Sobre os sonhos e os pesadelos dos neoliberais brasileiros

Os governos Lula e Dilma Rousseff apostaram na integração regional e na formação dos BRICS. A nova ordem multipolar começou a tomar forma quando o novo bloco criou seu próprio banco de fomento. Esses dois processos foram suavemente interrompidos. A Lava Jato destruiu diversos setores da economia provocando um verdadeiro caos político. O golpe de 2016 e a eleição de Bolsonaro transformaram o Brasil num pária aos olhos de Rússia e China.

A prioridade do novo governo é desmantelar tudo o que foi feito até 2016 recolocando nosso país sob a dependência dos EUA. A entrega da Embraer à Boeing, as novas facilidades concedidas aos turistas norte-americanos e a tentativa (abortada, pelo menos por enquanto) de permitir aos EUA construir uma base militar no Brasil comprovam que o Brasil escolheu um novo rumo. Impossível dizer quais serão os desdobramentos futuros desta mudança de curso.

Os arquitetos do golpe de 2016 disseram que os investimentos internacionais aumentariam se Dilma Rousseff fosse derrubada. Essa previsão funcionou exatamente como a promessa de ouro farto depois de uma serra distante que os índios faziam aos colonos que perseguiam o El Dorado. Na maioria das vezes os colonos caminharam sem chegar à lugar algum se afastando das terras indígenas (como os índios desejavam, devemos acrescentar). Promessa idêntica foi feita para eleger Bolsonaro, mas ao que tudo indica os investimentos internacionais não virão.

A criação do BC ocorreu num momento político mais ou menos semelhante ao que estamos vivemos se deu num momento semelhante ao que estamos vivemos.

“Em 1964, após o golpe militar, o Congresso Nacional estava mutilado pela cassação de direitos políticos e mandatos de diversos parlamentares, especialmente daqueles que defendiam ideologias nacionalistas ou populares (Minella, 1988, p. 64). O novo regime instaurado tinha, nesse momento histórico, o controle do processo legislativo para a estruturação da lei que criaria o Banco Central do Brasil. O governo de Castello Branco encarregou Octavio Gouveia de Bulhões, então ministro da Fazenda, desse projeto político-econômico. Para estruturar o projeto, Bulhões criou um grupo extraparlamentar formado por lideranças da elite de banqueiros brasileiros e estrangeiros, inclusive pelo economista Denio Nogueira, que viria a ser o primeiro presidente da entidade (Minella, 1988, p. 66-67).” (A moldura jurídica da política monetária, Camila Villard Duran, editora Saraiva, São Paulo, 2013, p. 105)

China e Rússia não perderão tempo investindo numa província norte-americana. Os europeus estão enrolados nos seus próprios problemas políticos e econômicos. O governo dos EUA quer levantar uma muralha na fronteira do México e isso sugere que nenhum Plano Marshall neoliberal será elaborado para reciclar excedentes em dólar no Brasil.

O que nosso país vai ganhar se submetendo voluntariamente aos EUA? Nem paz, nem prosperidade, nem moeda comum. Os norte-americanos nunca irão abrir mão do “privilégio exorbitante” (expressão cunhada por Valery Giscard d’Estaing) de emitir unilateralmente sua moeda para explorar o que considera ser sua zona de influência econômica, especialmente agora que China e Rússia reforçam suas relações econômicas e monetárias. Além disso, basta olhar para a Europa para ver como o sonho de uma moeda unificada pode rapidamente se transformar no pesadelo de deixar de ter qualquer coisa em comum com os parceiros.

Ao contrário do que ocorreu em 1964, nesse momento a direita brasileira não tem nem projeto claro nem condições internacionais de fazer o Brasil tirar qualquer proveito em razão dela controlar o Estado. As privatizações de FHC deram um fôlego de galinha à economia brasileira. As que Jair Bolsonaro pretende realizar certamente não conseguirão fazer muito mais do que isso. O que a esquerda vai oferecer ao país? Não basta resistir. Será preciso avançar e arrancar o país das mãos dos neoliberais. Caso contrário, corremos o risco de perder até mesmo a unidade territorial por causa da guerra financeira que Bolsonaro declarou ao nordeste.

 

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