detalhe, para tentar justificá-la, a lógica dessa inversão da dialética. Mas, conforme  os numerosos exemplos de aplicação que notadamente Engels dela dá (no Anti-Durhing e na Dialética da Natureza), podemos tentar reconstruir o pensamento profundo dos fundadores do materialismo dialético. Suas articulações essenciais seriam as seguintes:

    1. O modo de existência da matéria é o movimento.

    2. O universo, definido como a totalidade da matéria, única existente, se encontra em estado de perpétua evolução.

    3. Todo conhecimento verdadeiro do universo é o que contribuí para a compreensão dessa evolução.

    4. Mas esse conhecimento só é obtido na interação, ela mesma evolutiva e causa de evolução, entre o homem e a matéria (ou mais exatamente o “resto”  da matéria). Portanto, todo conhecimento verdadeiro é “prático”.

    5. A consciência se relaciona com essa interação cognitiva. O pensamento consciente reflete, por conseguinte, o movimento do próprio universo.

    6. Já que o pensamento é parte e reflexo do movimento universal, já que seu movimento é dialético, é preciso que a lei de evolução do próprio universo seja dialética. O que explica e justifica o emprego de termos tais como contradição, afirmação, negação, a propósito de fenômenos naturais.

    7. A dialética é construtiva (graças notadamente à terceira “lei”). Portanto, a própria evolução do universo é ascendente e construtiva. Sua expressão mais alta é a sociedade humana, a consciência, o pensamento, produtos necessários dessa evolução.

    8. Pela ênfase colocada na essência evolutiva das estruturas do universo, o materialismo dialético ultrapassa radicalmente o materialismo do século XVIII que, fundado na lógica clássica, só era capaz de reconhecer interações mecânicas entre objetos supostamente invariantes, e permanecia, portanto, incapaz de pensar a evolução.

    Sem dúvida pode-se contestar essa reconstituição, negar que corresponda ao pensamento autêntico de Marx e Engels. Mas isso em suma é secundário. A influência de uma ideologia se deve à significação que dela permanece no espírito de seus adeptos e que dela fornecem seus epígonos. Vários textos provam que a reconstituição proposta é legítima, pelo menos como representante da “vulgata” do materialismo dialético. Citarei apenas um texto muito significativo, porque seu autor era um ilustre biologista moderno, J. B. S. Haldane. Em seu prefácio à tradução inglesa da Dialética da Natureza, ele escreve:

    “O Marxismo considera a ciência sob dois aspectos. Em primeiro lugar, os marxistas estudam a ciência entre as outras atividades humanas. Mostram como a atividade científica de uma sociedade depende da evolução de suas necessidades, portanto de seus métodos de produção que por sua vez a ciência modifica, como também a evolução de suas necessidades. Mas, em segundo lugar, Marx e Engels não se limitavam a analisar as modificações das sociedades. Na Dialética, descobrem as leis gerais das mudanças, não só na sociedade e no pensamento humano, mas também no mundo exterior, refletido pelo pensamento humano.  O que significa dizer que a dialética pode ser aplicada a problemas de ciência “pura” tanto quanto às relações sociais da ciência”.

    O mundo exterior “refletido pelo pensamento humano”: com efeito está tudo aí. A lógica da inversão evidentemente exige que esse reflexo seja muito mais que uma transposição mais ou menos fiel do mundo exterior. Para o materialismo dialético é indispensável que o “Ding an sich”, a coisa ou o fenômeno em si, chegue até o nível da consciência  sem alteração nem empobrecimento, sem que nenhuma seleção tenha sido operada entre suas propriedades. É preciso que o mundo exterior esteja literalmente presente à consciência na integridade total de suas estruturas e de seu movimento.

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    Para iluminar a lanterna do pobre Duhring que já os denunciava, o próprio Engels propôs numerosos exemplos de interpretação dialética dos fenômenos naturais. Lembremo-nos do célebre exemplo do grão de cevada, dado como ilustração da terceira lei:

    “Se um grão de cevada encontra as condições que lhe são normais, uma transformação específica se opera nele sob a influência do calor e da umidade, e ele germina: o grão desaparece enquanto tal, é negado, substituído pela planta nascida dele, negação do grão. Mas qual é a carreira normal dessa planta? Ela cresce, floresce, fecunda-se e produz novos grãos de cevada, e tão logo estejam maduros, a haste murcha, é negada por sua vez. Como resultado dessa negação da negação, temos novamente o grão de cevada do início, não simples, mas dez, vinte, trinta vezes maior…”

    Assim também acrescenta Engels mais adiante, na matemática: tomemos uma grandeza algébrica qualquer, por exemplo, a. Neguemo-la, teremos -a. Neguemos esta negação multiplicando -a por -a, teremos a”, isto é, a grandeza positiva primitiva, mas num grau superior….”, etc.

    Esses exemplos ilustram sobretudo a amplitude do desastre epistemológico que resulta do uso “científico” das interpretações dialéticas. Os dialéticos materialistas modernos evitam geralmente cair em semelhantes infantilidades. Mas fazer da contradição dialética a “lei fundamental” de todo movimento, de toda evolução, é tentar sistematizar uma interpretação subjetiva da natureza que permita não só descobrir nela um projeto ascendente, construtivo, criador, como também torná-la enfim decifrável e moralmente significante.  Trata-se da “projeção animista” sempre reconhecível, quaisquer que sejam seus desvios.

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    Na raiz desses erros certamente está a ilusão antropocentrista. A teoria heliocêntrica, a noção de inércia, o princípio de objetividade, não podiam bastar para dissipar essa antiga miragem. A teoria da evolução, longe de fazer desaparecer a ilusão, parecia conferir-lhe uma nova realidade tornando o homem não mais o centro, mas o herdeiro desde sempre esperado, natural, do universo todo. Deus enfim podia morrer, substituído por essa nova e grandiosa miragem. Doravante, o esforço último da Ciência será o de formular uma teoria unificada que, fundada num pequeno número de princípios, dará conta da realidade toda, inclusive da biosfera e do homem. Era nessa certeza exaltante que se alimentava o progressismo cientista do século XIX. Teoria unificada que os dialéticos materialistas criam de fato já ter formulado.”

    O Acaso e a Necessidade, de Jacques Monod, 1970  (R$. 1,99 no Sebo do Messias, atrás da Catedral da Sé em meio as mulheres de vida fácil na rua das ilusões perdidas).

     

     

     

     

  5. Barragens nos afluentes do Velho Chico

    Há um projeto antigo de construção de nove grandes reservatórios nos grandes afluentes mineiros do SF. Alguma energia elétrica seria gerada, mas ela não justificaria os gastos. Com esses grandes lagos, o regime do SF seria teoricamente regulado o ano inteiro com um fluxo bem maior do que o atual. A navegação em maior escala seria viabilizada, haveria água para irrigação de grandes áreas, a produção firme de energia no baixo SF seria aumentada em mais de 30%, se me lembro bem. Os lagos ajudariam a melhorar o clima do norte e noroeste de MG.

    Tudo isso caiu no esquecimento.

  6. O Rio Tietê está seco na marginal???

    Se não está seco dentro de SP, ainda temos água.

    A população pode ficer tranquila.

    É só tratar a água! Porque não fazem isto?

    Estímulos para reuso da água nas residências…

    Estímulo para aproveitamento da água das chuvas…

    O jeito então é rezar, mas são as mesmas pessoas que rezam…São Pedro está acostumado com isto…quem reza tem que fazê-lo com alguem que não reza, para São Pedro acordaaaaaaaaaaaaaaar…

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