Um lugar para os inocentes, por Douglas Portari

 
Um lugar para os inocentes, por Douglas Portari
Você nunca foi violento, era temente a Deus. Uma pessoa esforçada, lutando para sobreviver honestamente em um país injusto. Tudo o que você queria era um homem forte, uma autoridade. Alguém com pulso firme para impor a disciplina e trazer a ordem. Um líder. Não foi assim antes? Você concordou quando disseram que menos liberdade era o preço para mais segurança.

Ficou realmente contente e se sentiu protegido quando os fardados passaram a ficar nas esquinas. Atendia com prazer à ordem de averiguação e revista como quem prestava um serviço social. Seguiu tocando a vida como sempre. Ouvia notícias sobre pessoas presas. Baderneiros. Até gente que parecia correta, mas inocente? Não demorava e apareciam seus crimes.

Um dia, ao chegar em casa, a mulher lhe falou que a filha da vizinha havia sido presa. Professora. Dias antes, ela discutira com outro vizinho por conta de um muro. Este tinha amigos fardados. Alguma coisa ela fez, não era inocente, você jurou. Já na esquina, o mau humor dos fardados era agora indisfarçável. Para você, importante era o bem maior. Mas havia quem protestasse.

Na TV, você ouviu o jornalista-pastor apontar arruaceiros que espalhavam o caos, pregavam o ódio, atrapalhavam o trânsito. Aqui e ali, a meia voz, havia quem dissesse que era por direitos, que férias, semana de trabalho de 40 horas, 13º salário foram todos conquistados assim. Mas o líder tinha explicado: “Ou menos direitos e mais trabalho ou direitos e trabalho nenhum.”

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Você acreditava e torcia, ainda que nada houvesse melhorado. Labuta e suor eram por empreitada e a paga, muito pouca. Um dia, após as orações da manhã, um colega lhe chamou de canto. “Você precisa atuar mais no grupo do Whatsapp. Você não comenta nada, não compartilha as notícias do líder… o povo começa a falar”. Falar? Você não era muito de participar, mas era um fiel.

Na esquina, naquela tarde, o fardado olhou pra sua carteira de trabalho e ironizou, “Trampou pouco, hein? E esse registro é antigo”. Você gaguejou que trabalhava desde menino, mas as empresas não o registraram. Ele jogou a carteira no chão. “Vaza”. Você não acreditava na humilhação. Sempre os apoiara, sempre os defendera, o que você tinha feito de errado?

Em casa, finalmente. A mulher chorava. O primo morrera atropelado de bicicleta. Um motorista havia cruzado o sinal vermelho. Pegaram? “Parece que era um juiz. Os fardados disseram que a culpa foi do meu primo. Estava bêbado”. Mas ele nunca bebeu, você balbuciou. “Disseram pra deixar isso pra lá, que era melhor não mexer, que o juiz não ia nem cobrar o conserto do carro.”

Na mesma semana, no trabalho-avulso, passaram uma lista para todos assinarem. “É ficha de inscrição do partido. Podem assinar, é bom pra todo mundo. Amanhã, depois, aparece uma vaga, quem tiver a carteirinha larga na frente”. Você nunca pensou em fazer parte de partidos políticos, mas não queria desagradar a chefia. “Assine, não seja inocente”, disse o colega. Você assinou.

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Naquela noite, na esquina, havia mais fardados que de costume; alvoroço, gente chorando. Não estavam revistando, mandavam passar. Havia um carro no meio da rua, crivado de balas, gente dentro. Meu Deus, crianças também, era uma família. O que aconteceu? Sussurraram: “Disseram que o carro passou atirando e eles metralharam”. Mas tem crianças dentro. “Inocentes não eram.”

Na TV, você não viu nada sobre o assunto nos dias seguintes. Só o líder prometendo destruir quem atacava o país – dentro e fora das fronteiras. Na esquina, o asfalto estava limpo, não havia mais sinal algum do tiroteio. Só a truculência restara. Eles agora olhavam para todos com ódio e desprezo. Era como se os não-fardados fossem culpados, em cada rosto um inimigo oculto.

Não demorou e, numa madrugada, você acordou assustado. Arrombavam sua porta. Ladrões! Não, não eram ladrões. Era a milícia do bairro. “A casa caiu, cê tá preso!”. Mas o que eu fiz? “Você sabe o que fez, vagabundo! Nós temos aqui a denúncia”. Denúncia de quem? “Anônima”. Eu não fiz nada, sou inocente, você gritou. “Fica tranquilo. A gente tem um lugar pros inocentes.”

 

 

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