The Economist tem espaço reservado para “A confusão política do Brasil”

Jornal GGN – A revista inglesa The Economist tem reservado um espaço especial em seu site para “A confusão política do Brasil”. Na matéria mais recente, os jornalistas estrangeiros se propõem a responder a pergunta: “O que vem depois da votação de impeachment da presidente brasileira?”. Na primeira linha (a linha fina, no jargão jornalístico) a publicação já sugere a resposta: “O vice-presidente deve assumir o poder. Não vai ser fácil para ele governar o país”.

Para a Economist, o 342º voto pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff jogou o Brasil em um momento “tenso e incerto”. A questão passa agora para uma Comissão Especial no Senado Federal, que precisa decidir, por maioria simples, em dez sessões, se o julgamento vai ou não prosseguir. É provável que prossiga e, nesse caso, Dilma deve ser afastada e o vice assume o poder por até 180 dias, enquanto o Senado decide se ela será de fato impedida de levar o mandato até o final. Na segunda votação são necessários 2/3 dos votos para consumar o impeachment.

A revista internacional faz um exercício e presume que o impedimento de Dilma vai se concretizar e que Temer vai ser o novo presidente do Brasil. “Ele vai encarar uma tarefa assustadora. A economia está em parafuso. O rendimento econômico caiu 3,8% em 2015 e pode encolher o mesmo tanto este ano, de acordo com o FMI. 10 milhões de brasileiros, um em cada dez trabalhadores, estão desempregados. A inflação cedeu levemente, mas continua na casa de 10%, erodindo a renda. Para restaurar a confiança, Temer precisaria primeiro reduzir o déficit orçamentário, que inchou de 2,4% do PIB para 10,8% desde que Dilma assumiu o cargo em 2011. Isso exigiria uma combinação de cortes de despesas e elevação de impostos, duas medidas impopulares que ainda precisam de emendas constitucionais para valer”.

Segundo a publicação, os investidores vão brindar o impeachment. “Muitos acreditam que qualquer um é melhor do que a infeliz Dilma Rousseff”. “Mas a euforia vai durar pouco se ele [Temer] não apresentar rapidamente uma agenda de reforma clara e um time econômico forte”.

A revista entende que não há garantias em nenhum dos casos. “Só porque 72% da Câmara apoiou o impeachment, isso não quer dizer que Temer terá facilidade para conseguir maiorias simples para as reformas no Congresso, menos ainda os 3/5 de ambas as Casas necessários para emendar a Constituição. Ele não pode capitalizar sequer o apoio integral do seu próprio partido de centro, o PMBD: sete dos seus colegas de partido apoiaram Dilma na votação do impeachment, incluindo o líder na Câmara, Leonardo Picciani”.

Para montar uma equipe de governo, Temer vai precisar equilibrar as demandas dos 27 partidos do fragmentado Congresso Nacional brasileiro. “Ele pode achar difícil atrair talentos devido ao problema de imagem do PMDB. O partido, que era o aliado mais próximo do PT até romper com o governo no mês passado, também está enrolado no caso da Petrobras. Seis dos seus congressistas sêniores estão sendo investigados, incluindo o presidente do Senado Renan Calheiros”.

De acordo com a Economist, a postura reformista dos setores empresariais funciona na teoria, mas talvez não se concretize na prática. “Impostos mais altos são uma anátema para  federações empresariais que possuem considerável influência com os políticos do PMDB. Muitos empregadores, especialmente no setor manufatureiro, são avessos à noção de cortar subsídios ou levantar barreiras comerciais que os protegem da competição estrangeira. E eles não vão voltar a contratar repentinamente: o panorama continua muito incerto para isso. Austeridade não ganha votos, o novo governo vai relutar em cortar gastos antes das eleições regionais de outubro, que são particularmente importantes para o PMDB”.

Além disso tudo, Temer terá a difícil missão de convencer uma grande minoria de esquerda a legitimar o seu governo. A unanimidade que derrubou Fernando Collor em 1992 não está presente na crise de hoje. “53 mil manifestantes pró-impeachment celebraram o resultado em frente ao Congresso Nacional; do outro lado de uma cerca de aço, 26 mil gritavam ‘golpe’. Cenas semelhantes – tirando a cerca – se repetiram por todo o país. As multidões anti-governo agora devem se dispersar, pelo menos até a decisão final do Senado daqui a alguns meses. Aqueles que vêm o impedimento de Dilma Rousseff como um golpe antidemocrático dificilmente ficarão em silêncio”.

Em outra matéria, a Economist destacou os motivos anunciados nos votos dos deputados federais. “Quase nenhum dos favoráveis ao impeachment listou as acusações em questão como suas razões para votar pelo afastamento da presidente”.

A lista inclui absurdos como: pelo aniversário da minha neta; pelos fundamentos do cristianismo; pelos maçons do Brasil; pela renovação carismática; pelos médicos brasileiros; para acabar com a CUT; pela República de Curitiba; pelos corretores de seguros; pela paz em Jerusalém; pelo estado de São Paulo, governado há 20 anos pelos políticos honestos do meu partido; em tributo ao meu pai Roberto Jefferson; pelo coronel Carlos Alberto Ustra, o terror de Dilma; contra a ditadura bolivariana.

A Economist continua a acompanhar com interesse os melhores capítulos da novela política brasileira, com a certeza de que essa obra-prima da ficção divina ainda está longe de acabar. 

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