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Uma indispensável crítica da autocrítica, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Uma indispensável crítica da autocrítica, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Em julho de 2018, aqui mesmo no GGN, defendi a tese de que a esquerda poderia estar fadada à derrota em razão da estratégia que foi escolhida:

“Os evangélicos se reúnem nos templos. Os militantes operários se reúnem na internet. Os governos Lula e Dilma apostaram na inclusão digital acreditando que poderiam assim aumentar sua base de sustentação política. Este erro estratégico pode ter sido fatal.

É fato, o ambiente virtual escolhido pela esquerda para competir politicamente com os evangélicos é inadequado. Enquanto a profundidade intelectual da esquerda se torna superficial na internet por causa das características da própria rede mundial de computadores, a superficialidade dos pastores evangélicos se torna mais e mais profunda nas consciências dos fiéis porque o ambiente dentro das igrejas proporciona concentração e não dispersão.”

https://dev.jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/o-dragao-da-internet-contra-o-pastor-evangelico-guerreiro-por-fabio-de-oliveira-ribeiro

A derrota de Fernando Haddad confirmou em parte minhas expectativas. Entretanto, é preciso salientar que a campanha massiva de Fake News organizada pelo clã Bolsonaro também ajudou a definir o resultado  que provavelmente será homologado pela Fake Justice https://dev.jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/alain-de-botton-e-a-construcao-do-reich-bananeiro-por-fabio-de-oliveira-ribeiro https://dev.jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/o-horror-o-horror-o-horror-por-fabio-de-oliveira-ribeiro.

Volto ao tema porque lembrei um episódio há muito tempo esquecido.

Em meados de 1987 o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Plásticas de São Paulo – que muitos anos depois iria se fundir ao Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas de São Paulo – realizou um seminário de três dias para reorganizar seu Departamento Jurídico. Estiveram presentes neste evento umas 25 pessoas entre dirigentes sindicais, advogados e estagiários de Direito. Apesar de estar então cursando o 3º ano da Faculdade de Direito de Osasco participei ativamente daquele seminário.

Um dos pontos defendidos pela diretoria do Sindicato era a modernização do atendimento. O dirigente sindical que organizou o seminário, tinha uma proposta revolucionária: superar o modelo individual de atendimento dos trabalhadores juridicamente assistidos pelo Sindicato. Os sócios e não sócios que procurassem o departamento jurídico deveriam ser reunidos antes ou depois de cada um ser individualmente atendido. Nesse momento crucial eles teriam uma preleção em que temas gerais de grande relevância sindical seriam expostos e, depois, debatidos. O atendimento poderia assim se transformar num momento de politização, reforçando a vinculação entre os operários e sua entidade de classe.

Aquele evento resultou na contratação de uma equipe de advogados e estagiários para implementar as propostas debatidas no seminário. Fui um dos contratados. Infelizmente, em pouco tempo as diretrizes definidas no seminário tiveram que ser abandonadas.

A rotina sindical e as características da assistência jurídica prestada aos sócios e não sócios impedia a realização diária das preleções coletivas. Cada trabalhador tinha sua própria agenda e muitos não podiam ficar mais tempo do que o necessário no Sindicato. A atividade cotidiana dos diretores era parcialmente definida por fatos alheios ao controle deles (conflitos nas fábricas que demandavam sua intervenção). Quando alguns operários eram reunidos no Departamento Jurídico nem sempre havia alguém disponível ou suficientemente preparado para debater questões sindicais com eles. Os advogados e estagiários não podiam deixar de atender as pessoas que procuravam o sindicato no momento das preleções.

O fracasso daquele experimento sindical do qual participei na década de 1980 foi relembrado hoje no exato momento em que, chegando ao trabalho, passei em frente ao templo evangélico que funciona no antigo Cine Estoril em Osasco. Impossível não mencionar aqui outro fato importante. Foi justamente na década de 1980 que os evangélicos começaram a comprar cinemas desativados para transformá-los em locais de culto. Os espetáculos religiosos permanentes realizados diariamente nestes templos-cinemas se transformaram numa imensa fonte de renda e consolidaram a força política avassaladora que levou Eduardo Cunha à presidência da Câmara dos Deputados e, depois, Jair Bolsonaro à presidência da república.

Devemos admitir, portanto, a hipótese de que a derrota da esquerda não começou em 2016. De fato, ela vinha sendo diariamente plantada e regada pelas igrejas evangélicas desde a década de 1980. Por isso é importante recuperar nesse momento experiencias fracassadas como aquela que ocorreu no Departamento Jurídico do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Plásticas de São Paulo. Afinal, nós vivemos numa sociedade do espetáculo e tudo indica que a esquerda não conseguiu transformar sua doutrina política num show suficientemente atrativo para o respeitável público.

A vitória eleitoral da teatralização dos dogmas religiosos e políticos deve ser estudada de maneira bastante cuidadosa pela esquerda. Caso contrário ela não retornará ao poder. Afinal, aprender com o adversário é mais importante do que fazer autocrítica.

 

 

Em destaque uma ilustração de Pawel Kuczynski

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