Tempos de Turbilhão, Darcy Ribeiro

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Mesmo quando realçam a sofisticação do golpe em curso (desferido por parlamentares com ajuda da mídia e dos Juízes) alguns jornalistas e analistas políticos insistem em comparar 2016 a 1964. Em razão disto, uma releitura da obra de Darcy Ribeiro é recomendada.

“O governo Jango era reformista, mas a profundidade das reformas que propunha fez com que ele passasse a ser percebido como revolucionário, provocando, assim, uma contrarevolução preventiva. Caiu porque a única forma de enfrentar uma contra-revolução é fazer a revolução e isto excedia a tudo o que aquele governo pretendia.” (Tempos de Turbilhão – Relatos do Golpe de 64, Darcy Ribeiro, editora Global, São Paulo, 2014, p. 59).

O golpe desferido contra Dilma Rousseff não foi violento. De fato, duvido muito que Michel Temer/Eduardo Cunha tivessem condições de reunir tropas para conseguir conquistar o poder com o uso de violência. O PT, por outro lado, ampliou os gastos militares e, sem dúvida alguma, realizou o maior programa de modernização das Forças Armadas desde a década de 1970. Tudo bem pesado, o partido de Lula deveria estar em condições de usar a força bruta contra Temer/Cunha. Mas nada foi feito para impedir o golpe.

Esta será, talvez, a maior ironia da História do Brasil. Nunca antes em nosso país um governo apoiado pelos comandantes militares caiu de uma maneira tão pacífica. João Goulart caiu porque não tinha o apoio dos militares. Dilma Rousseff recebeu o apoio dos comandantes das três armas e caiu sem dar um único tiro no seu adversário. É por isto que não podemos fazer comparações entre o golpe de 1964 e o de 2016.

Há ainda uma questão que merece ser estudada com cuidado. Michel Temer está realizando uma ampla reforma neoliberal sem ter sido eleito pela população para realizar o programa de governo que ele resolveu impor ao país. Como se fosse um verdadeiro autocrata, Temer já começou a cortar os investimentos na área social.

O programa Minha Primeira Mansão substituiu o Minha Casa Minha Vida. O SUS está sendo deliberadamente assassinado pelo Ministro da Saúde. O TST e os TRTs estão sendo sucateados no exato momento em que os Juízes receberam aumento salarial. O programa ciência sem fronteiras foi enterrado, os outros programas educacionais da União estão sendo parcialmente interrompidos. As forças reformistas (O Globo) exigem a privatização das universidades públicas. A jóia da coroa do novo Brasil, o Pré-Sal, está sendo entregue aos norte-americanos.  

Em 1964 as Forças Armadas interromperam as Reformas de Base. As reformas impostas ao país sem o apoio da população (e mesmo contra a vontade da maioria do povo) serão toleradas pelos militares? Eles vão aderir ao golpe de Michel Temer/Eduardo Cunha ou preparam um verdadeiro golpe para interromper a destruição do Estado que levará inevitavelmente a manifestações civis cada vez maiores e mais violentas? Estas são as perguntas que seguem sem resposta.

Na Turquia o golpe foi interrompido e os responsáveis foram presos. Vários juízes foram metidos na cadeia junto com os políticos e militares golpistas. O mesmo ocorrerá no Brasil ou estamos fadados a confirmar o que disse um ex-presidente turco ao comparar a Turquia com alguns países latino-americanos?

O livro de Darcy Ribeiro não traz respostas para as nossas dúvidas em razão do golpe de 2016. Mas a sua leitura pode nos ajudar a formular as perguntas certas. 

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2 comentários

  1. “Chegada a hora,eu veria a

    “Chegada a hora,eu veria a ser não o médico que tanto supus e quis,mas o cogitar que jamais cogitei.Ainda estou aprendendo a me ser,eu mesmo,comigo:Migo,nas pautas variadas em que estou sempre me sendo e me mudando.Assim será fatalmente,até que não mais seja nem esteja.O certo é que sairei sofrido,com o sentimento fundo de estar deixando o mundo desconsolado para sempre dá orfandade de perder-me”.Lindo de viver.Trecho do livro MIGO,que recebi com dedicatória de Papai.Essa foi a herança maior que Papai me deixou.Darcy é um meus ídolos.Papai também.

  2. Perfeita e ponderada, nesta noção de recontar o passado
    Li, faz uns dois anos, um dos livros de Skidmore sobre o período militar brasileiro. É de arrepiar os cabelos de apenas uma das premissas do estudioso americano. Militares teriam feito votações nos quartéis para decidir caminhos políticos, e o que fizeram fora da caserna, no periodo de 64 a 78, foi simplemente tentar tapar a boca das urnas, contra manifestação popular. Espantoso que um estudioso consiga, dentre outros ‘achados’ do livro implementar acriticamente esta tese prá lá de inverossímil. Ou uma ( haviam votações de caserna ) ou outra ( os militares tapavam, simbolicamente, as urnas ). Simples assim. Se as decisões foram colegiadas ( e não teria como ser diferente ) no meio militar teria se instituído o voto? Num ambiente de caserna? Junto com a repressão, juridica inclusive, às urnas? Além de não conseguir sair da tendência à descrição romanceada épica. Os nossos livros reportagem da Geração Editorial, deixariam a narrativa dele no chinelo.

    Pois é, a mudança da narrativa atinge quem, primeiro podendo, nem rememora, nem lê e nem conclui. A propalada absolvição de Collor. Os mais velhos lembram que a PF de Tumão invadiu e levou os computadores de Paulinho Gasolina sem mandato. Isto originou prova colhida por meio ilícito. Que posteriormente absolveu Collor. Aliás lembrar que Tumão foi chefe da Receita e PF, concomitantemente…

    Agora deu de se reabilitar Jorge Serpa, enquanto outros…se falarmos dos indiscutíveis méritos de Golbery, consuram nossos comentários.

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